Foi assim: um dezembro esperado, muito desejado, um grande frio em Londres, eu a me preparar para embarcar para Angola e viver aquela realidade pela primeira vez. Angola não a vi apenas com os olhos, a vi também com o coração. E esta visão está a pulsar em mim.

Do que vi e vivi em território angolano, o mais intenso, especial e importante, foram os encontros. Os encontros que eu tive com pessoas, as visões que eu tive das pessoas, o olhar, o falar, os semblantes, os trejeitos.

Angola há muito povoava o meu imaginário. Há muito quis conhecê-la, vê-la, percebê-la. É necessário mesmo estar, pois ao literalmente conjugar este verbo, se sente! E nada melhor do que sentir para dizer o que os olhos e o coração testemunharam. A gente sente com o olhar e o coração. E a gente vê com o coração e com o olhar.

Assim que saí do aeroporto em Luanda, a capital angolana, tirei meus sapatos e descalça, pisei aquele solo. Toquei o chão de Angola com os pés descalços, como há muitos anos desejava fazer. Quantos anos esperei por este momento, quantos anos esperei para isto viver. Angola emocionou-me muito. Fiquei atordoada, desnorteada, desconcertada. Fui, aos poucos, digerindo minhas percepções e pensamentos sobre aquilo que eu estava a conhecer. Tamanho o meu sentir…

Esta foi minha primeira experiência em território africano, e recentemente eu estive a ponderar se eu amaria ou detestaria estar lá, se eu desfrutaria aquilo ou estaria a contar os dias para voltar pra casa.

Ter estado em Angola de corpo e alma, muito me sensibilizou. Uma emoção que sinceramente não conseguia explicar.

Após minha volta pra casa, fui analisando calmamente meus sentimentos e sensações e cheguei a conclusão de que naquele país, me senti tocada pelo povo. Com sua presença, falar, olhar… Um toque acanhado, sutil, porém intenso e verdadeiro.

Tem algo em Angola que me atrai, a certeza de que é um país com grande potencial de crescimento. Esta é a leitura que faço do quão fértil é aquele país, aquela nação.

Vi muita carência e olhares voltados pro nada, vi a luta pela sobrevivência dos vendedores ambulantes; onde tudo se comercializa, de água a panelas nas ruas da cidade; vi crianças buscando coisas, talvez alimentos no lixo; outras mergulhadas num “mar” de cólera, eu diria.  Numa ocasião também na cidade de Luanda, avistei uma mulher que carregava uma criança nas costas e olhava… Seu olhar era firme, penetrante e distante. Ela olhava fixamente para o nada. E isto me marcou.

Ali vi vicissitudes, mas não vi revolta, olhar de desengano, mágoa ou rancor. Vi pelo contrário, um povo firme, forte e decidido pela vida. Na busca e luta diária, na força que vem do interior de cada um deles. Não vi angolano esmorecido, e sim pelo contrário, enaltecidos. Um bravo povo! Esta é a Angola que brilha: o seu povo! Uma Angola que brilha em seu povo.

Por outro lado também, fiz muitos registros visuais das belezas naturais que ali encontrei. Numa Angola que tendo investimento no setor hoteleiro e de turismo, será provavelmente um destino muito visitado.

Angola se apresentou a mim, não exatamente quando eu esperava, na realidade, quando eu menos esperava. E também, sem esperar, me surpreendi por sentir que aquela realidade, aquela gente, aquilo tudo e eu, precisava interagir. Pois finalmente havíamos nos encontrado. Quisera poder descobrir os desafios de um recomeço, nesta nova fase do meu caminhar. Um caminhar por terras africanas, o continente berço da humanidade!

Angola tem uma força subliminar. E esta força está nas entrelinhas, nos olhares, nos semblantes, na beleza natural que aquela terra tem. Uma força que atrai, tipo imã, e isto me remeteu imediatamente a estas palavras cantadas, onde o cantor e compositor Martinho da Vila, lindamente descreve a emoção de se estar em Angola e que nunca sairam de mim, desde que as ouvi pela primeira vez há anos atrás, do disco Recriando a criação:

Semba dos ancestrais

Se teu corpo se arrepiar
Se sentires também o sangue ferver
Se a cabeça viajar
E mesmo assim estiveres num grande astral
Se ao pisar o solo teu coração disparar
Se entrares em transe em ser da religião
Se comeres fungi, quisaca e mufete de cara-pau
Se Luanda te encher de emoção

Se o povo te impressionar demais
É porque são de lá os teus ancestrais

Pode crer no axé dos teus ancestrais

Apesar dos grandes problemas existentes naquela sociedade, esta força como imã a que me referi, nos convida a ficar. Ali e agora! Porque nós é que fazemos acontecer. Cada um no seu espaço, ajudando a criar condições e crescimento por uma sociedade melhor. Em um país que segue em reconstrução nestes 11 anos de paz, após os 27 anos que esteve em guerra.

E eu, sem premeditar, sem mesmo ao menos ter me lembrado do “Semba dos ancestrais” no exato momento que ali estive, senti aquilo que a canção descreve. Não lembrei–me exatamente desta canção na hora, por que esta já está em mim.  A canção e a verdade contida nela. Pois creio ser de lá, parte da minha ancestralidade. Desta Angola que pulsa!

 

Claudia Oliveira Nguvulo