E assim ficou: Nelson Mandela. O poder de uma professora aliado ao racismo mudou o nome do grande líder sul-africano, por quem tenho uma grande admiração e reverência.
Às vezes, penso em quais são as substanciais diferenças entre o “apartheid” de outros países, como a África do Sul e EUA, e o nosso, brasileiro.
Diante desse fato da professora mudar o nome de Mandela, lembro-me dos negros chegando ao Brasil, durante a escravidão, e já, de cara, recebendo um nome “cristão”. Meu Deus, acho isso um horror! Tirar o nome já era eliminar as raízes, aquilo que o ser humano tem de mais determinante para a sua vida social e seus laços familiares.
Isso foi na chegada, depois os negros nascidos no Brasil já recebiam o nome dado pelos brancos.
Atualmente, não precisa nem dos senhores de escravo nem da professora. Ainda não descobri quem são os novos nomeantes dos negros (a televisão? as novelas? o cinema?), só sei que os nomes das crianças negras já chegam nas escolas estrangeirados, em sua maioria, americanizados.
E o que tem isso? Tem tudo! Junto com os nomes, foram-se as raízes, a história, a dignidade, o orgulho, a união. Por mais que a gente queira disfarçar e negar, o racismo está entre nós e atinge drasticamente a vida dos negros, atinge a habitação, o emprego, a educação e os serviços públicos. E não fazemos nada, porque, oficialmente, ele não existe. Penso o quanto isso não será mais maléfico do que o apartheid, pois o racismo institucionalizado fez com que a comunidade internacional e a Organização das Nações Unidas – ONU – fizessem pressão pelo fim da segregação racial.
Os nomes jogados fora lembram-me Manoel de Barros:
As coisas jogadas fora
têm grande importância
– como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

Penso o quanto isso não será mais maléfico do que o apartheid, pois o racismo institucionalizado fez com que a comunidade internacional e a Organização das Nações Unidas – ONU – fizessem pressão pelo fim da segregação racial nesses países. Mas como no Brasil, o racismo é “informal”, não está escrito no papel e sim nas estrelas, esses organismos ficam sem ação diante do mito da nossa igualdade racial.

Maria da Glória Reis