Brasília – Embora com uma população negra (preta e parda) correspondente a 51,3% do total, segundo o IBGE, o Brasil só passou a ter um embaixador negro de carreira, a partir de dezembro passado, 122 anos e sete meses após a Abolição: trata-se do carioca Benedicto Fonseca Filho, 47 anos, que também tornou-se o diplomata mais jovem a chegar ao topo da carreira.
Benedicto, que é filho de um contínuo funcionário do Itamaraty, nasceu no Rio, em 1.963 e mudou-se para Brasília, em 1.970. “O preconceito nunca se apresenta claramente. No campo das relações humanas, você nota reação positiva ou negativa. É preciso que haja ações afirmativas. Eu não me beneficiei de nenhuma política. Na minha época, isso não havia. Mas olhando retrospectivamente, creio que me beneficiei de certas circunstâncias. Tive oportunidades que raramente os negros têm. Morei no exterior, estudei idiomas com a ajuda do Itamaraty, porque ajudavam nos estudos dos filhos dos funcionários”, afirmou a repórter Juliana Rocha, da Sucursal da Folha de S. Paulo, em Brasília.
Orgulho
Benedicto contou que a primeira vez que foi à ONU, em 2004, um colega do Caribe o chamou a um canto para dizer que pela primeira vez via um diplomata negro na delegação brasileira. “Ele enfatizou “It’s de first time ever, ever. We are proud” [É a primeira vez. Estamos orgulhosos], contou.
Segundo o embaixador, a experiência das cotas nos EUA foi uma estratégia “importante para a criação de uma classe média negra que se autossustenta”. “No Brasil, as cotas das universidades vão produzir uma diversidade salutar. Os críticos das cotas têm uma contribuição que não é irrelevante. Eles dizem que, cientificamente, não há raças, não há diferenças entre brancos e negros. É uma desmistificação para quem acha que há diferenças intrínsecas. Mas há uma falha no argumento. Do ponto de vista humano e das relações sociais, existem diferenças. Basta ver os índices sociais, condições de saúde e de moradia para ver que existe um problema. Isso não é tratado de maneira séria e aprofundada [pelos críticos]. Nosso país tem muitos passivos. A preocupação social e racial tem que andar lado a lado. Ou deixamos as coisas acontecerem, ou tentamos uma intervenção. O assunto não pode ser jogado para debaixo do tapete”, acrescentou.
“Tenho orgulho de ser negro. Faz parte da minha identidade. E de ser brasileiro. Mais do que isso, tenho orgulho de ser filho dos meus pais”, concluiu.
Segundo o professor José Jorge de Carvalho, responsável pela adotação do Programa de Cotas na Universidade de Brasília (UnB) no seu livro “Inclusão Étnica e Racial no Brasil – a questão das cotas no ensino superior”, da Attar Editorial, o Itamaraty conta com um corpo de cerca de 1.000 diplomas – menos de 10% são negros; 99% brancos.

Da Redacao