A declaração completa foi esta: “Tem um cara que eu sou muito fã desde que sou criancinha, acho que foi ele que me fez ser artista, juntamente com meu pai. Era um cara que, na sua época, negro, caolho, com um 1,5 m, chamado Samy Davis Jr., que quando entrava no palco saia com 2 metros de altura, loiro de olho azul”.
Tão afoita quanto equivocada, a nova patrulha se pintou para a guerra e a polêmica ganhou as redes sociais com a velocidade de um rastilho de pólvora.
Até mesmo pessoas sérias como a escritora Cidinha da Silva, foi convocada para dar sua opinião. “Me autorizo a pensar que é mais uma manifestação do lugar de privilégio que todo branco desfruta em relação a nós, negros, sejam racistas ou não. A branquitude que os protege e reforça, que os empodera, permite que eles cometam toda sorte de “deslize” em relação a nós, à nossa alteridade, aos nossos saberes e conquistas, e à nossa dignidade”, pontificou.
O depoimento de Lombardi nada tem de racista, a não ser para quem tem como passatempo – ou diversão – o exercício de procurar pelo em ovo.
Mesmo o mais paranóico desses críticos, deve ter percebido que o ator fez uma homenagem ao talento de Samy Davis Jr., que – todos sabemos – não era nenhum modelo de beleza, nem para os padrões americanos.
Visivelmente emocionado deu testemunho do talento de um Samy Davis Jr., – que, repita-se, era, sim, negro, caolho, baixinho e feio de doer, mas um monstro quando pisava no palco. E foi isso o que disse Lombardi.
Lombardi, ao homenagear Samy Davis, simplesmente reproduziu os valores eurocêntricos da sociedade racista em que vivemos, em que o padrão de beleza dominante para homens e mulheres é “ser loiro de olho azul”.
Ao invés de vilão como qurem pintá-lo, o ator é vítima: todos fomos formados sob o mito/mentira da democracia racial – um dos pilares fundadores desta República construída sob os escombros do escravismo.
O episódio, longe de ser isolado, expõe uma certa visão de movimento negro – caolha, conservadora, despolitizada, quando não reacionária mas, rápida no gatilho em produzir estigmas que tem como único efeito a vitimização.
Ao invés de formar opinião, de ganhar a sociedade – inclusive o ator Rodrigo Lombardi – tais “ativistas” fazem o oposto: desinformam, se auto-segregam, pretendem transformar a posição de vítima em bandeira, sem se dar conta – por ignorância e ou má fé – que a posição de vítima inspira apenas pena, jamais respeito.
Tanto quanto os ocupantes honorários dos “puxadinhos” do Estado, essa militância difusa, ora na academia, ora nas redes sociais, tem sido incapaz de se mobilizarpara as questões concretas que nos assolam no nosso dia a dia.
No mundo real, um jovem negro tem 3,7 vezes mais chances de ser assassinado antes de completar 19 anos (Índice de Homicídios na Adolescência – IHA 2011); a Polícia continua tendo por eles, uma sinistra preferência; somos alvos de violências, vergonhas e constrangimentos quase que diários nas relações de consumo, mas esse tipo de ativista virtual, não está nem aí.
São os mesmos que fazem questão de “escurecer as idéias”, ao invés de esclarecer (jogar luz, dar nitidez); são os mesmos para quem ser negro é padrão de virtude; são os mesmos que se remetem a uma África idílica que só existe em suas cabeças vazias.
Confortáveis, seja nos bancos da Academias, ou atrás dos seus lap-tops ou blackberrys, se tornaram especialistas em polêmica que só tem um efeito: explicitar sua própria ignorância e despolitização – quando não revelar sequelas e ressentimentos mal resolvidos.
A tentação de dividir o mundo em negros, de um lado, e brancos, de outro, é uma tolice típica dessa visão impressionista, destituída de sentido numa sociedade de classes – profundamente desigual, como a nossa – em que o racismo e a herança dos quase 400 anos de escravismo é parte do processo de exploração capitalista.
Ao invés de ver racismo onde há apenas a reprodução ideológica de um modelo em que o branco, o loiro, o olho azul se tornaram padrão de beleza, em que cabelo de negro continua sendo visto como “cabelo ruim”, em que os valores positivos continuam sendo associados a visão branca e eurocêntrica do mundo – valeria a pena para tais “ativistas” lutar na vida real pela mudança desses valores.
Na prática, isso significaria fazer a defesa, não apenas no plano da retórica, da Democracia, da Igualdade e de um Brasil com Justiça e equidade, o que supõe a luta de todo o povo brasileiro e não essa visão caolha e raza do “nós – os negros” x eles – “os brancos”.
E isso só será possível, na medida em que nos engajemos todos no longo processo de ajuste de contas com a história e de libertação.
Primeiro, das seqüelas do escravismo- ressentimentos e recalques incluídos; depois e, simultaneamente, com a mudança dos padrões culturais herdados do período da escravidão e mantidos pelo racismo pós-abolição, o que supõe a mudança dos valores como aquele que considera o “loiro de olho azul” o único modelo de beleza a ser valorizado.
E essa mudança é tarefa de todos – negros e não negros -, Lombardi incluído.

Dojival Vieira