Nos revivais deste ano, a propósito dos 50 anos da bossa-nova, dos 40 do AI-5 (e em que, nos exatos 120 anos da Lei Áurea, as nuvens da penhora desabam sobre a Igreja do Rosário e pairam sobre o Renascença Clube), olhando-se as matérias e principalmente as fotos alusivas, tem-se uma estranha impressão. Parece que nenhum negro participou nem do indiscutível movimento de renovação da música brasileira, a partir de 1958, nem da resistência ao endurecimento do regime militar deflagrada dez anos depois. Mas a história é bem outra.
De cara, saiba-se que a cantora Nara Leão, em torno de quem muito da renovação da música se deu, aprendeu os primeiros acordes violonísticos, que a levariam à bossa-nova, com um preto velho chamado Patrício Teixeira, cantor, compositor e violonista famoso, com 65 anos de idade em 1958.
Veja-se, agora, que o ambiente artístico que possibilitou o surgimento da bossa-nova, e a acolheu, já tinha também, atuando profissionalmente, negros trabalhadores da música (não eram diletantes nem estudantes de arquitetura) ralando na noite e nas rádios. Era o caso de Agostinho dos Santos, que já em 1958 gravava Tom Jobim e Dolores Duran; da mesma Dolores, prematuramente falecida em 1959; de Alaíde Costa, que, nesse mesmo ano, gravava João Gilberto, Donato, Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli; de Johnny Alf e Leny Andrade, além de um exército de instrumentistas modernos e atualizados, como os bateristas Doum e Wilson das Neves; os trompetistas Julinho Barbosa e Pedro Paulo; o trombonista Maciel, o flautista Jorginho, presente em 9 entre 10 gravações do gênero etc.
Entretanto, dez anos depois do amor, do sorriso e da flor vieram o golpe, o Ai-5, o Congresso de Ibiúna, a luta armada nas cidades e a guerrilha do Araguaia. E os negros estavam lá, alguns morrendo de forma tão heróica quanto anônima; outros, entrando para a História, como Joel Rufino, João Carlos Negão (ambos felizmente entre nós), Geraldão, (dirigente comunista falecido em 2006) e, principalmente, o célebre Carlos Marighela, de pai africano e mãe afro-baiana, além de Helenira Resende e Osvaldão.
Helenira, filha do Dr. Adalberto Nazareth, o primeiro médico negro da cidade de Assis, no interior paulista, foi dirigente estudantil, presa durante o Congresso de Ibiúna, em 1968. Logo depois, destacava-se como líder de um grupo de combate das Forças Guerrilheiras do Araguaia, onde – depois de ter matado um soldado e, mesmo metralhada nas pernas, ter alvejado mortalmente o atirador – sucumbiu, “torturada e assassinada com golpes de baioneta na cabeça”, em setembro de 1972.
Quem agora começa a escrever esta História, no livrinho “Helenira Resende e a guerrilha do Araguaia” (São Paulo, Expressão Popular, 2007) é o amigo jornalista Bruno Ribeiro, de Campinas, que também me fala do Osvaldão, já verbetizado em nossa “Enciclopédia brasileira da diáspora africana”.
Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, era engenheiro formado na antiga Tchecoslováquia. Com um suposto curso de guerrilha na China, uma compleição física invejável e um preparo de atleta, foi envolvido pela população do Araguaia numa aura de lenda, segundo a qual teria o dom da imortalidade. Para cortar o mito pela raiz, em 1974, quando conseguiram matá-lo, à traição, as forças da ditadura, segundo Bruno Ribeiro, fizeram amarrar seu corpo “pelos pés a um helicóptero” e o exibiram “à população como um troféu”. E conta mais o Bruno: “Dizem que nas festas promovidas pelos moradores [do Araguaia] ele era o primeiro a chegar e o último a sair, pois gostava muito de dançar”.
Talvez gostasse de bossa-nova, também, o Osvaldão. Como Helenira gostava de carnaval. E certamente os dois ficariam chateados, como nós, se soubessem do que anda acontecendo, por aqui, neste estranho ano de 2008 com o clube Renascença e também com a Igreja do Rosário – cenário, há exatos 200 anos, do primeiro te-deum em ação de graças pela chegada aqui da família real portuguesa.
2008 é o ano que já acabou e ninguém sabe.
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes