Num discurso eletrizante e mobilizador, em que misturou a leitura com o improviso, Lula, muito aplaudido, falou na qualidade de enviado especial da presidente Dilma Rousseff ao evento.
Começou por agradecer o apoio dos países africanos ao processo que permitiu a eleição do seu ex-ministro da Segurança Alimentar, José Graziano, para o cargo de Diretor Geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a quem pediu, no improviso final de seu discurso, para olhar para a África com um olhar de justiça e não de caridade.
Saudou a oportunidade do lema escolhido pela assembleia da UA salientando o papel da juventude como cada vez mais fundamental para o processo de desenvolvimento. Citou o caso do Brasil onde a juventude se mobilizou em momentos cruciais dando como exemplos como a Segunda Guerra Mundial contra o nazi-fascismo, a criação da estatal petroleira Petrobras e as lutas contra a ditadura e pela redemocratização do país. Referiu o papel decisivo da juventude africana nos processos de libertação nacional do continente.
Brasil-Africa: política de continuidade
De acordo com o ex-presidente, a sua presença na cúpula da UA como representante do governo brasileiro, é um sinal inequívoco que simboliza o compromisso da presidente Dilma em dar continuidade e aprofundar a relação do Brasil com a África.
Lembrando os oito anos do seu governo, Lula realçou os vínculos diplomáticos, econômicos e culturais fortalecidos com a África. No plano diplomático citou como exemplos a abertura ou reativação de embaixadas brasileiras em 19 países africanos e a existência de relações diplomáticas com os 53 países do continente.
No âmbito econômico salientou o fato do comércio entre o Brasil e o continente africano ter aumentado de cinco bilhões de dólares em 2002 para 20,5 bilhões de dólares no ano passado. No plano acadêmico e cultural anunciou para 2012 a criação da Universidade Afro-Brasileira no estado de Ceará.
Reforma da ONU
Falando sobre a necessidade de reformas no Conselho de Segurança da ONU, onde o Brasil reivindica um assento permanente, Lula lembrou que caminhamos na direção de um mundo multilateral que precisa de uma ONU suficientemente representativa para enfrentar as ameaças à paz mundial, com um Conselho de Segurança renovado e aberto a novos membros.
“Não é possível que um continente africano com 53 países e mais de 1 bilhão de habitantes não tenha nenhum representante no Conselho de Segurança, como não é possível que a América Latina, com 440 milhões de habitantes, não tenha nenhum”, frisou indignado, salientando ainda que “não é possivel que cinco países possam decidir o que fazer, como fazer, sem levar em conta os restantes seres humanos do planeta”.
“Precisamos de uma ONU capaz de ter coragem de pedir um cessar-fogo na Líbia e constituir uma mesa de negociações para encontrar a solução para a democracia que todos sonhamos”, disse recebendo longos aplausos de uma assembléia rendida à sua oratória.
Democratização das instituições financeiras globais
Tocando a necessidade de democratização das instituições globais como o FMI e o Banco Mundial, Lula recordou a crise econômica e financeira que nasceu nos países desenvolvidos em 2008 e que provocou “efeitos penosos” em todas as partes do mundo.
Não poupou críticas aos responsáveis pela situação e afirmou que a mesma não pode ser paga pelas nações mais pobres e emergentes. Lembrou como os países mais pobres da Europa como a Grécia, Espanha e Portugal estão pagando por uma crise nascida nos EUA e nos estados mais ricos do continente europeu.
“Esta é a hora de reconstruir instituições globais em bases mais democráticas, representativas, legítimas e eficazes.”, disse Lula, muito ovacionado pelos presentes. “Por que ficarmos atrelados a modelos criados em tempos e realidades tão diversas das que vivemos hoje?” Questionou.
Para o ex-presidente, somente “organismos mais representativos e democráticos terão condições de prevenir futuras crises, sejam politicas ou financeiras, e responder aos desafios de uma nova geopolítica mundial, multipolar, com a presença de novos atores.”
África estereotipada
O antigo metalúrgico disse que a “fotografia mostrada todos os dias sobre a África é uma fotografia equivocada, preconcebida e preconceituosa” para mostrar que os africanos “não têm capacidade, só têm pobreza, só têm miséria”.
“Eles são incapazes de enxergar a África como um continente de seres humanos igual ao continente europeu e outras partes do mundo porque eles pensam que nós latino-americanos e africanos somos de segunda classe, ou porque parecemos índios, ou porque somos negros”, disse Lula acrescentando que “não queremos nada a mais que ninguém. Só queremos ser tratados em igualdade de condições e ter a chance de partilhar e participar das riquezas desse mundo”.
Rico e pobre
Tocando num tema que lhe é particularmente caro, o combate à a pobreza, Lula sustentou que “não tem nada mais barato, nada que custe menos do que cuidar dos pobres.” O rico, diz ele, “quando entra no gabinete do presidente já quer pedir logo um bilhao. O pobre quando entra quer pedir pão, trabalho e dignidade”, afirmou.
De acordo com o ex-mandatário, criou-se no mundo uma teoria segundo a qual “o que se faz pelos pobres é gasto enquanto que o que se faz pelos ricos é investimento.” “Dê um milhão de dólares a um rico e ele abrirá uma conta bancária para viver de juros. Dê 10 dólares a uma mulher pobre e ele vai virar alimentação para uma criança pobre”, comparou na parte final de um discurso vivamente aplaudido.
Lula recordou ainda o seu primeiro pronunciamento em 2003, após a sua eleição, quando disse que se ao final do seu mandato todos os brasileiros tiverem a possibilidade de tomar café da manhã, almoçar e jantar, teria cumprido a missão da sua vida como presidente do Brasil.
O presidente equato-guineense Teodoro Obiang, cujos país ocupa a presidência rotativa da organização pan-africana, agradeceu à Lula pela sua intervenção que classificou como “inspiradora” e, num gesto de autocritica, disse que nem sempre os africanos têm “suficiente capacidade e valentia para expressar frontalmente as contrariedades que vive o continente” como fez o antigo mandatário brasileiro.

Alberto Castro