S. Paulo – No dia em que o Brasil celebra os 125 anos da Lei Áurea – que aboliu a escravidão – Afropress ouviu lideranças negras do movimento negro e antirracista de vários Estados do Brasil, para conferir o que pensam a respeito e como vêem o 13 de maio.

Veja, abaixo, os depoimentos:

Cláudio Rodrigues, diretor de marketing, ativista da Frente Negra Pelotense, Rio Grande do Sul

Hoje 13 de maio de 2013, exatamente 125 anos da assinatura da Lei Áurea, mais uma Lei que, como muitas no Brasil não é cumprida. Ou você acha que acabou a escravidão? Antes capitão do mato, hoje policial militar caçando negros e usando o poderio bélico do Estado para praticar o genocídio da juventude negra, amparado claro pela política suja que impera no país, onde a Lei na prática é uma para os ricos (brancos) e outra para os pobres (negros ).

Estamos as vésperas de mais uma conferência de promoção da igualdade racial e eu pergunto: aplicaram 5% das propostas encaminhadas da última? E que bobagem é essa de igualdade racial? Quando um branco vai querer se equiparar a um negro? E porque nós negros temos que aceitar essa igualdade? Luto por equidade, isso sim, pelo menos ser tratado por igual com todos os seres humanos seria um avanço!

Temos mais capitães do mato usando o Estado para se auto promover, onde o sistema abre uma brecha para um entrar, e mascarar o problema afirmando que está tudo ótimo, que superamos as desigualdades, onde o Estatuto da tal igualdade racial foi esvaziado por troca de favores, para os brancos é claro, onde o STF aprova o sistema de cotas, mas não dá um norte de como um negro pobre pode fazer uma Faculdade de Medicina, sendo que tem aula nos três turnos, sem um auxílio nenhum. É tipo vou te dar um filé mingnon, só que num restaurante do outro lado da cidade e não tem garfo e nem faca, te vira pra chegar lá e quando chegar te vira como comer.

Resumindo vivemos em um país de privilégios de poucos e tristeza de muitos, ótica do capitalismo. poucos são os negros que ascenderam no país, estes se aculturaram e praticam a ideologia da classe dominante, inclusive, com diferenças com a sua própria raça. Sonho em um dia acordar desse pesadelo chamado Brasil e perceber que minha luta foi de todos os negros e negras e que conseguimos avançar de tal forma que teremos não só um presidente negro, mas também diretores de grandes empresas.

Spirito Santo, artista, ativista, músico carioca

Quando digo que éramos mais organizados e altivos, não é nostalgia de velho como se diz e como se pode ver, claramente por este vídeo histórico [referência ao vídeo da CULTNE, que está em TV Afropress, sobre Marcha realizada em 1988]. Infelizmente muito ainda por fazer, de novo, para que a indignação se materialize em ações concretas em defesa dos nossos direitos hoje cada vez mais vilipendiados. 

A sensação de que andamos para trás é imensa. Entre outras razões o aparelhamento do movimento social – armadilha na qual o Movimento Negro e o movimento sindical daquela época cairam tolamente – aparelhamento este dourado por propostas governistas que se mostram hoje terem sido verdadeiras farsas ideológicas explicam a anomia, a despolitização e a submissão da juventude negra atual, descendente destes jovens que emocionadamente encaram a repressão policial neste vídeo.

Titio estava lá. O racismo continua sobre a forma da sujugação e de uma repressão militar às populações faveladas sem precedentes. Hoje não são somos capazes de mobilizar nem 100 gatos pingados e tantas e tão mais graves são as ações desastradas e covardes de governos, merecendo o nosso grito de protesto revoltado. 

Enfim nada nos resta como usar protestos do passado como exemplo. Sim, nós éramos mais organizados e altivos. Havemos de voltar a ser.

José Amaral Neto, ativista, jornalista, Movimento Negro de Uberlândia/MG, da Agência JANCOM – ASSIMprensa

Sem o 13 de maio não teríamos o 20 de novembro. Penso assim por entender que o resultado de qualquer ação vem de atitudes construídas por muitos. E não podemos ter o presente ignorando o passado, pois isso compromete a legitimidade do que queremos no futuro.

Durante algum tempo de minha militância sempre vi o 13 de maio mais que uma festa. Hoje o vejo como um momento de reverenciar o Brasil. Querendo ou não a ação da Princesa Izabel deu folego internacional ao país e com certeza naquela época serviu para algum proposito maior além da abolição da escravatura que na minha opinião foi moeda de troca; Uma vez que aos negros foi dada a liberdade sem nenhuma responsabilidade do estado. "Convidado" a viver sua "nova liberdade" na rua e para a exclusão sem um meio de sobrevivência que seria o seu trabalho.

O dia de hoje é sim tempo de reflexão, mas deveríamos ir além nos debates. Alcançar coragem para avançar linhas escritas ou sonoras palavras que vão e vem, que merecem nosso respeito, entretanto, o agir é que deve ser o foco. Articular-se tem que se tornar premissa de interesse urgente.
13 de maio. Dia de luta para viver com qualidade e respeito à cidadania.
13 de maio. Dia em que muitos de nós pode olhar com orgulho o resultado do trabalho enquanto militante negreiro.
13 de maio. Dia em que as instituições e organismos públicos deveriam se fazer presentes de maneira direta e inclusiva nas atividades dos vários movimentos que regem os interesses da Comunidade Negra Brasileira.
13 de maio. Dia que deveria sim ser feriado do Brasil. Não do negro. Mas, da nação. Não de uma raça. Mas, de um povo em seu todo. Um feriado para proclamarmos que este país tem sim, espaço para a democracia.
13 de maio. Que não seja somente de luta e nem tão pouco comemoração. Mas além, que seja de conquistas; E que essas realizações sejam compartilhadas para serem copiadas, chegando aonde precisam chegar.

Nós negros precisamos nos ver mais. Precisamos ser mais fortes para que “Pescoços” não apareçam como o esteriótipo tradicional do que é ser negro e pobre. Que o falsete do “bom malandro” não seja a camisa que caiba num negro – não que sejamos especiais e diferentes; Somente que não seja a nossa cor a dar o tom dessa triste figura. Viva o 13 de maio. Viva Princesa Izabel. Viva Zumbi dos Palmares!"

José Evaristo Silvério Netto – professor, dirigente do Grupo Kilombagem, de S. Paulo

 

Penso que temos que nos apropriar da história e entender os fatos históricos de uma forma coerente com a nossa condição sócio histórica. A abolição quando entendida dentro da história da humanidade e dialogando com ela, significou a continuidade do processo de colonização e consolidação do capitalismo, tendo como plataforma o racismo antinegro e outras ideologias de opressão e dominação.

 

 

Professor Ilzver Matos, professor Universitário da Universidade Tiradentes – Aracaju/Sergipe

 

O uso do humor pode dizer muito sobre uma sociedade. E quando o tema é abolição da escravatura, muito é revelado a partir da análise de como nós ainda usamos piadas e tom jocoso para falar das relações entre a Princesa Isabel, a assinatura da Lei Áurea, os negros e o tronco. Sempre há alguém para dizer que a Princesa agiu errado ou que a Lei foi escrita a lápis, querendo dizer que aqueles tempos deviam nunca ter acabado e ao tronco deveríamos voltar. Ainda não reconhecemos quão terrível foi o período da escravidão, como ele deixou ranços que nos amargam a boca e como ainda espalha sofrimento nas almas de diversos brasileiro como nós. E isto não tem graça nenhuma.

 

 

Rosiane Rodrigues, jornalista, escritora, autora do livro "Nós" do Brasil, em que discute o não cumprimento pelos sistemas de ensino das Leis 10.639/03 e 11.645/08, lançado na semana passada no Rio e em S. Paulo.

Como assim, Abolição? Terminar com o trabalho escravo sem garantir equidade de direitos, é coisa para 'inglês ver'. Neste sentido, a Abolição foi um dos maiores embustes legas que já tivemos notícia.

 

Edson França, historiador, coordenador geral da União de Negros pela Igualdade (Unegro), corrente política ligada ao PC do B.

 

Após 125 anos de desinstitucionalização da escravidão no Brasil, verificamos que o racismo se reorganiza, moderniza e articula novos métodos para garantir a hegemonia econômica, política e social de uma minúscula elite branca descendentes dos senhores das antigas casas grandes e manter a marginalização dos netos, bisnetos e tataranetos de escravos, que hoje compõem metade da população brasileira. Continuamos lutando para conquistar a verdadeira e definitiva abolição, ainda querem nos escravizar."

Márcio Alexandre Martins Gualberto, jornalista, coordenador do Coletivo Nacional de Entidades Negras (CEN)

 

Penso que o 13 de maio é uma data reflexiva. Por tradição adotou-se como o dia dos pretos velhos, o dia feijoada de Ogum e esta tradição acabou trazendo festas e assim ficou. Mas acho que nós, como descendentes que somos de um dos momentos mais tristes da história humana, devemos usar este dia para relembrar nossos antepassados, reverenciar suas memórias e lutarmos para que o que aconteceu no passado nunca mais volte a acontecer na história humana.

 

Reginaldo Bispo, coordenador de organização do Movimento Negro Unificado (MNU)

 

Neste 125º aniversário da farsa abolicionista, responsabilizamos o Governo brasileiro pelo racismo das instituições do Estado, pela matança dos cidadãos desarmados e pelo genocídio do povo negro e indígena. Há uma guerra não declarada contra o povo negro indígena e pobre, de responsabilidade do Governo Federal e os Governos estaduais (no mínimo, por conivência), quando não ordenam suas polícias e exterminam cidadãos brasileiros jovens negros desarmados, configurando genocídio. Abolição da escravatura foi a senha para o projeto de genocídio do negro no Brasil, e o branqueamento da nação.

 

 

Ras Adauto, ativista do Movimento Negro, radicado em Berlin

 

125 anos da Abolicao da Escravatura e até agora nao nos pagaram o que nos devem e ainda exterminam [email protected] jovens para que nao tenhamos mais futuro! Mas [email protected] ancestrais sopram em nossos ouvidos: "A Luta continua, a Luta Continua!!!!". Continuemos! – Ras Adauto

 

 

 

Da Redacao