o mestre me ensinou a fotografar primeiro com o meu olho.

o telefone toca na minha casa em santa tereza. era o janu: “adauto, venha aqui no estúdio, que hoje temos uma surpresa”.

janu morava e tinha o seu estúdio fotográfico perto de onde eu morava, na rua Joaquim Murtinho.

chegando lá, assim que entrei, pimba: estavam lá dona clementina de jesus, seu aniceto do império, martinho da vila e zezé motta. januário ia fotografá-los para a capa de um disco. e foi uma tarde incrível, com muitas histórias, memórias ancestrais, risadas fartas e o chamego galante de seu aniceto com dona clementina de jesus.

sempre que januário ia ter alguma sessão importante no estúdio ele me chamava. e acompanhei com isso várias sessões fotográficas com artistas, modelos, peças publicitárias para revistas e etc. e ia sempre me dando dicas de como montar um fundo para retrato, colocar as luzes, medir e fotometrar o ambiente, e truques para captar o melhor registro.

enquanto a gente ia fazendo vídeos com o movimento negro, janu ia criando um arquivo vivo sobre a população e a cultura negra no país. outro dia soube que ele tinha criado o instituto januário garcia e me lembro que a gente nessa época, nos anos 80, quando eu frequentava o seu estúdio, a gente já conversava sobre a criação de um instituto ou fundação de áudio visual pra gente depositar os nosso trabalhos de vídeo e fotografia. os nossos vídeos, da vik e eu, foram depositados na plataforma Cultne, que agora também virou um instituto lá no Rio de Janeiro.

e para quem não sabe, januário foi considerado um dos maiores fotografes de publicidade do mundo, tendo sido premiado até em cannes.

foi um privilégio ter vivido e em um momento de minha vida estar perto e receber lições diretas de fotografia de uma grande artista e ativista histórico sempre presente do Movimento Negro do Rio de Janeiro.

Valeu, janu. Seus ensinamentos ficarão para sempre.

“adauto, presta sempre atenção no jogo das luzes, guarde na memória e fotografe com seu olho”.

Ras Adauto – negra panther

foto:janu: naquele dia inesquecível com seu aniceto do império e dona clementina de jesus, estúdio de januário garcia, em santa tereza.

Obs. 1: a grafia do texto, em minúsculas, foi mantido como o escreveu o autor, e também como sinal de respeito e homenagem ao fotógrafo e ativista negro Januário Garcia, morto pela Covid na semana passada.

 Obs. 2: Januário é mais uma vítima da política genocida do atual governo do Brasil.