Nos últimos 40 anos, houve mudanças profundas na política e na economia brasileira, começando pela ditadura que teve seu período mais nefasto nos anos 1970, em que o número de afrodescendentes assassinados foi significativo. Fato pouco destacado, até porque os grandes órgãos de imprensa só entraram na luta pelo fim da ditadura quando alguns dos seus também começaram a ser vítimas, como no caso do brilhante jornalista Wladimir Herzog, torturado e morto nos porões do Doi-Codi, em 1975. Os anos 1980 marcaram, e muito, as ações da sociedade civil na reorganização do estado brasileiro. Mesmo dividido estrategicamente por uma engenharia fratricida em partidos políticos, o movimento negro contribuiu de forma determinante, seja em proposições para a nova constituição ou em manifestações no início dos anos 1990, mas quando precisamos da solidariedade dos “companheiros” a resposta foi dúbia, pois muitos daqueles que estiveram ao nosso lado pelo fim da ditadura, pela redemocratização do país e pelo fora Collor, puseram-se ao lado da grande mídia e radicalmente contrários a qualquer tipo de política afirmativa para negros. E mais, intelectuais como Caetano Veloso, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar e o novelista Aguinaldo Silva assinaram até manifesto contra as cotas nas universidades. No início deste século, a eleição do primeiro operário à Presidência da República e a ascensão de uma nova classe política consolidaram de vez mudanças sociais forjadas naquelas décadas. Do ponto de vista macroeconômico, o apontamento para mercados como África e Ásia, priorizando parceiros comerciais como China e Índia entre outros e não mais Europa e Estados Unidos, coincidiu com a elevação das classes C e D no Brasil (majoritariamente negra), dando uma maior diversidade econômica ao quadro social do país, forçando aberturas em vários segmentos conservadores como a televisão brasileira que sempre relutou em mostrar a periferia preta e pobre e, nesse novo cenário, se vê obrigada a mostrar um “Divino” (bairro fictício da periferia da novela Avenida Brasil) mesmo que travestido de branco, mas com fortes características pretas, pobres e populares. Impulsionado por esse novo momento em que as cotas nas universidades foram aprovadas pelo Supremo Tribunal Federal, que o desempenho dos primeiros cotistas oriundos de escolas públicas é igual ou melhor que o de estudantes vindos das melhores escolas particulares, a nova ministra da Cultura, Marta Suplicy atende reivindicação antiga e anuncia que lançará editais com recortes raciais para artistas e produtores negros. O que se viu em seguida foi uma enxurrada de críticas de diversos setores artísticos e, mais uma vez, escalaram um nome de peso para a linha de frente no combate a essa medida: entra em cena o roqueiro Lobão com espaço de sobra para criticar as cotas e as ações afirmativas. Em nenhum momento o movimento negro tachou intelectuais que gozam de espaço privilegiado na grande mídia de direitistas ou de conservadores. O máximo que se chegou foi apontá-los como equivocados e alguns de oportunistas. Foi só o ministro Joaquim Barbosa ampliar seu espaço nesses órgãos para ser tachado de direitista, tendo até que explicar em entrevista ao jornal Folha de São Paulo que votou em Lula e Dilma. Será que toda vez que um negro alcançar um lugar de destaque no Brasil terá que explicar que não é de direita, ou será que em nosso país alguns espaços estão destinados apenas aos brancos, independentemente de suas condutas ideológicas?

Maurício Pestana