O leitor, apoiador apressado e furioso, dirá: “é alienação”; “é transferência de responsabilidade”; “é omissão”; “é impatriótico”; “o eleitor, o líder tem que escolher um lado!”, condenando o voto nulo.
Mas porque escolher um lado, se os lados não se diferenciam em propostas, em programa e no discurso. A lógica de ambas as campanhas foi evitar o compromisso com projetos em um panorama de acusações morais mútuas. Sem o que, votamos todos no escuro.
Escolher o menos ruim, sem qualquer compromisso é dar um tiro no escuro. É dar cheque em branco. Cidadãos conhecedores de seus direitos (não me refiro aos partidários, os apoiadores profissionais e nem aos fanáticos, religiosamente apaixonados, estes não agem racional e coerentemente) exigem compromisso dos políticos profissionais.
É óbvio, o que menos querem os vencedores e perdedores, bem como a imprensa e os partidos querem tratar desse assunto, nesta hora. Deixam-no a critério dos analistas, sobretudo dos cientistas sociais, desdenhando de parte dos eleitores igual a metade dos votos obtidos pela candidata vitoriosa.
Muitas são as análises e interpretação a serem feitas sobre esses números. Há diferentes qualificação e valores a se atribuir para um eleitor que, de saco cheio com a mesmice, vai pra praia e não vota, do que aquele que faz questão de ir à secção eleitoral e votar branco ou nulo. Estes últimos, mandam uma mensagem mais qualificada que a abstenção.
Em tempo de votação eletrônica, eu mesmo fiquei me perguntando, qual a melhor forma de votar nulo, como reagiria a máquina? Quantos não compareceram as seções eleitorais pensando algo semelhante?
A abstenção, o voto nulo ou branco são formas legítimas de protesto que o eleitor possui para manifestar sua contrariedade. Até porque, quem votou na candidatura vitoriosa, não terá qualquer condição de interferir nos destinos e nas ações do Governo. Não havendo compromisso de programa, o futuro aos políticos pertence. Lembrem-se do Estatuto da Igualdade Racial!
Não se frustrem, nem digam que ninguém avisou quando for aberto o saco de maldades, como reforma da previdência para equilibrar as contas do governo; a reforma eleitoral, transferindo para os donos dos partidos a decisão sobre a ordem e prioridades nas listas dos candidatos que devem ser eleitos, eliminando de vez as candidaturas populares; a política de segurança publica, que prioriza a repressão e a violência, matando cada vez mais jovens negros, ao invés de proporcionar-lhes educação de qualidade, trabalho e lazer; ou quando D. Dilma declarar que a parte que cabia aos negros é o odioso Estatuto da Igualdade Racial, mais nada.
O carnaval passou, agora é cair na real. Enquanto os vitoriosos saboreiam o triunfo, os derrotados vão lamber as feridas e reorganizar seus interesses.
Mas há os vitoriosos que não sabem, mas foram derrotados. Estes, infelizmente, podem sofrer mais gravemente as conseqüências da sua vitória de Pirro. Mas isso é caracterização, é futurologia. Aguardemos.
Há um tempo para se plantar, e tempo para se colher. Entre um e outro momento, há uma série enorme de variáveis (em política, mais que na natureza), só então se verá os frutos, cuja quantidade pode ser menor, e o produto mais amargos do que se desejava.
Observem também o tamanho da conta financeira de campanha a serem pagas e das dívidas políticas com os aliados. O serviço e as políticas públicas terão que esperar. Em tempos de neo-liberalismo e globalização, atentem para o desenvolvimento dependente, quase exclusivamente do mercado interno, a base do endividamento das famílias. Imaginem se surge um surto generalizado de inadimplência? Já vimos esta história.
Oferecemos um programa para debate na sociedade, exigindo um compromisso da candidata Dilma para com os brasileiros pobres e negros. Parcela significativa dos seus apoiadores furiosos, fanáticos e apaixonados (brancos, especialmente negros), bem como a candidata e os coordenadores da campanha, negaram-se discutir o mérito, ignoraram as propostas. Por isso, anunciamos a opção pelo voto nulo.
O título original do artigo é “Mais de ¼ (26,76%), cerca de 34,1 milhões de eleitores não votaram em Dilma ou Serra”.

Reginaldo Bispo