S. Paulo – Intelectuais, lideranças de entidades negras e acadêmicos, reagiram com indignação ao noticiário de que roteiros turísticos promovidos em vários Estados fazem aberta apologia da escravidão, sob o pretexto de desenvolverem o turismo étnico.
Na semana passada o jornal “Folha de S. Paulo”, no Caderno de Turismo, revelou que, em alguns roteiros, os guias se amarram nos troncos e pedem a um voluntário que simule açoitá-los, segundo relata o repórter Fabiano Maisonnave. Os roteiros estão sendo apoiados pelo Governo de Pernambuco.
Ainda nesta semana a ONG ABC sem Racismo entrará com representação junto ao Ministério Público Federal e Ministério Público do Estado pedindo a instauração de inquérito para apurar a prática de crimes por parte dos fazendeiros e de outros responsáveis pelo patrocínio do turismo macabro.
O presidente da entidade e editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, disse que esse tipo de encenação “não ofende apenas a população negra, mas representa um deboche a qualquer noção de avanço civilizatório e ofende a qualquer pessoa que se paute por padrões civilizados de convivência”.
Na representação é pedida uma ação imediata das autoridades no sentido de se pôr um fim a tais práticas, que estão ocorrendo também nos Estados do Rio de Janeiro e S. Paulo.
O Ouvidor da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiz Fernando Martins, disse que, em agosto, acionou o Ministério Público do Trabalho contra a Fazenda São João, de Barra do Piraí, por ter incluído nos seus roteiros o teatro da escravidão.
Em S. Paulo, o secretário de Turismo, Fernando Longo, lançou recentemente em Sorocaba, a “Rota do Escravo”.
Indignação
O cineasta Joel Zito Araújo, que vem chamando a atenção para o fato de as novelas de TV apenas retratarem o negro como escravo, foi enfático. “Conte com o meu nome de forma ativa”. A mesma atitude foi comunicada por João Jorge, presidente do Olodum da Bahia. Também da Bahia, Jorge Hilton anunciou que as entidades Rede Aiyê HipHop, Instituto Maloca e Banda Simples Rap’ortagem, assinarão a representação da ONG ABC sem Racismo, no sentido de pedindo aos órgãos do Ministério Público Federal e Estadual, que instaurem inquérito para apurar a prática de crimes dos que, a pretexto de promoverem o turismo étnico, fazem apologia da escravidão.
O professor Antonio Sergio Alfredo Guimarães, do Departamento de Sociologia da USP, autorizou a inclusão do seu nome entre os subscritores da representação. “Conte com meu apoio e assinatura”, afirmou. A mesma posição foi manifestada por Carlos Alberto Medeiros, doutorando em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio e militante do Movimento Negro carioca.
Entidades
Entre as entidades do Movimento Negro, Ana Maria Felippe, coordenadora do Espaço Lélia Gonzalez, lançou campanha nas listas mobilizando dezenas de entidades e lideranças. “Acho fundamental a iniciativa”, afirmou.
A Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira) do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, por intermédio do jornalista Miro Nunes, sugeriu: “Vamos aproveitar este fim de ano para dizer um Não a ações como a retratada na matéria abaixo. Apoiamos toda e qualquer ação que elimine a apologia a toda forma de opressão, e a escravidão é uma delas”.
Também apoiaram e assinarão a representação Miryám Hess, suplente da Presidência do Conselho de Gestão da Reserva da Biosfera do Cinturão Verde, em S. Paulo, o publicitário Carlos Figueiredo, o Núcleo de Mulheres Negras de S. José dos Campos Quilombelas, e o Identidade – Grupo de Ação pela Cidadania de Lésbicas, Gays, Travestis, Transexuais e Bissexuais, de Campinas, decisão comunicada por Paulo Mariante, coordenador de Direitos Humanos Adjunto do Grupo.
A Ação Negra de Integração e Desenvolvimento de Barueri – ANID e a Assessoria de Combate ao Racismo da Prefeitura da cidade, também manifestaram apoio a iniciativa. O jornalista Gerson Pedro se disse indignado. “Estamos novamente diante de uma verdadeira barbárie perpretada contra a população negra brasileira e de maneira alguma vamos ficar indiferentes. Portanto, mais uma vez nos uniremos a causa proposta de colocar esses racistas atrás das grades. Pode contar com o total apoio, aval e participação efetiva”, concluiu.

Da Redacao