S. Paulo – A cinco dias de se completar três meses da madrugada em que viu o filho, o motoboy Alexandre de Menezes dos Santos, 25 anos, ser morto a pancadas por policiais militares, em frente de casa, a vendedora Maria Aparecida de Oliveira Menezes, disse ter sentimento de culpa. “Eu as vezes me sinto culpada. Penso que poderia ter feito mais, alguma coisa mais. Podia ter voado em cima deles [os policiais].

E a psicóloga já me disse: "não foi covardia sua de não ter pulado", mas eu tenho isso comigo”, conta, ao relembrar como viu o filho ser morto, enquanto gritava para que o largassem. Na entrevista que concedeu por telefone, de sua casa na Cidade Ademar, ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, dona Cida disse que, além dela, os dois irmãos mais novos de Alexandre – Pedro, de 13 anos, e Lucas, de 7 – estão sob atendimento psicológico.

Pedro, também presenciou o irmão correndo dos policiais e viu quando foi dominado e morto a chutes e pontapés, inclusive, na cabeça, o que lhe provocou traumatismo craniano.

Vazio

“Na realidade está sendo muito difícil. Nossa vida mudou muito. Há muita tristeza e muito vazio”, acrescenta. Nesta quinta-feira (05/08), dona Cida, estará na Audiência Pública, convocada pelo presidente do Conselho Especial de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE), Ivan Seixas, que discutirá a violência policial contra jovens negros e pobres, dos quais, o filho e mais outro motoboy – Eduardo Luiz Pinheiro, também morto sob tortura e também negro – são as mais recentes vítimas.

A Audiência está marcada para as 14h, no Auditório da Secretaria da Justiça, páteo do Colégio, centro de S. Paulo e deverá reunir pais e mães de vítimas assassinadas pela PM e dezenas de entidades de defesa dos direitos humanos. Os assassinos de Alexandre continuam presos, mas dona Cida disse ter ficado chocada com as condições em que vivem no Presídio Romão Gomes, policiais acusados de homicídios, ao assistir a reportagem mostrada pelo Fantástico, da Rede Globo, no último domingo 1º/Agosto. “Eu fiquei chocada. Não dormi direito por conta disso.

Tem de haver mudança. Os policiais que cometem crimes tem que passar pelo que passam os outros presos. Eu achei que como estão, estão muito bem, todos levando boa vida, trabalhando, com cama e tudo. Não quero vingança, mas quero Justiça. É só isso”, afirmou.

Sem indenização

Segundo ela, depois de quase três meses, o decreto assinado pelo governador, que determinou o pagamento da indenização, não surtiu qualquer efeito. Um grupo de trabalho discute com seu advogado – Fábio Pereira -, os valores a serem pagos pelo Estado, porém, há dúvidas sobre se o pagamento poderá ser feito a partir de um simples decreto, não estando previsto no orçamento deste ano. “Disseram que iam fazer uma proposta.

Nós estamos querendo ver o que eles vão propor, tem cálculo para tudo, expectativa de vida que meu filho teria, essas coisas que não entendo bem, mas nada foi pago de indenização", afirma. Ela, porém, não está preocupada com valores, mas com Justiça. Disse que gostaria de se ver frente à frente com o Governador Alberto Goldman. “Eu queria dizer a ele. Com a autoridade que ele tem como representante da população que visse isso. Que tivesse alguém que selecionasse mais a Polícia, que vigiasse mais eles prá que tanta coisa ruim não acontecesse”, acrescenta.

Há cerca de um mês, ela chegou a ir ao Palácio, acompanhando uma comissão de lideranças da UNEAFRO/Brasil, porém, o governador não a atendeu. Assessores foram escalados para ouvir os manifestantes e ela voltou para casa.

Dia das Mães

Dona Cida, porém, não desiste, porque não consegue esquecer o que aconteceu na madrugada do dia 08 de maio, véspera do dia das Mães. “Eu gritava: "pelo amor de Deus". Você não faz idéia de como gritei. Cheguei a me ajoelhar. Dizia para eles [policiais]: "ele mora aqui, é meu filho, a moto é dele”, conta. Era tarde.

Os socos, pontapés e esganões dos quatro policiais que o espancaram acabaram provocando a morte do rapaz, que já chegou ao Hospital sem vida. “Eram quatro, três batendo e um segurando. Eu queria saber o porque. Porque não levaram a morto. Porque tanta agressão. Eu só lembro dele dizendo: "me larga, me solta, eu não devo nada”, relembra, se esforçando para conter as lágrimas.

Ela disse que a lembrança mais forte do filho é o cumprimento que ele lhe dirigia, sempre que chegava em casa. “E aí mãe. Esse “e aí mãe” está me fazendo muita falta”, relembra. Alexandre, que trabalhava como entregador de pizza, não tinha passagens pela Polícia e morava com a mulher Flaviana e o filho Thiago, de 3 anos, com dona Cida, na casa da Cidade Ademar, em frente da qual foi morto.

Há alguns dias, saiu a pensão de R$ 750,00 do INSS, com que a viúva e o filho, Tiago, estão sobrevivendo. Segundo ela, o neto ambém terá que passar por atendimento psicológico, porque ainda cobra a presença do pai. "Está muito recente ainda. Mas as sextas feiras são muito dolorosas. Aqui na rua tem muito barulho de motoqueiro e quando ouço isso, vem tudo de novo”, conclui.

Da Redacao