A indagação se justifica pelo fato da população brasileira ter como antepassados nem tanto os imigrantes europeus e asiáticos e sim aqueles que outrora habitavam o continente africano, e que aqui chegaram bem antes e em condições absolutamente diferentes dos estrangeiros acima mencionados. Não só chegaram como permanecem em situação absolutamente diferente daqueles.
Então, só por isso, parece incoerente a falta de interesse em retratar também por meio de telenovelas a trajetória de luta da nossa gente negra, incoerência essa duplamente registrada: primeiro, porque somos majoritariamente afros descendentes; depois, porque é do dever dos veículos de comunicação levarem ao público o máximo de informação a respeito também das questões voltadas para o negro brasileiro, mas não de maneira simplista, reducionista ou fracionada.
Sendo assim, o meu interesse seria/é pelas discussões de questões pontuais, tais como: os mecanismos que permitiram os valores culturais do negro escravizado sobreviverem ao escravismo, e chegarem até os nossos dias; o preconceito e o racismo para com esses valores, atitudes essas que também continuam tão vivas quanto no passado; a necessidade das políticas de promoção da igualdade racial se transformarem em política de Estado, além de outros assuntos decorrentes e igualmente relevantes.
Tudo isso daria ao público uma macro-visão da realidade do negro brasileiro, o que poderia proporcionar conseqüências interessantes do ponto de vista geral e também do particular. Em termos gerais, ao tomar consciência de que não vivemos em uma democracia racial, de repente, a população brasileira poderia se transformar em mais um agente da promoção da igualdade racial, e assim ajudar a alavancar as políticas públicas voltadas para o segmento; quanto ao particular, seria mais uma oportunidade para fortalecer a auto-estima de muitos dos nossos irmãos.
Porém, não estou convencida de que a falta de interesse das emissoras de tv pelas questões negras ocorra em razão de desconhecimento do nosso passado e do nosso presente. Sem essa de querer alegar inocência. Claro que sabem quem somos, de onde viemos, e o quanto nos viramos no avesso para assegurarmos a nossa sobrevivência física e também a salvaguarda do nosso patrimônio cultural, que por sua vez, incorpora o saber de milênios.
O fato é que essa indiferença – por mim traduzida como sendo racismo e preconceito – ganha extensão e profundidade quando entra em cena as relações existentes entre os proprietários das empresas de comunicação e os grandes anunciantes.
É que os proprietários das empresas de comunicação costumam ser absolutamente sensíveis aos interesses de seus anunciantes – dentre os quais, o Estado, é o maior de todos – relacionamento esse marcado também pela distribuição de verba publicitária – privada ou pública.
Então, considerando a presença absolutamente marcante e decisiva das verbas publicitárias nos veículos de comunicação – nomeadamente, na televisão – acredito haver quase nenhuma dúvida de que são eles – os anunciantes – quem determinam o que deve ser visto e dito inclusive nas telenovelas. Foi assim no passado, e tem sido assim no presente.
Objetivamente, qual emissora de tv correria o risco de ter sua cota de verba publicitária minguada por adotar posição contrária à postura propagada por um de seus maiores anunciantes, qual seja, o próprio Estado. Sim, é que ao levar as questões negras para dentro da casa da população brasileira seria o mesmo que admitir que, efetivamente e definitivamente, não vivemos em uma democracia racial.
Sendo assim, para manter a coisa da maneira como ela sempre foi e deve permanecer – naturalmente, aos olhos daqueles que detêm o poder – nem pensar em ter como foco narrativo principal questões pontuais relacionadas aos negros. No máximo posições simplistas, reducionistas ou fracionadas.
Também não estou convencida da disposição dos grandes anunciantes de permitirem que seus produtos top de linha sejam usados, manuseados, enfim, que corram solto por entre pessoas que não possuem nem cabelo loiro e nem olhos claros, que não moram em mansão, que não dirigem carrão importado, que nem sempre possuem diploma de nível superior, enfim, por entre aqueles que não pertencem à elite econômica deste país. Exagero? Não creio. Aposto existir tremendo medão dos tais produtos virem a ser taxados como sendo coisa de negro, ou seja, de gente sem categoria, requinte, e daí pra cima.
Então, por tudo isso, acredito que as nossas telenovelas estão menos interessadas em ajudarem a promover a igualdade racial e muito mais propícias a dizer sobre o que devemos pensar. E por esse raciocínio, brasileiro não deve pensar nas suas questões pontuais – lembremo-nos de que somos majoritariamente afros descendentes – e sim nas questões que dizem respeito ao restante do mundo.
Por fim, claro, há de se reconhecer que em termos de telenovelas a coisa já foi pior, o que não significa que no momento está tudo certo. Não, nem tudo está como deveria ser, afinal, ainda tem muito pano para ser levantado.

Sônia Ribeiro