Rio – Ivanir dos Santos, o líder religioso carioca, que recebeu onze ameaças de morte, há duas semanas, por seu trabalho à frente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), conta que o “contratempo” não chegou a mudar sua rotina de vida.
Militante do Movimento Negro e ativista dos Direitos Humanos há 30 anos, ele já havia sido ameaçado quando denunciou (na década de 1990)a ação de grupos de extermínio de crianças negras no Rio de Janeiro.
“Na época, haviam muitos policiais envolvidos e eu cheguei a ter o carro crivado de tiros quando saia de casa. As ameaças eram constantes porque eu estava mexendo com grupos econômicos e com interesses políticos dos mais variados”, revela.
Há pouco mais de dois anos à frente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa as ameaças ganharam um tom inesperado. Mas, não chegaram a abalar a serenidade deste carioca de 55 anos, nascido na favela do Esqueleto, no Rio de Janeiro. “Só vai acontecer comigo o que
estiver determinado”, acredita. Tanto que se mantém reticente em andar com seguranças.
Essa serenidade é coisa nova. Após sua iniciação para Orixá há 29 anos, no Ilé Alabaxé, em Maragojipe (Ba) Ivanir foi iniciado para para Ifá, há cinco anos, em Ogmobosó, na Nigéria. Foi quando recebeu nome e cargo ancestral: babalawo Ifawolé (que significa “o pai do segredo
que traz Ifá para dentro de casa”).
A iniciação mudou a forma de entender e agir. “Eu sempre fui muito duro, tive uma vida muito
difícil, como milhares de negros neste país. Minha formação política, dentro do Movimento Negro, me tornou uma pessoa aguerrida. Hoje, pelo sacerdócio religioso, tenho que perdoar e me afastar de brigas, conforme determina o meu Odu. Esta é a parte mais difícil do sacerdócio de Ifá. Mas a cultura africana me ensina todos os dias que eu devo aprender a ser conduzido”, confessa.
Ivanir dos Santos concedeu entrevista à jornalista Rosiane Rodrigues, para a Afropress e falou sobre a guinada que a luta pela liberdade religiosa deu em sua prática política. No ano passado, ele se desfiliou do PT, partido que ajudou a fundar, e se mantém – sem partido – distante, “mas nem tanto”,do mundo político.
Afropress – É comum no Brasil a intimidação de defensores dos Direitos Humanos. Isso acontece com várias lideranças dos movimentos sociais, que contrariam certos interesses. O senhor tem idéia de quem pode estar por trás disso? Como o senhor se sente sendo mais uma vítima?
Ivanir dos Santos – Não gosto do papel de vítima. Nem admito que me transformem em mártir. As ameaças que recebi, apesar de terem um cunho pessoal e a intenção de me desmoralizar, são dirigidas a milhares de religiosos que lutam pela liberdade de culto no Brasil e que defendem a agenda do Movimento Negro.
Há um histórico desses ataques, que começaram pela internet, em janeiro deste ano. No início não dei importância, mas depois que chegaram até a minha família – e comparavam minha companheira a uma cadela e afirmavam saber a rotina dos meus filhos – não pude mais subestimar o agressor. Com certeza, os ataques têm o objetivo de promover terror psicológico, de me intimidar.De qualquer forma, não me cabe fazer suposições. Denunciei à polícia, que trabalha com várias linhas de investigação. Mas, a pergunta que os religiosos fazem é a quem interessa calar a voz do interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa?
Afropress – Lutar por liberdade religiosa no Brasil tornou-se tão perigoso quanto denunciar grupos de extermínio?
Ivanir – Depende… antes de me pronunciar, espero que a Polícia faça o seu trabalho e conclua as investigações. Enquanto isso, a Comissão vai continuar trabalhando, atendendo as vítimas e denunciando as perseguições aos umbandistas, candomblecistas, católicos e minorias étnicas e religiosas. A melhor resposta a tudo isso é a gente colocar 200 mil pessoas em Copacabana, no dia 19 de setembro, para a III Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa. Ninguém pode mais ficar calado nem se omitir.
Afropress – O senhor se desfiliou do PT e continua sem partido, no momento em que todo mundo achava que sairia mais uma vez candidato. É o fim da sua carreira política? O senhor desistiu da política eleitoral?
Ivanir – Sair do PT foi uma decisão muito difícil. Foram mais de 20 anos e, de certa forma, ajudei a construir um dos maiores projetos políticos da América Latina. Me vi obrigado a tomar uma postura que não comprometesse as relações para a construção da III Caminhada nem o movimento Eu Tenho Fé!, que pretende levar 200 mil religiosos de todo país para Copacabana.
Isso serviu para nos deixar muito à vontade em relação aos parceiros e acabar de uma vez por todas com um discurso infantil de que eu estaria utilizando o trabalho da Comissão para me promover. Os tempos mudaram. A política do século XXI não é a mesma de 30 anos atrás e a gente precisa se atualizar com os novos tempos.
Quanto ao trabalho da Comissão ele é prioritariamente político e suprapartidário. Nosso objetivo neste ano é que hajam candidaturas comprometidas com a liberdade religiosa e com a agenda do Movimento Negro nos diversos partidos. Nossa prioridade é o compromisso do cumprimento da Lei 10.639/03.
Afropress – Esta é uma perspectiva ampla…
Ivanir – Mas, precisa ser. A liberdade religiosa e as Ações Afrimativas precisam entrar na pauta da Câmara, do Senado, da sociedade e dos Poderes Públicos. A Comissão é formada por afro-religiosos, mas também por católicos, kardecistas, cristãos históricos, muçulmanos e judeus, além de ciganos, devotos de krishna, budistas… nossa formação reflete um pouco da pluralidade do Brasil. O que está em jogo no país é a defesa da democracia, da diversidade e da liberdade de expressão.
O que os neopentecostais estão fazendo nos últimos 30 anos, com um poderio cada vez maior em termos da construção de uma política teocrática e dos conglomerados de comunicação, é uma ameaça real a todas as minorias. Esta luta deve ser de interesse de todos aqueles
que buscam uma sociedade mais justa
Afropress – O senhor fala em uma política teocrática e conglomerados de comunicação…
Ivanir – Sim. Há dois anos, o bispo de um segmento neopentecostal lançou um livro conclamando os seus seguidores a construir no Brasil uma política teocrática, a partir de um projeto eleitoral . Aliado a isso,qualquer pessoa percebe que os neopetencostais possuem um poderio comunicacional – com rádios, TVs, sites e concessões de rádio – cada vez maior. Isso gera uma condição completamente desigual entre os outros religiosos – ou seja, umbandistas e candomblecistas – que,quando são lembrados por políticas de governo, é só para receber cesta básica. Parece que o Brasil se esqueceu que a formação da identidade brasileira nasceu nos terreiros de candomblé, da pajelança, do catimbó…
Afropress – E como é possível resolver isso? Já que na política, quase sempre o que pesa mais é a quantidade de votos?
Ivanir – O projeto da Comissão é denunciar a possibilidade concreta do Brasil se transformar numa “ditadura religiosa” e de, neste segundo momento, de empoderar as minorias. Criamos um atendimento jurídico sistemático às vítimas e conseguimos, no Rio de Janeiro, fazer com que as delegacias de polícia registrem corretamente o crime de intolerância religiosa na Lei Caó (7716/89), o que torna o crime inafiançável. Esperamos agora que o Governo aprove o Plano Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, porque queremos discutir as regras de concessão de canais de rádio e TV para umbandistas, candomblecistas, ciganos; uma política de Segurança Pública voltada para os religiosos; a regulamentação das Casas de Axé. Sem esquecer
que precisamos agregar e somar forças.
Afropress -Lembrando que a base das igrejas neopentecostais tem maioria de negros e pardos, como é possível combater a intolerância religiosa e enfrentar o racismo?
Ivanir – A fé é um pressuposto de liberdade. Não ter uma crença, também. O fato é que o cristianismo tem suas raízes na África. Os hebreus se formaram enquanto povo no Egito, originados de 12 tribos nômades africanas. Então observe, dentro da lógica histórica – que trata o
continente africano como berço da humanidade – não é possível aceitar a demonização da religião e da cultura dos nossos próprios ancestrais.
O demônio é uma figura grega, não tem a ver com nenhuma tradição religiosa africana. Tanto que o cristão afro-americano não permite que sua identidade seja descaracterizada, nem que os seguidores da Santeria ou do Vodu sejam estigmatizados. Observe que o comportamento de algumas lideranças neopentecostais conserva a lógica do colonizador, num sentido eugênico – de embraquecimento e europeização da sociedade brasileira.
Não é nenhuma novidade que a maior dificuldade de implementação da Lei 10639/03 – que torna obrigatório o estudo de História da África e Cultura Afro-brasileira em todos os níveis de ensino nas escolas – tem a ver com a resistência de setores neopentecostais.

Da Redacao