Conferência inicialmente saudada pelos quatro cantos do Movimento Negro brasileiro, a CONAPIR foi perdendo sua legitimidade ao longo do tempo de sua preparação, quando foram verificadas e denunciadas tentativas de manipulação na organização, e na eleição de delegados e convidados, efetivadas a partir dos partidários do PT de São Paulo, e sua filial governamental na área racial, a Seppir de Lula, a Secretaria da Promoção da Igualdade Racial, com status de Ministério, ocupada pela Ministra Matilde Ribeiro.
O Presidente LULA abriu a Conferência num discurso que conclamava a união de vários setores do movimento social. O evento foi transmitido pela TV oficial, e num avanço elogiável, transmitiu via internet on line através da pagina da Seppir, permitindo aos não delegados ou não convidados, ao menos, a observação do conclave. A iniciativa, elogiável, sepulta uma observação de que a militância de movimento social, em especial o negro, não poderia ser feita visto que “negro (a)s não possuiriam computadores”. Um fato interessante e de ser anotado, é que foram pouquíssimas, ou quase nenhuma, as oportunidades de cobertura da mídia sobre o evento, por parte de outros veículos que não a TV oficial federal. Vozes logo se levantaram para denunciar o “racismo institucional da mídia”, mas uma série de denúncias quanto à organização do evento, deixam também duvida se não houve simples falha na comunicação do mesmo por parte dos setores governamentais encarregados da preparação. Uma coisa não excluiria a outra. De se registrar, as informações do Boletim eletrônico EPARREI e a AFROPRESS, que deram bons informativos sobre o tema.
É importante dizer que a Seppir chegou à Conferência sob a sugestão de extinção, em proposta do Ministério da Fazenda, como medida de economia, mas tal fato foi refutado pelo Presidente da República. Não foi o suficiente, contudo, para afastar a conclamação de urgentes mudanças no sentido de democratizar a secretaria, no sentido de não ser usada como extensão da máquina partidária, o popular “aparelhamento”.
“Ou muda ou fecha”, foi um bordão que lancei, com apoios pró e contra, na lista de direito de discriminação racial ([email protected]). Muitos e muitas tiveram dificuldade de ver a parte “ou muda” antes, e refletir na necessidade de mudanças da postura do órgão governamental de política racial. Fixaram-se apenas na parte “ou fecha”, e veicularam uma série de apoios a Seppir, sem considerar a explosiva e radical proposta de que “se é para funcionar do jeito que está, melhor fechar”. Como está claro, o melhor e anterior caminho é mudar o jeito de funcionar.
A decepção com a Seppir de Lula, para muitos, tem sido total, pois a ajuda que precisamos em vários momentos foi nenhuma.
Assim ocorreu no momento de ajuizamento de Amicus Curiae pró Cotas para Negros na Uerj; nas Representações ao MPT por discriminação racial no Mercado de Trabalho; nas Representações aos MP Estaduais e Federal nos Estados, pela não implementação da lei de História da África e Cultura Afro Brasileira, a lei 10.639; na questão de Clandestinos Negros Africanos; no Amicus Curiae dos Terreiros pró-cotas no STF; e por fim, no episódio dos quilombolas no STF.
Por óbvio, que pessoas, artistas, cineastas, profissionais, que estiverem recebendo somas pecuniárias em retribuição de sua atividade em parceria com o Governo, e especial durante a Conapir, tem a isenção necessária para se colocar contrários à posição governamental absolutamente reduzida, quiçá nenhuma.
De se anotar a denúncia de racismo para com os delegados negros eleitos para a conferência, hospedados em hotel, que segundo denúncia, mandou retirar os rádios relógios dos hóspedes, os delegados negros apenas. Aguardam-se os desdobramentos da Seppir, conquanto não ser a primeira vez que isto ocorre, certo que de outra feita, 07 mulheres negras, a Ministra de Moçambique inclusive, foram discriminadas no Hotel Nacional. A Secretaria da Mulher, da Ministra Nilcéa, imediatamente descredenciou o hotel. A Seppir silenciou. Veremos o que ocorrerá.
O Senador Paulo Paim foi único em seu discurso a apontar a irresponsabilidade de duas datas para a mesma Marcha Zumbi + 10, uma convocada há mais de um ano, pelo Movimento Social, outra pela força de apoio do setor negro do governo. Paim disse, com clareza, que tal situação é insustentável e divide as forças de combate ao racismo.
Não se pode deixar de enfrentar, também, que as algumas estatais podem estar sendo usadas da mesma forma que estão chegando denúncias à CPI dos Correios e do Mensalão. Petrobrás, Eletrobrás, Banco do Brasil, BNDES, Caixa Econômica Federal, Correios, podem estar tendo patrocínios de projetos de ongs de aliados e integrantes do partido do Presidente da República.
A serem verdadeiros tais fatos, isto constitui uma forma de privilégio para alguns, uma “delubiozação” da área racial, que deve ser corrigida de imediato.

Humberto Adami