Rio Claro/SP – Sob tempo chuvoso e frio, cerca de 300 pessoas, entre parlamentares, militantes de direitos humanos e ativistas do movimento negro ocuparam o Jardim Público, centro de Rio Claro, em protesto ao ataque sofrido pelo guardador de carros, Benedito de Oliveira Santana, 71 anos, vítima de neonazistas na semana passada.

Ele continua internado na UTI da Santa Casa, com traumatismo craniano, mas seu estado apresenta melhoras, e os médicos preveem que, se continuar evoluindo positivamente, nos próximos dias, poderá deixar a Unidade de Terapia Intensiva. Os dois acusados – Hélcio Alves Carvalho e Axel Leonardo Ramos, respectivamente de 20 e 21 anos, foram presos, e estão na Cadeia de Itirapina, cidade próxima a Rio Claro.

Entre os presentes ao ato, familiares do idoso, o deputado federal Vicente Cândido, do PT, e a vice-prefeita, prefeita em exercício, Olga Salomão, do mesmo partido. Ativistas de S. Carlos, Santa Gertrudes, Campinas, Ribeirão Preto, Piracicaba, além da assessora de integração racial de Rio Claro, Kizie de Paula Aguiar Silva, e da chefe da coordenação de Políticas para as Populações Negra e Indígena do Estado, Elisa Lucas Rodrigues, portadora de uma carta da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania, Eloísa Arruda.

Na carta, entregue aos familiares da vítima, a Secretária de Justiça repudia a agressão e manifsta solidariedade. O ato começou às 10h e terminou as 13h, com uma passeata pelas principais ruas do centro de Rio Claro, cidade que fica a 197 km de S. Paulo, na região de Piracicaba.

Antes da manifestação, num culto ecumênico com sacerdotes de religiões de matriz africana, pastores evangélicos e um padre, foi destacada a a importância da convivência de paz entres as pessoas e respeito as diferenças. Os manifestantes decidiram acompanhar os desdobramentos do caso no plano jurídico e dar apoio à família, que ainda está abalada com a violência contra o idoso.

Reenquadramento

A presidente da OAB local, Rosa Luzia Cattuzzo, defendeu que o caso seja tratado pela Polícia não como lesão corporal culposa, mas como tentativa de homicídio. Cattuzzo expressou a indignação da sociedade de Rio Claro, em nome da OAB e relatou que desde que tomou conhecimento do fato, a entidade se colocou a disposição. “É preciso não deixar que este fato caia no esquecimento. Os agressores precisam ser julgados e condenados”, afirmou.

Segundo Silvana Veríssimo, da entidade Nzinga Mbandi, o ato foi importante para demonstrar a união de todos os setores antirracistas contra as agressões. Francisco Quintino, representante da Força Sindical no Conselho Nacional de Promoção da igualdade Racial (CNPIR) defendeu punição rigorosa aos agressores. Divanilde de Paula, presidente do Conselho da Comunidade Negra de Rio Claro, disse que o ataque serviu para que a comunidade se mantenha atenta e unida.

Até o momento, embora tenha sido formalmente informada pela Assessoria de Integração Racial da Prefeitura de Rio Claro, a ministra Luiza Bairros, da SEPPIR, se mantém em silêncio e não se manifestou. 

Polícia Federal

A prisão de Gregor Smal, na cidade de Quatro Barras, no Paraná, com um arsenal de armas do exército nazista usadas na II Guerra Mundial, pode ser o elo que faltava para a entrada da Polícia Federal na investigação do atentado contra o guardador de carros, em Rio Claro, por parte da gangue neonazista.

Na última quinta-feira, o ministro da Justiça José Eduardo Cardoso, que esteve em S. Paulo para uma audiência pública na Assembléia, sobre Segurança Pública, tomou conhecimento da agressão ao guardador de carros pelo advogado Dojival Vieira. Cardoso pediu ao advogado e a Eliseu Lopes, da assessoria da deputada Leci Brandão e a Celso Fontana, do SOS Racismo da ALESP, que elaborem uma representação que será submetida a análise da assessoria, sobre as ligações de células neonazistas em atuação no Paraná.

Segundo o ministro se ficar provado que há ligações entre o ataque ocorrido em S. Paulo e a prisão de neonazistas no Paraná, a Polícia Federal, poderá entrar no caso.

De acordo com os advogados, além de pedir o reenquadramento do crime, que está sendo tratado como lesão corporal culposa, conforme já fez a presidente da OAB de Rio claro, será solicitado as autoridades policiais que investiguem possíveis ligações dos presos agressores de Rio Claro com o técnico de informática preso em Quatro Barras.

Segundo eles, os três podem fazer parte da mesma célula neonazista, que pertence o ex-estudante da Universidade de Brasília, Marcelo Valle Silveira Mello, que está preso desde março em Curitiba, depois de ser apanhado na Operação Intolerância junto com um comparsa planejando um atentado ao Centro de Ciências Socias na UnB, e foi condenado pela Justiça Federal a seis anos, sete meses e 192 dias multa.

Da Redacao