Segundo o jornalista, que também é professor, mestre em Sociologia pela USP e militante do Movimento Negro “o nome de Luiz Gama e a ação política desenvolvida por ele no século XIX são fundamentais para o entendimento da ação negra durante o período escravocrata”. “Foi dos primeiros a trabalhar com o conceito de negritude”, acrescenta.
Uma das evidências disso, segundo ele, está no fato da mulher negra ocupar a posição de musa na sua produção poética, o que não é pouca coisa, considerando o fato de que a escravidão negava ao negro a dimensão humana. “Ele nunca teve nenhuma dúvida do lugar pelo qual optou. O de ser negro”, afirma o jornalista.
Líder político
Advogado, jornalista, poeta, membro da Maçonaria e fundador do PRP, Gama morreu em 1.882 tendo libertado por meio de sua ação nos tribunais 500 negros. “Trata-se de uma biografia singular que articula luta com inteligência”, afirma Luiz Carlos.
Na biografia, o pesquisador mostra o menino negro que nasceu livre em Salvador, na Bahia, filho de Luiza Mahin, com um comerciante português, como, após vendido aos 10 anos pelo próprio pai, aprendeu a ler na juventude por conta própria e a trajetória de advogado brilhante até tornar-se símbolo da luta abolicionista e republicana. Resgata também nas 120 páginas, “o agitador incansável das causas negras, perseguido muitas vezes e ameaçado de morte”. “Sua vida é uma forte referência para a nossa história e permite uma releitura da história do Brasil”, acrescenta.
Radical e consequente
Para Luiz Carlos uma das facetas mais importantes da vida de Luiz Gama foi a sua radicalidade, o que hoje poderia ser comparado no século XX com a atitude política assumida por Malcolm X no Movimento de Direitos Civis americanos, ou mesmo a linguagem dura e cortante dos rappers brasileiros, quando falam do genocídio da juventude negra, nos dias de hoje.
Ele trabalhou com as leis vigentes sob o Império para fazer a defesa da liberdade dos negros, sustentando o princípio de que “um negro que mata o seu senhor, o faz em legítima defesa. “Isso no século XIX era altamente subversivo. A elite da época o tinha como subversivo e até agente da internacional socialista”, afirma.
Como advogado (sem formação acadêmica), ele utilizou os conhecimentos da Lei e do Direito para a libertação de cerca de 500 negros.
Reação da elite
A elite escravocrata do Império reagiu com muita veemência e Gama foi muito perseguido e ameaçado. Além de radical, subversivo, agente da internacional socialista”, era chamado pejorativamente de “O Bode”.
Segundo o jornalista, o termo pejorativo poderia estar associado à condição de maçom (chegou a vice-presidente da Loja Maçônica América, hoje Luiz Gama), ou ao fato de que usava um vistoso cavanhaque. “Entretanto, também pode ter relação com a idéia de que negros fedem como bodes, cheiram mal, presente no pensamento racista da época”, afirma.
Um outro dado que ele destaca é que Luiz Gama não ficou numa visão economicista ou radialista da questão negra. Para se contrapor aos ataques, republicano convicto, tornou-se um dos fundadores do Partido Republicano Paulista (PRP) e adquiriu representatividade política, através de artigos nos jornais e na atuação como rábula (advogado sem formação acadêmica). “Ele não separou o social do racial e combateu tanto a escravidão quanto a monarquia”, frisa o autor.
Estatuto
Luiz Carlos acredita que se ainda estivesse vivo, pela perspectiva da militância que sempre exerceu, Luiz Gama estaria ao lado dos que não aceitam o acordo SEPPIR/DEM para aprovar no Senado o Estatuto da Igualdade Racial.
“Eu acredito por tudo o que vi da personalidade dele, que estaria próximo dos negros militantes do movimento negro de não aceitar a adesão institucional para esvaziar a presença e a participação negra no país, por meio de políticos escolhidos a dedo para fazer esse papel”, afirma.
Para Luiz Carlos, “no caso do Estatuto, o tempo que levou na tramitação foi estrategicamente pensado para esvaziar o seu conteúdo. Foi apropriado por setores personalistas e individualistas” “Um negro como Luiz Gama dificilmente aceitaria essa situação como estamos aceitando por conta da nossa dispersão e desmobilização”, acrescenta.
Ele não tem meias palavras para classificar o processo de votação do Estatuto, recentemente pelo Senado da República. “É uma monstruosidade histórica, uma provocação à população negra brasileira, promovida por pessoas sem qualquer comprometimento com o negro brasileiro. Não está desvinculada das intenções maiores de proprietários que se apropriaram das terras de remanescentes de quilombos. E atende aos interesses dos setores da sociedade brancos, anti-cotas anti-ações afirmativas, como Demétrio Magnolli e Yvone Maggie, porta-vozes dessas posições. A questão racial no Brasil é muito séria é muito profunda, e o que pretendem esses setores é acabar com a presença negra”,
Selo Negro
O livro faz parte da Coleção Retratos do Brasil Negro, coordenado por Vera Lúcia Benedito, mestre e doutora em Sociologia/Estudos Urbanos pela Michigan State University (EUA) e pesquisadora dos movimentos sociais e da diáspora africana no Brasil e no mundo.
Luiz Carlos é também autor do livro O Negro em versos – Antologia da poesia negra brasileira, e fez parte da direção da Sociedade de Intercâmbio Brasil África (Sinba) e foi coordenador do Núcleo de Consciência Negra da USP. Atualmente é consultor de História do Museu Afro Brasil e docente em cursos de formação de professores, nos quais ministra palestras sobre as Leis 10.639 e 11.645 que estabeleceram as disciplinas História da África e da Cultura Afro-Brasileira e Indígena no currículo das escolas brasileiras.
O livro custa R$ 21,00 e o lançamento será nesta segunda-feira (05/07) na Livraria Martins Fontes, da Avenida Paulista, 509 – Bela Vista – (próxima a Avenida Brigadeiro), a partir das 19h. A entrada é franca.

Capa do livro “Luiz Gama” do jornalista Luiz Carlos dos Santos