Salvador – Grupos tradicionais de afoxés, blocos de índios e agremiações de comunidades tradicionais estão acabando, em virtude da transformação do carnaval baiano em uma indústria, segundo alerta Hamilton Borges, liderança do Movimento Negro “Reaja ou será morto. Reaja ou será morta”, de Salvador.
“Os afoxés, com raríssimas exceções, estão se acabando. Esses grupos não estão suportando a imposição do comércio, do capital investido no carnaval. Mesmo os afoxés que se mantêm por força da comunidade, não estão dando conta de se manter”, afirmou.
Segundo Borges, os grupos que se mantinham numa perspectiva comunitária se sustentavam com contribuição de associados até os anos 80 e chegavam a sair com até 3 mil pessoas. Ele lembrou o caso do Afoxé Badauê, cantado por vários artistas e presente, inclusive, em letra de música de Caetano Veloso.
O Badauê foi criado em 1978, no dia 13 de maio, Dia da Abolição da Escravatura. “Ele fez 30 anos, mas já não desfila. Agora, as pessoas estão novamente se juntando e vão fazer uma série de eventos para tentar reanimar o bloco”, destacou.
Da mesma forma que o Badauê deixou de desfilar, Borges lembra do Obaxirê, do bairro São Caetano, e do Ebano, blocos que também acabaram. “São afoxés tão importantes quanto esses que fazem sucesso hoje”, ressaltou. Já os afoxés Filhos do Korin Efan e Filhos do Congo, por exemplo, ainda resistem, mas com dificuldades. “Todos os anos eles saem mas de forma precária, com a pior fantasia que se possa imaginar, sem apoio do governo ou de empresas privadas”, lamentou.
Filhos de Gandhy
Este ano, o mais famoso Bloco de Salvador, o Filhos de Ghandy, completa 60 anos, e para Borges, a razão da longevidade deve-se ao fato de o Bloco está ligado aos grandes terreiros de Candomblé da Bahia (Gantois, Casa Branca, Ilê Axé Opo Afonjá. Nesses terreiros havia figuras eminentes, como Jorge Amado, Pierre Verger, Antônio Carlos Magalhães, entre outros, que davam essa legitimidade, esse suporte político para os terreiros e também para os blocos.
Crítico do carnaval voltado exclusivamente para turistas, Borges destaca a falta de contrapartida social dos grandes trios elétricos, que pagam uma taxa mínima para desfilar nos circuitos, entre eles o mais badalado, que recebe o nome de Dodô, localizado na orla Barra/Ondina. “Não existe uma contrapartida social dos grandes trios que lucram milhões com o carnaval da Bahia. Temos um carnaval que exclui”, destacou.
“Os negros criaram todo o capital simbólico que faz o carnaval da Bahia ser uma festa com caráter internacional. O principal movimento do carnaval de Salvador, que é o Axé, vem de uma referência religiosa, que é o Candomblé. Mas a música que virou marca do carnaval baiano não tem nada a ver com essas referências. Existem comunidades que perderam o conhecimento dos blocos que se formaram. Já estão caindo no esquecimento. E como não há mais esse conhecimento, essas comunidades não se inserem mais no carnaval a partir de uma leitura própria, de um código próprio. Ela não vai se reinserir no carnaval de shortinho e abadá”, finalizou.

Da Redacao