Salvador – Hamilton Borges Walê (foto), escritor e poeta baiano, coordenador da Campanha Reaja ou Será [email protected], que há mais de dois anos denuncia o assassinato sistemático de jovens pela Polícia Militar do Estado, cobrou da candidata do PT, Dilma Rousseff, a abertura de canais de diálogo, como condição de voto nas eleições do próximo domingo. “Não é agora que vamos entrar numa disputa cegamente. Queremos ver se esse setor considera nossa maioridade política abrindo uma mesa para tratar conosco como tratam com os evangélicos, católicos, as associações de madames criadoras de poodle. Nós respeitamos as pessoas que pensam o contrário, só não acreditamos que o projeto que está aí seja o nosso projeto”, afirmou.

Ele é a terceira liderança negra, com visibilidade nacional, a cobrar o compromisso da candidata do PT, com as reivindicações históricas da população negra brasileira. Anteriormente, Reginaldo Bispo, Coordenador Nacional de Organização do Movimento Negro Unificado, e Onir Araújo, advogado dos quilombolas gaúchos, já haviam manifestado que o voto em Dilma deve ter como pré-condição o compromisso da candidata com um programa em que se comprometa com reivindicações da população negra.

Leia, na íntegra, a entrevista concedida pelo ativista baiano, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress – Qual é a posição das lideranças negras da Bahia que não consideram correto dar um cheque em branco a candidata Dilma Rousseff, apenas por que é apoiada por Lula e pelo Governo?

Hamilton Borges Walê – Nós, históricamente combatemos o racismo vindo de qualquer segmento ideológico. Nestes oito anos de Governo estamos monitorando suas ações em termos de política do que eles chamam de Promoção da Igualdade. Acredite que não vimos nada. Não é agora que vamos entrar numa disputa cegamente. Queremos ver se esse setor considera nossa maioridade política abrindo uma mesa para tratar conosco como tratam com os evangélicos, católicos, as associações de madames criadoras de poodle… Nós respeitamos as pessoas que pensam o contrário, só não acreditamos que o projeto que está ai é "nosso Projeto".

Afropress – Qual a avaliação que você faz do Governo Lula, no plano nacional, e do Governo Jacques Wagner, no plano local, em relação as demandas da população negra brasileira e baiana?

Hamilton Walê – Numa palavra eu posso dizer: placebo. Para os negros, um remédio político que não deu em nada. Veja, eu acompanho a política de segurança e para mim a política de segurança traz a lógica punitiva. Quando tudo o mais fracassa nas comunidades racialmente apartadas, o que temos é o fracasso dessas políticas anunciadas como sociais. Vejo muita gente que respeito que aponta nos números os tais avanços. Não vemos. O Governo Jaques Wagner é um Governo das elites brancas da Bahia e das elites internacionais. Tem desenvolvimento? Tem. Mas aquele modelo de desenvolvimento do porto de Cajaíba, que vai esmagar comunidades tradicionais, das obras de Maragogipe, que não ouviram os pescadores e marisqueiras, isolando a CPP Bahia.

A matança de jovens, que muito adesista denuncia, com o argumento de que isso está além de Jaques Wagner. Olha, e tem outra: se você fala isso, eles ficam de mal, deixam de falar, te isolam; pessoas que eram nossas amigas há 25, 30 anos, agora ficam de longe; e o pior é que essas pessoas ensinaram isso a gente. Porque aceitem ou não, somos herdeiros do MNU [Movimento Negro Unificado] e mesmo sem estar lá, nos pautamos naquele programa de ação que ainda é efetivo para atual conjuntura.

Afropress – O que você propõe para romper o isolamento em que certos setores do movimento negro pretendem manter, os setores que não abdicaram do direito de uma posição independente, inclusive, em relação à disputa no segundo turno?

Hamilton Walê – Olha, tem essa posição da turma de São Paulo e Rio Grande do Sul que eu achei muito boa e as suas posições [da Afropress] também que são lúcidas. Acho que temos que nos reunir nacionalmente antes do dia do voto com a candidata a presidente. Nos reunir como gente grande, não na porta da reunião carregando bandeira, nos reunir olho no olho, não por e-mails de prá-frente Brasil. A coordenação Nacional da Campanha da Dilma tem que considerar nossas posições e fazer uma escolha. O Serra, mas não tem Serra, não tem papo; aí é voltar prá senzala e não queremos nem cozinha nem muito menos senzala

Afropress – Como está vendo a situação de invisibilidade em que estão as reivindicações históricas da população negra nessas eleições?

Hamilton Walê – Não vejo novidade nenhuma. É fruto da desmobilização, do golpe que deram no CONNEB [Congresso Nacional de Negros e Negras do Brasil], do adesismo ao Governo de gente boa. Mas, tem uma coisa: às vezes o que é invisível pode ser o mais concreto, ontológico, visceral e transformador.

Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.

Hamilton Walê – Uma estrofe do poema de meu poeta e filósofo preferido nessa conjuntura:" Folha seca no vendaval/um inútil/é morrer aos poucos/eu me senti assim tio".

Da Redacao