S. Paulo – No mesmo dia em que dezenas de entidades negras e de defesa dos direitos humanos se reunirão na Assembléia Legislativa (a Audiência Pública está marcada para as 14h30, veja matéria) para denunciar o que chamam de política de extermínio adotada pela Polícia Militar de S. Paulo, surge mais um caso de assassinato de um jovem negro, morto em circunstâncias suspeitas.

O ajudante de pedreiro, Cristiano da Silva, 20 anos, foi morto à tiros na madrugada do último dia 16 de maio, domingo, na altura do Km 3 da Estrada Santa Inês, próximo a Estrada para Mairiporã. Seu corpo só foi encontrado dois dias depois do desaparecimento no Necrotério Central do Hospital das Clínicas, pela mãe – a diarista Maria Cristina da Silva –, que na semana passada procurou o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana para fazer a denúncia. Cristiano, segundo a mãe, havia saído de casa no sábado (15/maio) por volta das 22h para se divertir com amigos na “Sedinha”, um bar com música funk no Jardim Imperial, Zona Norte, a duas quadras de casa.

O encontro do corpo, na segunda-feira, 17 de maio, ocorreu depois de uma angustiante peregrinação por hospitais, delegacias e Instituto Médico Legal. O enterro aconteceu com o caixão lacrado, no Cemitério de Vila Cachoeirinha, no dia 18 de maio terça-feira. Os dois policiais que atenderam a ocorrência – os PMs Roberto Juvenal dos Santos, 29 anos, e Diego Leonardo Silveira, 26, ambos da 3ª Companhia do 47 Batalhão da Polícia Militar – no Boletim de Ocorrência Nª 1815 registrado no 13º DP, contam que Cristiano dirigia um veículo roubado – um Volkswagen Fox cinza, ano 2007, de Placa ECC 8282, de Barueri – pertencente a José Luiz Alves de Oliveira.

O rapaz, de acordo com a Polícia, estaria armado com uma pistola Taurus, calibre 380, “carregada com oito cartuchos íntegros” não teria obedecido a ordem de parar e teria respondido a tiros ao descer do carro.

Justiça

A mãe, que desde a morte do filho não consegue dormir, disse que Cristiano nunca pegou numa arma, não sabia atirar, e muito menos dirigia. “Eu não me conformo. Meu filho era uma pessoa que não fazia nada de errado. Durante o dia eu consigo passar, mas o pior é a noite. Estou tomando Diazepan. Meu filho foi executado. Eu espero Justiça. Que outras mães não passem por isso”, disse à Afropress sem conseguir mais chorar.

A família mora na Rua Massao Watanabe, na Vila Nova Cachoeirinha. Ela é viúva e, além de Cristiano, tem uma filha – Cristiane, gêmea do rapaz morto – e cria, Raí, 07 anos, uma criança que adotou ainda pequena e que tem paralisia cerebral. Vive do salário que ganha como diarista e tinha a ajuda de Cristiano que trabalhava como ajudante de pedreiro. A última lembrança que ela guarda de Cristiano foi o diálogo na madrugada do próprio sábado, dia do desaparecimento: “Vai voltar prá rua, Cristiano?”, perguntou. “Vou mãe, mas daqui a pouco eu já volto”, respondeu o rapaz, que costumava freqüentar a “sedinha”, como é conhecido no Jardim Imperial, Zona Norte, um bar que toca música funk às sextas e sábados, na Rua Serrano Fluminense.

Segundo dona Cristina, o diálogo aconteceu por volta das 02h, quando Cristiano, que havia saído às 22h para o local que fica a duas quadras da casa onde moram para pegar um chinelo. Ela disse ter ficar preocupada porque ele teria saído sem documentos.

Contradições

Oliveira, o dono do carro, que supostamente seria dirigido por Cristiano, segundo a versão da Polícia, não o reconheceu como autor do roubo. A história contada pelos policiais tem ainda contradições que só a investigação do caso pode esclarecer. Por exemplo: no BO os PMS, que conduziam a viatura prefixo M-47316, afirmam que o confronto teria ocorrido às 04h10 da madrugada e que teriam chegado ao Hospital da Vila Nova Cachoeirinha, às 04h16. Segundo pessoas que conhecem a região, e que preferem não se identificar "a distância que separa os dois locais não poderia ser feita em seis minutos nem em avião a jato”.

Um outro dado suspeito é que – depois de percorrer hospitais delegacias e necrotérios – a mãe de Cristiano não pode ver o filho morto, antes de ser preparado porque, por recomendação que ela não sabe informar de quem teria partido, o caixão teria deveria estar lacrado. “Só me disseram que tinha sido resistência e que quando está escrito isso é porque o caixão tem de ser lacrado”, contou. Cristiano teria levado quatro tiros – um na cabeça e três no peito, porém, segundo relato dos policiais no BO constam apenas dois – um no peito, outro no abdômen.

Providências

Dona Cristina disse que não vai sossegar enquanto não houver Justiça para os assassinos do filho. Ela procurou o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – acompanhada de uma vizinha, dona Esther da Silva, para pedir ajuda. Foi recebida pelo presidente, jornalista Ivan Seixas, que defende que o caso tem de ser investigado porque as circunstâncias da morte do rapaz “são muito suspeitas”.

Ele mandou ofícios ao delegado titular do 13º DP, José Antonio Ayres de Brito, ao diretor geral do Hospital de Vila Nova Cachoeirinha, Antonio Jorge Martins e ao diretor técnico do Departamento do Instituto Médico Legal do Estado, Roberto Souza de Camargo, pedindo informações.

Ao diretor do IML, ele requisitou , cópias das certidões, atestados, informações, documentos, expedientes, fotos inclusive, referentes ao registro do óbito, bem como o exame cadavérico e a necropsia de Cristiano. Por Lei as informações requisitadas devem ser enviadas em, no máximo, 30 dias.

Da Redacao