S. Paulo – Embora a Constituição brasileira assegure a liberdade de crença e culto, a prática do Candomblé, em S. Paulo, a exemplo do que ainda acontece no Brasil, continua sendo um risco e não são poucos os casos em que – pessoas da religião além da intolerância gerada pela ignorância na sociedade -, ainda são expostas à violência com a invasão de Terreiros pela Polícia.
A denúncia é do sacerdote e jornalista Walmir Damasceno, presidente da Federação Nacional e Cultura Afro-Brasileira (FENATRAB) e do Conselho de Ministros do Instituto Latino-Americano de Tradições Afro-Bantu (ILABANTU), que está organizando neste domingo (27/05) das 10h às 13h no No CMTC Clube, o I Encontro Preparatório de Comunidades Tradicionais de Terreiro para a Rio + 20, a Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável – a Rio + 20 -, prevista para acontecer de 13 a 22 do mês que vem no Rio.
O CMTC Clube fica na Avenida Cruzeiro do Sul, 808, (proximidades da Estação Armênia do Metrô), em S. Paulo,
Lideranças tradicionais
O objetivo do encontro, segundo Damasceno é ouvir das lideranças tradicionais de terreiro o que eles querem levar como temas a serem debatidos nos espaços abertos à sociedade civil na Conferência.
“Nós vivemos um problema sério em S. Paulo, a perseguição sistemática que sofremos. Existe uma Lei, que aliás, no Brasil só existe no Estado, que é a Lei da Vigilância Sanitária, que diz que em S. Paulo só pode entrar animal abatido, não pode entrar animal vivo, e a sobrevivência do Candomblé se dá com base no sacrifício de animais nos terreiros. Há uma perseguição sistemática, diuturna ao povo dos terreiros. Hoje as pessoas tem medo de tocar tambor em S. Paulo”, afirma.
Segundo o sacerdote, “é comum se associar o sacrifício de animais, que não são animais de grande porte, como bodes, cabras, galos, galinhas, que é um sacrifício ritual, com crueldade”. “Não há nenhum tipo de ato cruel contra os animais, muito pelo contrário. É um sacrifício ritual, onde o sangue é ofertado aos ancestrais e a carne consumida entre os fiéis”, destaca.
O pior é que, além da ignorância, muitas vezes as denúncias dos sacrifícios acabam se tornando casos de Polícia. “A Polícia Militar não tem preparo algum para tratar disso, porque não existe uma orientação do próprio Comando sobre como os agentes devem proceder. Muitas vezes, eles chegam, invadem terreiros, e religiosos e pessoas do Candomblé ainda são presas. Tocar em S. Paulo, ainda é um verdadeiro risco”, acentua.
Presença
Em S. Paulo, segundo Damasceno existem cerca de 74 mil terreiros de Candomblé, a maior parte dos quais concentrada na região do Grande ABC e na Baixada Santista. O Candomblé em S. Paulo, existe há 70 anos, trazido por Julita Lima dos Santos, a Mãe Manudê, da cidade de Propriá, Sergipe, e o Terreiro mais antigo é o Terreiro Santa Bárbara, que fica na Rua Ruiva, 90, na Vila Brazilândia, Zona Norte de S. Paulo.
Na reunião deste domingo, devem comparecer, de acordo com o líder religioso, cerca de 250 lideranças, nas suas várias vertentes. Segundo Damasceno, nas propostas da da Carta a ser distribuída na Rio + 20, devem constar, além da denúncia da intolerância religiosa, a afirmação de que no Candomblé os sacrifícios de animais nos rituais não afetam o meio ambiente. “Muito pelo contrário. Somos os maiores interessados na preservação do meio ambiente”, acrescenta.

Da Redacao