Rio de Janeiro – A publicitária e produtora cultural Adriana Baptista lançou no Rio, um movimento nacional de repúdio ao editorial publicado pelo jornal o Globo, edição de 22 de agosto, que reproduz estereótipos racistas para atacar as ações afirmativas, em especial, a defesa da política de cotas feita pelo Governo Federal. O movimento foi lançado por meio da comunidade 4P Poder para o Povo Preto e é resultado de uma movimentação deste coletivo de militantes que se encontram no site de relacionamentos Orkut. A repercussão do Manifesto, segundo Adriana, já chegou inclusive a outros países. “Tenho recebido e-mails e mensagens de pessoas solidárias até mesmo fora do Brasil”, afirmou.
No editorial, “O Globo” diz que a militância negra de enxerga “a raiz das desigualdades sociais brasileiras pelas lentes do racismo” e acusa o movimento negro pela política de cotas nas Universidades e inclusão do quesito cor raça e etnia no Censo Escolar deste ano, para fazer a defesa da meritocracia. Termina apontando o “dano que é despertar desde cedo nas salas de aula uma questão problemática, sem qualquer relação com as raízes multiculturais e miscigenadas da sociedade brasileira”.
“Em função desse lamaçal todo que vem de Brasília, colocaram tudo no mesmo saco. Quando li quase tive um troço. Esse editorial despertou a leoa que existe em mim. Agente rala toda uma vida, toda uma história, e o Globo vem e trata tudo com o maior deboche, com o maior desdém”, disse Adriana, que não é ligada a nenhuma entidade negra.
Ela conta que a primeira reação que teve foi defender o filho de seis anos. “As nossas conquistas nós temos de garantir. Lutamos a vida inteira por elas”, acrescentou. Daí surgiu a idéia de lançar o manifesto que pretende lotar a caixa de correio das Organizações Globo em protesto contra o editorial. As pessoas que quiserem engrossar o protesto podem fazer contato com Adriana pelo email: adriana.bapttista@gmail.com, ou escrever diretamente para as Organizações Globo, juntando após os comentários pessoais, o texto do Manifesto. “É importante que eles saibam e sintam que é, sim, uma reação organizada da população negra contra um editorial de cunho e conteúdo abertamente racista”, concluiu.
Veja a íntegra do Manifesto e do Editorial publicado pelo Jornal “O Globo”, de 22 de agosto.
“A comunidade afro-brasileira, vem por meio desta, repudiar veementemente o Editorial do Jornal O Globo, do dia 22 de agosto de 2005, que tachou a militância negra de “pelega” e “antidemocrática” uma vez que ela supostamente “coage violentamente agentes governamentais” a promoverem políticas públicas que beneficiam injustamente apenas esta parcela da sociedade. O argumento usado para defender tamanha sandice, como sempre, mescla uma porção enorme de desconhecimento com preconceito e, principalmente, insensibilidade.
Como direito de resposta, esclarecemos:
• O conjunto da população negra no Brasil foi reduzido ao cativeiro até 1888 e no pós-abolição não tiveram reconhecido seus direitos de cidadãos brasileiros plenos. Para superar esta realidade de exclusão historicamente construída, promovendo o desenvolvimento social da população negra, revertendo as estatísticas é preciso que as agendas dos governos que se autoproclamam democráticos dediquem a questão um tratamento específico.
• O direito às cotas é uma bandeira de luta histórica do movimento negro. Direito legitimado na agenda política dos governos democráticos. As cotas surgiram para sanar os problemas há muito apontados em inúmeros estudos sobre a questão das relações étnico-raciais no Brasil: a invisibilidade social econômica a que estão submetidos inúmeros cidadãos negros brasileiros é em parte decorrência de sua falta de acesso a uma qualificação de excelência.
• Não é desejo do movimento Negro que as cotas se transformem em política educacional permanente, sendo apenas uma política emergencial e reparadora. As Cotas não são, nem nunca foram entendidas pelo movimento negro como panacéia para os problemas educacionais brasileiros, cuja solução definitiva, se insere num conjunto de ações governamentais que incluem: reformas curriculares; uma política de valorização dos professores; investimentos em recursos materiais e humanos na Educação Básica brasileira para enfrentar um processo de sucateamento do ensino público, que ocorre há décadas. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), os investimentos do Ministério da Educação nos últimos oitos anos diminuíram 57,8%, passando de R$ 1,874 bilhão gasto em 1995 para R$ 790,703 milhões, em 2004 . Neste criminoso e recorrente desprezo pelo desenvolvimento da educação pública brasileira, os mais afetados são quase sempre os negros que, estatisticamente, compõem as camadas mais pobres da sociedade e que contam, apenas, com o ensino público.
• O resultado desse quadro também pode ser expresso estatisticamente: O Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, produzido pelo IPEA, pela Fundação João Pinheiro e pelo PNUD, demonstra que, em 2000, embora os negros constituíssem 47% da população na faixa de 18 a 24 anos de idade, apenas 16% dos estudantes (14% pardos e 2% pretos) estavam matriculados no ensino superior. E pior: os dados dos censos revelam que, entre 1991 e 2000, a participação percentual dos negros na população universitária diminuiu em todos os estados, exceto em São Paulo, onde ficou inalterada, e Mato Grosso do Sul, onde cresceu menos de 1%.•.
• Além da exclusão nos níveis mais graduados do ensino, os currículos escolares secularmente eurocêntricos não contemplam a história e memória dos africanos e dos afro-brasileiros. A lei 10639/03 e suas Diretrizes, aprovadas em 2004, foram um passo importante para a reconstrução da memória e história do Brasil sob bases não racistas. Mas é preciso desenvolver políticas públicas para a formação dos professores, criar cursos nos currículos acadêmicos e estimular a produção editorial sobre as temáticas para que a 10639/03 e suas Diretrizes torne-se realidade em nossas escolas.
• Quanto ao quesito raça/cor no Censo Escolar é uma medida que objetiva medir o nível de desigualdade racial na educação para poder combatê-la. Ignorar ou repudiar o quesito cor/raça, em nossa realidade de exclusão é ser antidemocrático, pois é impedir que o Estado faça a diferença no sentido de dar iguais condições a todos os cidadãos brasileiros. Sem esses dados o INEP não pode discutir políticas educacionais que levem em conta a brutal ceifa de estudantes negros no Ensino Básico. Nos Estados Unidos, desde a década de 1960, começaram a ser desenhadas políticas públicas e corporativas para reduzir a desigualdade: universidades usaram critérios raciais na seleção; nas compras governamentais é avaliado o critério de diversidade do quadro de funcionários das empresas fornecedoras; nas seleções para cargos públicos são adotados até hoje esforços para a contratação de minorias; as empresas chegam a ter diretores de diversidade, cuja função é remover barreiras à contratação e à promoção de mulheres e negros. Lá os negros estiveram submetidos à segregação, lá eles são apenas 12,9% da população e, mesmo assim, são visíveis na estrutura de poder.
• No Brasil a população preta e parda soma 45% e diferente dos EUA, a segregação racial dos negros não foi estabelecida como política do Estado, mas contraditoriamente somos quase invisíveis nos quadros da elite e do poder público. Não é possível combater à desigualdade social brasileira, fechando os olhos para a questão das relações étnico-raciais e para o racismo à brasileira que combate a realidade da cor da exclusão com o mito da democracia racial, apoiando-se em nossa intensa miscigenação. Sem ação afirmativa, que o Ipea define como “medidas destinadas a preparar, estimular e promover a participação dos negros na educação e no mercado de trabalho”, não construiremos uma verdadeira sociedade democrática.
• Por fim, a nós impressiona sobremaneira, que uma empresa de comunicação que nos últimos 40 anos submeteu-se total e irrestritamente às vontades de todos os governos brasileiros, sendo eles democráticos ou não, e ai incluindo-se o atual governo petista, possa acusar alguém de “peleguismo” ou mesmo de “Coerção do poder público”. A Globo e suas empresas sempre tiveram seus “intestinos” intimamente ligados aos corredores do poder em Brasília com o intuito de conseguir vantagens competitivas. (O caso Nec/ACM ainda esta vivo em nossas memórias) e, portanto, não têm o direito de autoproclamar-se baluarte da moral do Brasil e muito menos em relação aos movimentos sociais, que realmente têm compromissos com a luta pela superação dos problemas brasileiros atuando de forma cidadã e dentro da lei, muito diferente, por conseguinte, da postura das empresas da família “Marinho” no decorrer de nossa triste historia republicana recente.
SEM JUSTIFICATIVA (EDITORIAL DE O GLOBO)
Com a chegada do PT ao Palácio do Planalto, uma série de movimentos organizados ditos sociais aproximou-se do poder. Foi por essa via que se deu o aparelhamento de certas áreas do Estado, que uma organização como o MST saltou a cerca e tomou conta do Incra, a UNE provou do dinheiro público e assim por diante.
Um dos mais ativos desses grupos de pressão é o de certos segmentos da militância negra, que enxergam a raiz das desigualdades sociais brasileiras pelas lentes do racismo. Atuantes, esses grupos já haviam conseguido instituir, por força de lei, cotas raciais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Com o desembarque de Lula no Planalto, as cotas entraram nos planos do Ministério da Educação e firmaram-se como tema de aceso debate, ainda
inconcluso.
Demonstração do poder desse movimento foi o fato de Tarso Genro, na primeira entrevista na condição de novo ministro da Educação, no lugar de Cristovam Buarque, ter criticado as cotas e, 24 horas depois, dizer-se convencido da necessidade delas. Por ser uma discussão compreensivelmente muito emocional, nem sempre é entendido o argumento de que a melhor ação afirmativa é aprimorar o ensino básico para todos, independentemente da cor da pele dos estudantes.
E que colocar em segundo plano o princípio do mérito é condenar o Brasil a ser um país de segunda classe num mundo cada vez mais competitivo e globalizado. O viés racista na política educacional conseguiu incluir num censo estudantil um item referente à cor da pele das crianças em início de vida escolar. Com razão, muitos pais reclamaram. Por que e para que incutir o equivocado conceito de raça nas crianças?
Pode haver vários argumentos para se tentar justificar esse tipo de levantamento, mas nenhum compensará o dano que é despertar desde cedo nas salas de aula uma questão problemática, sem qualquer relação com as raízes multiculturais e miscigenadas da sociedade brasileira.

Da Redacao