Como acabava de entrar na pós-graduação, alertei-o de que esse termo era pejorativo e que causava constrangimento, não só a mim, como a diversos outros estudantes de origens sociais e orientações ideológicas diferentes. Nove deles arriscaram seu futuro acadêmico e assumiram as conseqüências do desgaste que isso acarretaria junto ao corpo docente quando decidiram apresentar queixa formal a mais de uma instância interna da universidade.
A utilização de um termo vulgar e preconceituoso em sala de aula não foi o que motivou a denúncia e a mobilização dos estudantes contra o professor. Primeiramente, ela motivou a necessidade de um diálogo e uma frustrada tentativa de fazê-lo compreender que, como único estudante negro da turma, ciente e alvo constante das inúmeras formas de discriminação racial, veladas ou não, o uso continuado do termo soava como um ataque à dignidade do grupo ao qual pertenço.
Além disso, sua postura como professor poderia sinalizar para os estudantes menos atentos, ou insensíveis à discriminação racial, que o termo poderia ser utilizado normalmente como qualquer outro. Ou, o que é muito pior, e academicamente insustentável, que a palavra “criolada” (que possui uma conotação pejorativa) seja uma tradução competente da expressão “black under-class” (que não tem essa mesma conotação).
Contudo, o professor não apenas se recusou a abandonar o uso de uma palavra eticamente condenável (porque ofende) e academicamente inadequada (porque não é o que diz ser) como afirmou que continuaria se referindo ao conjunto da população negra como “criolada” quando lhe aprouvesse, ainda que tivesse que impetrar um mandado de segurança para tal. Foi sua intransigência, sua recusa ao reconhecimento da ofensa mesmo quando alertado, sua desconsideração às nossas solicitações, e não que uma postura gratuitamente beligerante o que motivou o encaminhamento de uma queixa formal ao Reitor.
A primeira reação diante da denúncia foi um contra-ataque agressivo, com o aprofundamento das ofensas. Depois, uma tentativa forçada de passar de agressor a vítima quando valeu-se de seu lugar de autoridade e do espaço que a universidade pública lhe oferece para me acusar publicamente de “racista negro” e “Klu Klux Klan às avessas”. E, por fim, a tentativa cômica de vender ao público a imagem de alguém perseguido pela suposta seita dos defensores do “politicamente correto”.
O “Caso Kramer”, no entanto, não deve ser lido de forma sensacionalista e sim como um sintoma de um problema da sociedade. Ele foi a válvula que explodiu no momento e no lugar onde estudantes negros e negras estão tomando assento nas salas de aula da primeira universidade pública federal a adotar o sistema de cotas.
Esse, no entanto, não é um caso isolado: em 1998 no Departamento de Antropologia da UnB, Arivaldo Alves, único estudante negro a ingressar no doutorado na época, teve que lutar mais de dois anos nas instâncias internas da universidade até provar que havia sido vítima de uma reprovação injusta. Estes dois episódios evidenciam o alto grau de hostilidade que sofrem os estudantes negros quando começam a avançar posições na hierarquia acadêmica, como no ingresso à pós-graduação.
O presente caso, portanto, pode ser o marco de uma guinada nos comportamentos, que vise colaborar para o avanço do nível de respeito mútuo da diversidade que lentamente vai ocupando espaço na Universidade de Brasília. A abertura de uma comissão de sindicância para a investigação do fato abrirá um precedente que comporta seus riscos. De um lado, caso a instituição opte por uma saída corporativa, à la Câmara dos Deputados, e confira um certificado de inocência ao professor, o uso da palavra “criolada” para se referir aos negros será simplesmente sancionado e poderá tornar-se vocábulo corrente, não só nos corredores, como dentro da sala de aula, mesmo sendo ofensivo aos alunos negros.
Mas, se a comunidade universitária, de forma exemplar, utilizar-se de sua autonomia para impor algum tipo de sanção a sua conduta, ela sinalizará para a comunidade interna e para a sociedade brasileira o início da construção de uma convivência mutuamente enriquecedora em ambientes étnica e racialmente diversificados. Esse novo tipo de convivência requer não apenas o abandono do vocabulário estigmatizante, proveniente do colonialismo e do escravismo, mas também, como em toda sociedade democrática, o estabelecimento de parâmetros mínimos de liberdade de expressão com respeito às diferenças.

Gustavo Freitas Amora