Sem levar em conta as tergiversações óbvias para enganar os incautos, espremida a resposta, o que fica é a essência: os dois candidatos não consideram o Brasil um país racista. É isso que está literalmente dito e essa afirmação – ou crença – tem um enorme significado para a população negra e para o país.
Primeiro porque representa um retrocesso à admissão pelo Estado brasileiro, ainda sob Fernando Henrique, em 1.995, de que “O Brasil é, sim, um país racista”. Foi essa admissão tardia, mas necessária, que impulsionou a cobrança por parte da população negra de políticas públicas para enfrentar o oceano de desigualdade de natureza e com recorte racial.
O próprio fato de um chefe de Estado admitir a gravidade do problema, em si, já era resposta a Marcha Zumbi + 10, realizada em novembro de 1.995, para lembrar os 300 anos da morte de Zumbi dos Palmares e que reuniu milhares de negros na Esplanada, em Brasília.
Não foi por outra razão que o Brasil foi o país com maior delegação presente à III Conferência Mundial contra o Racismo, em Durban, na África do Sul, em 2.001.
Quando os dois candidatos à Presidência da República negam literalmente a existência de um problema que afeta 87 milhões de brasileiros e põe em xeque conceitos como justiça, cidadania e democracia no país, aí não é possível tergiversar: estamos diante de um grave retrocesso, um passo atrás monstruoso.
Primeiro porque esse tipo de afirmação torna sem efeito os tímidos avanços obtidos sob este governo, como por exemplo – a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Ainda que com a falta de orçamento e com viés partidário que caracterizou a atual gestão, a Seppir é um avanço e tem sido defendido por nós da Afropress.
Se não há racismo, para que políticas públicas? Mais: para que órgãos públicos no Estado com a responsabilidade de implementá-las?
Se não há racismo, as humilhações e constrangimentos que nós negros e negras sofremos em nosso dia a dia, as chacinas contra os jovens negros tantas vezes denunciadas, não passam de fruto da nossa fértil imaginação, quem sabe a nossa histórica e tão decantada (pelos brancos racistas, claro!) mania de perseguição ou complexo de inferioridade.
Se não há racismo, todos os indicadores do IPEA, Fundação Seade, Dieese, IBGE, dezenas de estudos acadêmicos que se acumulam, são obra de pesquisadores que não tem outra coisa a fazer senão “procurar pêlo em ovo”, “chifre em cabeça de cavalo” e outros hábitos não menos estranhos.
Se não há racismo, então todas as pesquisas de opinião, desde a pesquisa da própria Folha feita em 1995, passando pela pesquisa da Fundação Perseu Abramo, até o mais recente relatório da ONU que aponta que 90% dos jovens entre 15 e 25 anos vítimas de homicídio são negros, são pura invenção.
Se não há racismo que viva o mito da democracia racial, que nós, no Brasil, não temos esse tipo de problema tão grave em países de colonização anglo-saxônica, como os Estados Unidos e África do Sul, por exemplo.
A declaração dos candidatos a Presidência do segundo maior país negro do mundo; país que mais seqüestrou homens e mulheres escravizados (as) do continente africano; país em que uma abolição declarada apenas no plano formal não representou a inserção da população negra nos direitos básicos da cidadania é, também, a afirmação de que os tímidos passos que demos na direção da igualdade racial, são insignificantes em face da grandeza da tarefa que temos pela frente.
Sim, porque até agora nenhum governante com esse nível de responsabilidade, em que estão Lula e Alckmin, ousou contrariar o quase consenso no Brasil a respeito desse tema, a tal ponto que, afirmar a existência de uma modalidade de racismo dissimulada, cordial – a mais difícil de ser enfrentada, porque invisível – passou a ser quase uma redundância.
Se as maiores lideranças políticas do país – um dos quais será o próximo Presidente da República – negam a existência de um fato tão notório para o povo brasileiro, de duas uma: ou vivem em outro país; ou a elite política brasileira passou a viver tanto nas nuvens, que não consegue mais fazer contato com a realidade, nem mesmo numa campanha eleitoral em que precisará dos nossos votos para eleger seus representantes.
Quem sabe, não seja a hora de dizer para quem nega a existência do racismo – e ao fazê-lo nos nega a nós negros e negras, nos ignora e nos lança na cara que devemos ser todos esquizofrênicos (as), mentalmente perturbados (as), ou algo assim – que nos ignore de uma vez: esqueçam que também existimos para legitimá-los com nossos votos.