Acredito que trabalhar somente com a premissa de que somos um povo destruído porque não possuímos os meios materiais para sobrevivência é uma análise superficial. A nossa crise existencial perpassa pelo plano imaterial também. Ou seja, enfrentamos graves problemas espirituais, morais e psicológicos. Enquanto povo dominado, fomos e somos destruídos em nossa essência humana interior. E esta é uma das grandes barreiras que devemos enfrentar e superar.
Quando observamos, no dia-a-dia, a intensidade incontrolável da violência existente em nossas comunidades, do alcoolismo, da promiscuidade, da imoralidade, do oportunismo, da prostituição, do envolvimento com as drogas, da instabilidade e desequilíbrio das famílias negras, do desamor entre nós, e de tantos outros males, não podemos simplesmente dizer que a falta de oportunidade social é a única causa da nossa desgraça. Esta é apenas uma das causas.
No entanto, não podemos omitir o fato de que esses problemas só existem, ou são reproduzidos, em nossas comunidades, porque temos uma grande debilidade interior enquanto povo. Somos um povo bastante vulnerável espiritualmente e moralmente. O racismo, através da sua ação psicológica, destróe-nos por dentro. Sufoca e fragiliza nosso espírito. Impregna-nos de coisas ruins e ódio por nós mesmos. Alimenta o espírito da violência na comunidade negra. Ensina-nos a ser eternos servis e obedientes. Venda nossos olhos para que nós não enxerguemos o nosso verdadeiro inimigo, agredindo-nos constantemente.
Devemos entender que a dominação física de um povo é antes de tudo um processo psicológico. Por isso, não significa que se nós estivermos integrados na sociedade, e obtiver todos os recursos matérias nela disponíveis para o nosso desenvolvimento, não seremos um povo dominado. O contrário também é correto, ou seja, não significa que se nós não estivermos integrados na sociedade, e não tivermos acesso aos meios necessários para o nosso desenvolvimento, nós continuaremos a ser um povo dominado para todo o sempre. Dentro da perspectiva desta última assertiva, de não estarmos integrado na sociedade, um povo pode, quando livre, criar meios alternativos para sua sobrevivência sem depender necessariamente daqueles que, neste caso, possuiriam o poder de controle sobre suas vidas.
O processo de libertação de um povo dominado é um ato mental e espiritual também. Sendo assim, é um processo, antes de tudo, consciente e autônomo, onde nós mesmos nos libertamos dos grilhões mentais do opressor. Devemos libertar as nossas próprias mentes. Libertar os nossos próprios espíritos. Steve Biko, no processo de libertação dos africanos na África do Sul, ensinava que “a arma do opressor é a mente do oprimido”.
Bob Marley, em sua música “redemption song”, nos ensinou que devemos emancipar nossas “próprias mentes, porque ninguém além de nós mesmos pode fazer isso”. A compreensão de que a nossa luta contra o racismo passa por este outro lado é fundamental para que nós possamos saber de onde nós viemos, onde nós estamos e para onde nós queremos ir enquanto povo. E a libertação interior é a chave para grandes descobertas. Quando nós começarmos a compreender isso, e trilharmos por esses caminhos, estaremos dando passos significativos rumo a libertação da opressão.
Um povo fortalecido espiritualmente, enobrecido moralmente, e psicologicamente são, orienta-se em busca da liberdade e da justiça. Quando faltam estes elementos no processo de luta, se promove o conformismo e a resignação diante das causas dos maus. A debilidade interior de um povo faz com que este se adapte com facilidade a opressão, sempre com medo, e evitando a confrontação. Agindo odiosamente contra seus semelhantes. Adaptar-se a um sistema injusto passivamente é uma forma de cooperação com o mesmo.
No entanto, a força interior de um determinado povo exige justiça e paz. A liberdade se alcança a partir de uma constante luta interior, que extravasa esse campo, e materializa-se com os atos contra-opressão na vida social.
Precisamos de muito amor para descobrir quem somos, qual nossa verdadeira natureza, qual o nosso verdadeiro papel nesse mundo, e como superarmos essa difícil fase que atravessamos. Nenhuma crise é permanente. Devemos fazer sempre a coisa certa, sem medo de aprender com erros e com coragem para tentar trilhar novos caminhos. Devemos desenvolver a capacidade inerente ao nosso povo de ensinar a humanidade o poder do amor. Fomos um grandioso povo no passado, ensinando ao mundo os princípios da existência humana e da civilização.
Se quisermos, seremos um grande povo no futuro. Mas para isso, a libertação mental, o fortalecimento espiritual, o enobrecimento moral, e a compreensão de pertencimento a uma grandiosa raça é preciso. É uma importante fase de um longo e doloroso processo. No entanto, venceremos! Um amor! Um coração! Um destino!

José Raimundo dos Santos Silva