O Movimento sindical do ABC teve importância enorme para a modernização das relações sociais e políticas no Brasil e, para a incipiente democracia que temos hoje.
Em um aspecto, contudo, a cidade e a região permaneceram impermeáveis a qualquer mudança: no quesito da exclusão social provocada pela desigualdade racial.
Reina, há décadas, entre o PT, que ainda detém duas das mais importantes prefeituras (Santo André e Diadema), e os setores mais conservadores, de mentalidade política tacanha, espécie de novos senhores feudais provincianos, uma estranha e rara unanimidade: a insensibilidade e a indiferença para políticas públicas que enfrentem a desigualdade racial.
O racismo institucional é tão popular quanto o frango com polenta, e o “doutor” que antecede nomes ou sobrenomes de ocupantes de cargos públicos, tão indispensável quanto nos grotões do Brasil, o que dá uma boa idéia de a quantas andam os costumes e a cultura política.
Para que não se confunda os comentários acima com ranzinice de crítico mal humorado, vamos aos números. S. Bernardo tem, segundo o Censo do IBGE 2.000, em Estudo coordenado pelo Professor Marcelo Paixão, da UFJR, 695.719 mil habitantes, sendo que 194.358 habitantes (27%) desta população, é de origem afrodescendente. Trata-se numericamente da cidade, na região, com maior presença negra, ocupando o 9º lugar no ranking de cidades com população negra no Estado de S. Paulo.
O Estudo revela que essa população está na base da pirâmide social, em desvantagem em todos os indicadores – sociais, econômicos, de inserção no mercado de trabalho, de acesso à educação, entre outros.
Um homem negro, em S. Bernardo ganha, em média, R$ 690,00, enquanto que um branco chega a R$ 1.409,00. No caso da Mulher Negra, comparado o rendimento médio com a mulher branca, a situação é pior: R$ 445,00, contra R$ 847,00.
A professora Nadya Guimarães, da USP, em outro Estudo chegou a uma conclusão interessante a respeito da desigualdade no ABC: um homem negro tem tempo médio de permanência no emprego de 50 semanas, contra 70 semanas de um homem branco.
A tradução dos dados não exige esforço: o negro é o último a ser admitido e o primeiro a ser alcançado nos “facões” que as empresas realizam com a periodicidade costumeira.
Mas, as desvantagens não ficam por aí: em S. Bernardo, a taxa de analfabetismo da população negra maior de 15 anos de idade chega a 8%, contra apenas 3% dos brancos; a taxa de analfabetismo funcional chega a 20%, contra 11% dos brancos. E embora represente cerca de um terço da população, sua participação na composição racial da população analfabeta e analfabeta funcional maior de 15 anos, chega a 47% e 41%, respectivamente.
A intensidade da pobreza e indigência dos afro-brasileiros não é menos reveladora: 50% dos negros de S. Bernardo – 97.558 pessoas, ou seja, quase 100 mil – vive abaixo da linha de pobreza e 25% abaixo da linha de indigência.
Nas demais cidades da região, a situação se repete de forma quase que tediosa: em todas, o dado em comum em todos os indicadores, é a desvantagem da população afrodescendente.
Por que será que isso acontece na cidade que, ainda hoje – apesar da conhecida evasão de muitas empresas – é o coração industrial do Brasil?
Alguns dirão que os negros tiveram pouco acesso à Educação, são menos qualificados para o trabalho, por isso ganham menos; outros buscarão explicações na questão social; e ainda outros dirão envergonhadamente com seus próprios botões (porque o racismo, no Brasil, não se assume) “que é isso mesmo, sempre foi assim mas, claro, há exceções, existem negros que são gente muito boa e até merecem melhorar de situação, coitados!”
Há um pano de fundo em todos os argumentos: todos evitam tocar na questão racial; todos cuidadosamente evitam a “herança maldita”, as seqüelas e as conseqüências persistentes em todos os indicadores, dos mais de 350 anos de escravismo e de uma abolição, em que o Estado lavou as mãos para a população negra.
A resposta, contudo, está num Estudo recente do IPEA – o insuspeito Instituto de Pesquisas Aplicadas, órgão do Ministério do Planejamento, e que tem o título de “MOBILIDADE SOCIAL DOS NEGROS BRASILEIROS”, do professor Rafael Guerreiro.
A ideologia racista inculcada nas pessoas e nas instituições, diz Guerreiro, leva à reprodução, na sucessão das gerações e ao longo do ciclo da vida individual, do confinamento dos negros aos escalões inferiores da estrutura social, por intermédio de discriminação de ordens distintas, explícitas, veladas ou institucionais, que são acumuladas em desvantagens. Trata-se da naturalização das posições de invisibilidade e de subalternidade reservadas à população afrodescendente.
Quem sabe, em mais um 1º de Maio, o agora Presidente Lula, que continua a não saber de nada do que acontece à sua volta, lembre-se de um ponto de pauta que ficou esquecido nas assembléias do seu tempo de líder sindical: a luta por Democracia e por Justiça é indissociável da luta por Igualdade Racial.