S. Paulo – O presidente da Câmara Nacional de Participação e Desenvolvimento dos Afro-Brasileiros (CNPDAB), com sede em S. Carlos, João Carlos Cassiano, montou um cursinho pré-vestibular fantasma, cobrando taxas de R$30,00 a cerca de 350 alunos que se inscreveram interessados em se preparar para o vestibular. Depois do início das aulas do curso ter sido adiado pela quinta vez, na última sexta-feira (11/04), lideranças negras e anti-racistas locais denunciaram a fraude e levaram o caso à Polícia. O caso está registrado no 4º DP de São Carlos.
Cassiano, que vinha se apresentando como coordenador regional do Movimento Brasil Afirmativo, também tentou envolver na fraude outras pessoas e entidades do Movimento Negro – inclusive o SOS Racismo da Assembléia Legislativa do Estado, a Rede Educafro, e a Fundação Getúlio Vargas. Diante das denúncias, a coordenação do Movimento Brasil Afirmativo decidiu desautorizar Cassiano a falar em nome do Movimento e orientou os ativistas de S. Carlos a procurar as autoridades, inclusive o Ministério Público, além de chamarem os estudantes lesados para explicar terem sido vítimas de uma fraude.
Crimes
A decisão foi tomada depois de uma reunião da coordenação com lideranças negras e anti-racistas da cidade, na última sexta-feira, lideradas por Minervina Packer, Luiz Carlos Germano, Derval João Leonardo e Karina Olívio de Souza, esta última designada por Cassiano como coordenadora pedagógica do cursinho.
Segundo Karina, além da cobrança de taxas (R$ 10,00 por inscrição e mais R$ 20,00 por camisetas), Cassiano envolveu o nome de várias pessoas no projeto. O caráter da fraude ficou evidente depois que – mesmo as nove pessoas envolvidas por ele no projeto – descobriram que não havia material didático, carteiras, nem espaço físico para as aulas.
Para todos Cassiano dizia estar resolvendo tudo em S. Paulo e citava nomes de lideranças de visibilidade no Movimento Negro. Como parte de sua estratégia fraudulenta ele conseguiu a cessão do plenário da Câmara Municipal e reuniu lideranças de ponta do movimento negro, como o ex-secretário de Justiça, Hédio Silva Jr., e os professores Henrique Cunha, Luiz Carlos dos Santos e Petronilha Beatriz Gonçalves, esta última membro do Conselho Nacional de Educação. Ivair Augusto Alves dos Santos, assessor da Secretaria de Direitos Humanos do Ministério da Justiça, e o jornalista Dojival Vieira, da Afropress, também fizeram parte da mesa do Seminário.
O coordenador da Seção de Combate ao Racismo e à Discriminação, Paulo César Ramos, também esteve presente e cumprimentou a organização do Seminário em nome do prefeito Newton Lima.
Segundo Karina Olívio de Souza, coordenadora pedagógica do Cursinho, embora 80% das camisetas tenham sido pagas, apenas 10% foram entregues aos interessados. Cassiano também contratou seis funcionários com salários que variam de R$ 501,00 a R$ 3 mil, alegando que a entidade disporia de uma verba de R$ 286 mil/mensais, cuja origem e procedência jamais explicou. Aos professores do suposto Curso Pré-Vestibular prometeu pagar R$ 60,00 hora/aula.
O resultado da primeira investida foi a arrecadação de cerca de R$ 7.100,00 que teriam ido pagar na sua própria conta pessoal. “A revolta das pessoas não é só o fato dos R$ 30,00. A revolta é que eles perderam o ano”, disse Karina.
Segundo o professor Luiz Carlos Gervano, com muitos anos de militância no Movimento Negro, as atitudes de Cassiano, com o Cursinho foram suspeitas, o que torna necessário uma atitude enérgica para preservar a credibilidade das pessoas sérias que participavam com ele do empreendimento – e a quem ele jamais deu satisfações – e do próprio Movimento Brasil Afirmativo que o mesmo dizia representar. “Fomos todos enganados”, disse a professora Minervina Packer.
Gravíssimo
A iniciativa dos ativistas aconteceu só na sexta-feira porque, cansados das manobras protelatórias de Cassiano, resolveram chamá-lo para explicações. Ele, porém, se evadiu, sem explicar os motivos.
Anteriormente, as suspeitas começaram a se tornar visíveis depois que, na manhã de sábado (05/04), uma platéia de 200 pessoas – incluindo professores da Universidade de S. Carlos – ficou por mais de uma hora esperando o professor Henrique Cunha para um Curso que havia sido anunciado por Cassiano.
Cunha, que é professor da Universidade Federal do Ceará veio de Fortaleza com promessas de passagem. Cassiano também teria prometido pró-labore de R$ 600,00 por inscrição, sem informar aos participantes. Resultado: Cunha nada recebeu e teve de voltar para Fortaleza com dinheiro do próprio bolso. Mesmo assim deu palestra para os professores e denunciou o que aconteceu.
Além de levar o caso à Polícia e ao Ministério Público, os ativistas do Movimento Brasil Afirmativo também decidiram tomar a iniciativa de acionar Cassiano na Justiça do Trabalho e procurar cada estudante inscrito em suas casas para um esclarecimento completo da situação. “Temos certeza de que as pessoas vão compreender o que aconteceu porque conhecem nossa seriedade e não podemos responder por alguém que pretendeu aplicar um golpe usando o nosso nome”, afirmou Derval João Leonardo.

Da Redacao