Campinas/SP – As negociações em torno do nome que ocupará o cargo de ministro chefe da SEPPIR estão se dando exclusivamente dentro dos grupos de negros dos partidos que apóiam o Governo (PT e PC do B, especialmente), como se o assunto dissesse respeito apenas aos seus próprios interesses. Não é mais possível que a população negra brasileira continue submetida às estratégias e a subserviência do Movimento Negro de partidos.
A opinião é de Reginaldo Bispo, coordenador Nacional de Organização do Movimento Negro Unificado (MNU), ao falar das perspectivas no Governo da presidente eleita Dilma Rousseff. “Essa militância não pensa, não reivindica, submete-se voluntariamente as suas direções partidárias e governos. Agem como subalternos, cooptados conformados e satisfeitos com seu próprio espaço fictício. Colocam-se na vitrine em exibição para serem resgatados pelos seus superiores, como bons e disciplinados negros da Casa Grande”, afirma.
Em longa entrevista ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, o líder do MNU, que liderou movimento pelo voto nulo nas eleições passadas, por rejeitar o voto no candidato tucano José Serra e pelo que considerou descompromisso da candidata do PT com o programa de reivindicações apresentado pela Organização, faz um balanço bastante crítico das três gestões na SEPPIR, desde que foi criada em 2003.
Um segmento do MNU que se proclama majoritário, contudo, lançou manifesto, fez campanha e votou na candidata do PT.
“Não houve diferenças substanciais entre os três, todos priorizando seus grupos políticos. Contudo, a ultima gestão do Elói foi pior que as demais, momento de maior politização da SEPPIR, de modo a atingir os objetivos eleitorais do governo e dos grupos, para isso cometendo exageros de toda ordem, inclusive, capitulando e patrocinando a defesa do Estatuto da Igualdade racial do DEM, esvaziado, autorizativo e sem verbas, apresentando-o como vitória, como algo possível de fazer política de Estado, desinformando a população negra”, acrescentou.
Em relação as perspectivas no novo Governo, Bispo disse que as primeiras declarações do ministro da Fazenda Guido Mantega são preocupantes. “Não estamos livres de dias piores e do desemprego. Mentiram para ganhar as eleições”, acrescenta.
Leia, na íntegra, a entrevista do líder do Movimento Negro Unificado ao editor de Afropress.
Afropress – Qual a avaliação que você faz da gestão da SEPPIR no primeiro e segundo Governo Lula, sob a direção de Matilde, Edson Santos e agora Elói Ferreira?
Reginaldo Bispo – O MNU apoiou a iniciativa do governo Lula, em criar a SEPPIR, em atendimento a reivindicação de setores do Movimento Negro brasileiro. Fez propostas de funcionamento, mas negou-se desde o primeiro momento participar do seu conselho, entendendo que poderia ter uma participação mais objetiva e útil, fora dos organismos do Estado. Considero que não houve diferenças substanciais entre os três, todos priorizando seus grupos políticos, ao invés das necessidades do povo negro.
Contudo, essa atual gestão do Elói foi pior que as demais, momento de maior politização da Seppir, de modo a atingir os objetivos eleitorais do governo e dos grupos no controle da Seppir, para isso, cometendo exageros de toda ordem, inclusive capitulando e patrocinando a defesa do Estatuto da Igualdade racial do DEM, esvaziado, autorizativo e sem verbas, apresentando-o como vitória, como algo possível de fazer política de Estado, desinformando a população negra.
Afropress – Esse modelo com que o Estado brasileiro – tanto sob governos dos dois Governos Lula quanto sob governos tucanos – vem tratando a questão da desigualdade racial é satisfatório? Atende a expectativa da população negra brasileira?
Bispo – Não, com orçamentos pífios, em geral não fazem nada. A SEPPIR, as “Cepires” estaduais e municipais, as coordenadorias, continuaram sendo tratadas como guetos, nos quais os governantes e seus partidos acomodam negros de sua confiança, com a tarefa de “resolverem” ou fazerem de conta que resolvem os problemas do “seu povo”, desde que esses problemas não incomodem diretamente ao governante, ministros e secretários.
Como estes “representantes”, não têm competência, autonomia ou sensibilidade, transformam estes espaços invariavelmente na sua última táboa de salvação, em aparelhos de seus próprios grupos políticos.
Pior, invariavelmente atrapalham, servindo de anteparo as lutas do povo. É só ver o tipo de desempenho da SEPPIR na aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, na luta contra o genocídio da juventude negra, e na titulação das terras quilombolas, na implementação da Lei 10.639, com perfumarias e mentiras, atendendo aos interesses das classes médias neo-racistas e do agronegócio.
Afropress – Na sua avaliação, como Governos democráticos efetivamente comprometidos com a igualdade devem tratar a temática da desigualdade racial e a herança de 400 anos de escravismo e de 122 anos de racismo pós-abolição?
Bispo – A primeira coisa a considerar é o papel de barreira de contenção estrutural dos negros em todos os aspectos da vida em sociedade que o racismo ocupa na estratégia das elites brasileiras. É a garantia de que o “status quo”, vai continuar conferindo a perpetuação do melhor da produção social, do poder político e econômico nas mãos das elites brancas para sempre. Estes governos e partidos continuam atendendo interesses do agronegócio, dos bancos, das grandes empreiteiras.
O racismo é estruturante e útil ao projeto político das elites, da direita e de certas esquerdas, que esperam reservar para si, seus sucessores e gerentes, os melhores espaços na sociedade, negando aos negros, indígenas e pobres o direito de acesso a eles.
As elites do Brasil, ainda hoje, fazem política como no Império escravista. O povo trabalha e fica com as migalhas, as elites se apropriam do resultado do trabalho da maioria, construindo patrimônios e fortunas pessoais, sem se preocupar com um projeto de Nação e no bem estar do povo.
Assim age a burguesia, os políticos e seus magistrados, matando a galinha dos ovos de ouro, escudados nas leis elitistas e arbitrarias e poder de coerção das forças policiais e militares.
É preciso mudar as prioridades sociais e realizar reformas que dêem ao país um verdadeiro significado de democracia republicana. Foi com esse objetivo que nas eleições propusemos os 25 pontos do programa [Programa apresentado pelo MNU a candidata Dilma Rousseff], para discussão, que foram duramente repelidos, sem discussão, por negros e brancos apoiadores da D. Dilma:
É necessário a sociedade reconhecer a existência do racismo no Brasil, bem como, a nação deve reconhecer-se plurirracial e multicultural admitindo e respeitando as diferenças de seu povo. A luta por Um projeto Político do Povo Negro para o Brasil e por Reparação histórica e humanitária é fundamental neste sentido.
Afropress – Qual a expectativa com o Governo Dilma e como está acompanhando os primeiros movimentos em torno da sucessão na SEPPIR?
Bispo – Vejo com muita preocupação as primeiras declarações do ministro da Fazenda, de que farão um governo austero, diferente das promessas de Dilma em campanha. A redução da divida pública, com o corte do custeio significa que salários de funcionários vão ser congelados, servidores vão ser demitidos, serviços públicos como saúde e educação vão sofrer cortes, piorando a sua qualidade já muito questionável.
O PAC que não decolava, agora deve ir mais devagar inda, assim como o minha casa minha vida, com o corte nos investimentos centrado no combate a inflação e na diminuição do consumo.
O governo com medo de uma onda de inadimplência e de crise na economia, optou pela diminuição na oferta de créditos, aumentando os juros e reduzindo as parcelas de mensalidades, reconhecendo que a atual política de crescimento econômico calcado no endividamento das famílias não se sustenta.
Especialmente, quando não encontra meios para colocar os produtos brasileiros lá fora, devido à crise que se aprofunda na economia dos países centrais. Não estamos livres de dias piores e do desemprego. Mentiram para ganhar as eleições.
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As negociações em torno da sucessão da Seppir estão enclausuradas entre os grupos de negros dos partidos governistas, que se engalfinham disputando um osso exclusivo, de forma particular, como se o assunto fosse apenas de seus próprios interesses, esquecendo-se que os negros 51% da população, podem ser beneficiários ou não daquela decisão.
O povo negro tem muita gente competente para assumir outras tarefas e ministérios. Há muita carne em disputa, mas deixam-na exclusivamente para os brancos. Seria problema de competência ou de subserviência, só disputando o gueto, o osso, que os chefes permitem? É a assumissão das restrições racistas, pelo oprimido.
Afropress – A direção da SEPPIR é constituída pelo ministro (Elói Ferreira de Araújo), o secretário Adjunto (João Carlos Nogueira), o Ouvidor Geral (Humberto Adami) e os Secretários de Ação Afirmativa, Martvs Chagas, e de Comunidades Tradicionais Alessandro Reis. Com exceção de Adami e deste último, todos são candidatos ao posto de ministro na próxima gestão. Como analisa o desempenho de cada um deles?
Bispo – Todos fracos. São co-responsáveis por esse último período, que julgo o pior deles. Defenderam derrota como vitória, fazendo malabarismos para dar alguma visibilidade a uma gestão pouco efetiva, sem voz ativa para defender um maior orçamento, bem como, de efetivar a execução do pequeno e irrisório orçamento a que estavam submetidos, dando a impressão que os negros não precisam dos projetos, apontados na I Conappir [Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial] e reafirmados na II.
Talvez o Martvs Chagas seja o mais coerente, atuando um pouco melhor com os movimentos sociais, apesar de confundir a função de funcionário e gestor político, com a tarefa de defensor do Estado, contestando as críticas do movimento social ao governo.
Afropress – Quais são os desafios que estão postos para o Movimento Negro Brasileiro nessa próxima etapa? E possível continuar acreditando no Movimento Negro partidário que, segundo você, se acomodou nos espaços do Estado e vira as costas para a maioria da população?
Bispo – É impossível continuarmos submetidos aos estratagemas e subserviência dos MN de partidos. Essa militância não pensa, não reivindica, submete-se voluntariamente às suas direções partidárias e governos, apenas aceitando aquilo que seus superiores impõem. Agem como subalternos, cooptados conformados e satisfeitos com seu próprio espaço fictício. Colocando-se na vitrine em exibição para serem resgatados pelos seus superiores, como bons e disciplinados negros da Casa Grande, como “Pais João ou “Tios Tom”.
As nossas conquistas não avançam. Nos encontramos em luta para não perder conquistas de 30, 40 anos, graças ao Estatuto, porque não nos organizamos. E não nos organizamos porque os negros partidários não querem, não vão organizar o povo por seus interesses, por considerar que os interesses dos negros é contra os interesses dos seus partidos e governantes.
Abortaram a discussão do Projeto Político do Povo Negro para o Brasil e da Reparação para que a conta não fosse apresentada ao Lula. Sabotaram e esvaziaram o CONNEB [Congresso Nacional dos Negros e Negras do Brasil], pelos mesmos motivos.
Só a organização autônoma e independente dos negros, de partidos e governos, nos permitirá construir uma pauta, um projeto político para esse país que obrigue as elites e governantes inverterem as prioridades, conferindo uma vida melhor, de dignidade e cidadania para todo o povo, acabando com os privilégios, a corrupção e a roubalheira das elites, responsável pela miséria e ignorância. Essa é uma tarefa para o próprio povo.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Bispo – As eleições 2010 demonstraram é impossível a eleição de lutadores do povo com o inflacionamento do custo das candidaturas, a R$ quatro, oito, 12 milhões uma candidatura a deputado. O Estado, o povo, na verdade, paga isso com a roubalheira, a corrupção e o superfaturamento das obras, resultando em menos benefícios para o próprio povo.
É preciso que as lideranças negras tratem a luta pelos direitos do nosso povo com despreendimento pessoal, com visão crítica, não olhando para o próprio bolso.
Todos os métodos sob a hegemonia dos brancos, dentro dos partidos foram tentados desde os anos 20 do século XX. Agora é preciso reagrupar as melhores propostas e mais compromissadas cabeças militantes, de modo a realizar um exercício de construção de uma organização e um programa realista, com autonomia e independência, que dê conta das necessidades fundamentais da vida com dignidade. Isto é o novo que as pessoas esperam, para resolver de uma vez os problemas do racismo e da pobreza no Brasil.

Da Redacao