Osasco/SP – Cerca de 500 pessoas, inclusive de cidades próximas como Barueri e Guarulhos, participaram na manhã deste sábado (05/09) de mais uma manifestação para protestar contra a violência racista sofrida pelo funcionário da USP, Januário Alves de Santana (foto), espancado por seguranças da Rede Carrefour, suspeito de roubar o próprio carro – um EcoSport.
A manifestação, que começou no Largo da Estação de Osasco, teve a participação da irmã de Santana, Noemia, que fez um relato emocionado do que aconteceu no estacionamento do supermercado, no dia 07 de agosto, data em que o irmão foi torturado por seguranças. Ela chegou a provocar lágrimas dos presentes. “Onde já se viu que uma pessoa negra não possa ter um carro. Meu irmão vem pagando direitinho as prestações”, afirmou.
Os manifestantes primeiro se reuniram no Largo da Estação, a partir das 9h, com faixas e cartazes denunciando a violência. “Não aceitamos a covardia praticada contra Januário”, dizia uma das faixas.
De lá, caminharam por mais de dois quilômetros, com um carro de som à frente, até a loja na Av. dos Autonomistas, onde chegaram a ser recebidos por meio de uma Comissão pela superintendente de Comunicação, Regina Pitóscia. A deputada federal, Janete Pietá (PT-SP), de Guarulhos, participou da Comissão e prometeu acompanhar, de Brasília, até a total apuração do caso e punição dos responsáveis. O protesto também foi acompanhado pelo deputado estadual Marcos Martins, do PT de Osasco.
A Superintendente de Comunicação do Carrefour se disse disposta a ouvir sugestões do Movimento Negro para uma mudança da política de recursos humanos e recrutamento que valorize a diversidade.
Comunicado
Enquanto recebia os manifestantes, a direção do Carrefour mandou distribuir um Comunicado aos Clientes em que enfatiza o compromisso assumido no seu Código de Ética de valorizar a Diversidade. “Não toleramos nenhum tipo de discriminação, racismo, desrespeito ou violência. Ao contrário: valorizamos a diversidade de raça, sexo e religião”, afirma o Comunicado.
Segundo o jornalista Gerson Pedro, do Fórum Metropolitano Oeste da Igualdade Racial, que reúne 19 cidades da Região Metropolitana, a manifestação demonstrou que a comunidade negra não tolera mais esse tipo de violência e de abuso.
“Lamentavelmente estamos nos unindo em função de uma dor, de uma tristeza, mas isso está fazendo com que nos reunamos para buscar o nosso espaço. Não vamos mais tolerar esse tipo de agressão, esse tipo de violência. Estamos atentos, estamos de fato solidários com o Januário e com a família dele. Fatos desse tipo jamais ocorram”, afirmou.
Caminhada
Durante o percurso, a manifestação – acompanhada discretamente pela Polícia Militar – foi engrossada por sindicalistas e recebeu a adesão de populares no Calçadão de Osasco. Essa é a segunda manifestação de protesto no Carrefour, em menos de 15 dias. A primeira aconteceu no dia 22 do mês passado e foi promovida pela Frente 3 de Fevereiro.
A professora Edna Roland, Relatora da III Conferência Mundial Contra o Racismo, realizada pela ONU em Durban, que esteve presente ao protesto, disse que o que aconteceu foi “um incidente gravíssimo que deve ser motivo de discussão com essa empresa com Programas de Ação Afirmativas, sensibilização interna e aumento da participação dos negros nos quadros de funcionários”.
“Essa é uma crise que oferece para a empresa a oportunidade de mudança”, afirmou, acrescentando que, do contrário, “outros métodos de trabalho político devem ser usados pela militância negra”.
Na próxima sexta-feira (11/09), haverá nova manifestação desta vez em frente à sede central do Carrefour, em S. Paulo, organizada por todas as entidades do Movimento Negro e anti-racista.

Da Redacao