Algumas vezes as ações subalternizam o sujeito negro, como no caso da menina Luara de 5 anos em que o seu grupo lhe escolhe – única menina negra da sala – para interpretar a cozinheira da poesia A Porta do Vinicíus, naturalizando um lugar de desprestígio para este segmento da população. Noutras torna o negro invisível, tomando o branco como padrão de humanidade. Estas graves ações não são realizadas de modo premeditado e agressivo, ao contrário, ocorrem muitas vezes num clima de alegria e descontração presentes nas aulas de educação infantil, o que as tornam mais arrasadoras do ponto de vista da sua eficácia, pois atuam de modo implacável na constituição dos sujeitos negros e brancos. Para exemplificar o que digo tenho buscado no meu cotidiano ou no de amigos bem próximos situações exemplares e é uma destas que vou contar.
Dias destes, numa noite em que mãe ajuda filho a fazer tarefa, estava uma mãe negra a ajudar seu filho, moreno, segundo ele mesmo, já que é filho de pai branco e em suas várias conversas com a mãe sobre as definições de cor/raça ele insiste em “guardar” à parte do pai no seu processo de identidade. Esta criança tem 4 anos, sabe que sua mãe é negra, conversa com ela sobre isto e por mais que ela queira que ele se identifique como negro ele a contesta e insiste que é moreno, pois é mistura da cor do pai com a dela. Ela como boa educadora que é sabe que os pequenos possuem autonomia de pensamento, são sujeitos ativos e elaboram seus próprios pensamentos a partir da interação social, respeita, ouve suas argumentações, contra-argumenta e assim seguem…
Voltemos àquela noite da tarefa. Estavam pintado (ele faz a sua tarefa e passa para ela fazer uma igualzinha a dele) algumas pessoas que vieram desenhadas na tarefa, quando ele pede Mamãe, cadê o lápis cor de pele? Ela muito calma e atenta, educadora sempre, responde-lhe. Cor de qual pele? Da minha, da sua ou a do papai?. Ele sério lhe diz: Mamãe, o lápis cor de pele. Ela mais uma vez tenta fazê-lo perceber que não existe um lápis cor de pele e repete: Mas de qual pele você está falando? Ele já meio irritado responde: Mamãe, você não sabe qual lápis é cor de pele! Ela munida de muita paciência pois sabe que erroneamente algumas pessoas nomeiam o lápis cor salmão (meio rosa-amarelado) como lápis cor da pele. Responde-lhe: Não querido, eu não sei a qual cor você está se referindo, pois há muitas cores de pele. Veja a minha, qual lápis você usaria para pintar a cor da minha pele?
Ele rapidamente encontra um marrom escuro entre os muitos lápis-de-cor espalhados pela mesa e mostra a ela. Em seguida ela pergunta. E para pintar a sua cor, qual você usaria? O mesmo que usou para mim?( mais uma vez ela quer puxar a brasa para a sua sardinha). Ele responde com a cabeça que não e procura um tom mais claro de marrom e explica pacientemente para ela. Mamãe a minha pele é mais clara que a sua, você esqueceu que eu sou um pouco branco e um pouco negro? Ai…ai… é claro que ela não tinha esquecido, mas finge e diz-lhe: É verdade meu filho eu esqueci.
Em seguida ela lhe pergunta: E o papai, qual lápis você usaria para pintar a cor dele? E mais uma vez ele volta seus olhinhos atentos para o mar de lápis, procura aqui, procura ali. Levanta papel aqui e acolá e enfim ele encontra. Aqui, mamãe achei o lápis cor de pele! É esse que eu usaria para pintar o papai? É este que a minha professora disse que chama “lápis-cor-da-pele”. A mãe que sabe o quanto aquele assunto é importante, pergunta-lhe: E você acha que é este o nome correto? Ele, como qualquer outra criança, é esperto o suficiente para saber que depois de todo aquele exercício sua mãe não concorda com a definição “lápis-cor-da-pele”, responde: AH! É claro que não, tem lápis cor da sua pele, da minha e da do papai.
Isso, mesmo! Existem várias cores de pele e para cada uma usa-se uma cor de lápis diferente, por isso não existe um “lápis-cor-da-pele”, depende de quem você quer pintar. A mãe acha que por ora é o suficiente e deixa para um outro momento o prolongamento deste papo. E aí vamos terminar a tarefa?

Lucimar Dias