S. Paulo – A cantora e comentarista da TV Globo dos desfiles das Escolas de Samba de São Paulo, Leci Brandão, diz que aceitou disputar uma cadeira na Assembléia Legislativa (Nº 65.035) atendendo ao convite do cantor, apresentador e empresário José Neto de Paula, o Netinho, candidato pelo seu partido – o PC do B – ao Senado, na coligação com o PT.
Ela afirma que suas propostas são a maior inclusão e acesso dos negros às universidades, aplicação da Lei Maria da Penha com maior rigor, valorização dos professores e o apoio a projetos sociais para ciranças e jovens nas quadras de escolas de samba durante o ano. Leci também defende a preservação da memória do samba de S. Paulo, e a defesa das terras quilombolas.
Veja, na íntegra, a entrevista de Leci, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira
Afropress – Por que é candidata a Deputada Estadual por São Paulo e quais são suas principais propostas se eleita?
Leci Brandão – Fui convidada por Netinho de Paula, vereador em São Paulo, e Orlando Silva, Ministro do Esporte, ambos do PCdoB. Demorei quase cinco meses para me decidir. Entretanto, ambos me convenceram que eu poderia contribuir mais, enquanto parlamentar. Afinal, minha batalha pelo menos favorecidos já dura 35 anos.
São várias propostas, entre elas está maior inclusão e acesso dos negros às universidades; Aplicação da Lei Maria da Penha com maior rigor; Valorização dos professores, tanto no aspecto salarial, como no profissional; Projetos sociais para as crianças e jovens nas quadras de escolas de samba durante o ano; Resgate e preservação da memória do samba de São Paulo; Cultura popular de verdade nos palcos capitaneados pelo Governo do Estado; Combate à intolerância religiosa; Respeito pleno às religiões de matriz africana; Combate a homofobia; Titularização das terras quilombolas; Maior atenção da saúde para a anemia falciforme, cujo o maior índice atinge a população negra.
Afropress – Como acompanhou o debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial aprovado e qual a sua posição a respeito?
Leci – Acompanhei o debate permanentemente, até porque fui integrante do Conselho da SEPPIR, até bem pouco tempo. Uma parte do movimento negro não aceita este Estatuto porque parte de reivindicações importantes foram excluídas. Outra parte se sente contemplada, pois entende que todas as questões estão nas entrelinhas.
Penso que o presidente Lula resolveu sancionar para que não tivesse mais atrasos nessas demandas. Acredito que teremos que nos unir, para fortalecer o nosso campo, e sensibilizar o Congresso para que as emendas principais sejam feitas. Tenho esperança que isso aconteça.
Afropress – Qual a sua posição em relação às cotas e ações afirmativas e se considera necessário o aperfeiçoamento do Estatuto aprovado e recém-sancionado pelo Presidente da República?
Leci – A minha resposta anterior contempla esta pergunta.
Afropress – Como se posiciona em relação aos assassinatos de jovens negros na cidade de S. Paulo, que ganharam a mídia com a morte dos dois motoboys e mais do ajudante de pedreiro Cristiano da Silva, nas mãos da Polícia Militar?
Leci – Tenho afirmado que a forma com que a Secretaria de Segurança de São Paulo trata os jovens negros e os jovens pobres tem um viés racista. Pois, essas barbaridades são cometidas por subordinados, se a orientação na segurança tivesse um caráter educativo teríamos uma polícia e um Estado diferente, bem como a sua população. Mas, as pessoas estão morrendo e ninguém é punido. Isso é um absurdo!
Afropress – Fale um pouco de sua trajetória pessoal e política e na importância da eleição de candidatos negros e anti-racistas nestas eleições.
Leci – Nos meus 35 anos de carreira artística construí um trabalho de conscientização para todos os segmentos do país. Nos mais de 20 álbuns gravados, cantei para todos e por todos. Venho de origem humilde e jamais esqueci meus referenciais. Sou filha de uma servente de escola pública. Fui servente, operária de fábrica, telefonista r auxiliar de escritório. Tornei-me artista (compositora e cantora) porque Deus assim determinou. Faço da arte um instrumento de luta, em favor do povo. Sempre foi assim.
Se a população negra é mais da metade da população brasileira, onde ela está? A gente não vê refletida essa maioria no Congresso, nem nas Assembléias e nem nas Câmaras de Vereadores. Precisamos mudar isso e ter representações dignas no emponderamento deste país. Nós não sentamos à mesa das decisões para nada. Penso que a hora é essa.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Leci – Seria ótimo se todas as entrevistas, como essa, tivessem perguntas tão importantes. A gente se sente feliz em expor nossas idéias de forma objetiva e com clareza.
A mídia brasileira, que faz sucesso na TV, jornais e revistas, jamais se importa em publicar matérias que tragam a autoestima o povo brasileiro e, em destaque, o povo negro. Para essa mídia, com seus editores elitistas, a pauta importante é aquela que humilha e destrói a nossa construção enquanto nação. Essa é uma outra batalha que precisamos travar.
Pra finalizar, quero ser deputada estadual. Morando há quase 20 anos nesse Estado, que fazer muito por ele e para o povo paulista. Netinho e Orlando estavam certos, posso fazer muito mais e vou fazer. Conto com todos nessa batalha e vamos juntos ter voz e dar voz ao povo na Assembléia de São Paulo.
Obrigada pela oportunidade de mostrar para um público leitor expressivo, inteligente e, sobretudo, consciente. Que Deus nos proteja e nos ilumine.
Nota da Redação
A próxima entrevista será com o jornalista e advogado Dojival Vieira, editor de Afropress, candidato a Deputado Estadual, e será postada na próxima quinta-feira.
O espaço está aberto a todos os candidatos negros e antirracistas a Deputados Estaduais, Federais e Senadores em todo o país. Trata-se de uma campanha de Afropress para estimular o voto nos candidatos comprometidos com a superação do racismo e da cultura discriminatória anti-negra em nosso país.

Da Redacao