Não prosperarão as tentativas de divisão fomentadas por intrigas de bastidores. A Parada e a IV Marcha da Consciência Negra não são excludentes nem antagônicas. São a mesma coisa: expressões de um mesmo Movimento Negro que é, por natureza, plural, diverso, onde não há espaço para o pensamento único, mas que busca a unidade na ação, necessária e indispensável para o avanço da luta anti-racista, por igualdade racial e por democracia no Brasil.
O conceito que está por trás da Parada Negra é de uma manifestação mais ampla, aglutinadora, capaz de abranger setores que tradicionalmente se mantém distantes do Movimento e de qualquer mobilização. A Parada inclui. Não separa, não segrega, recusa o gueto.
O conceito de Marcha reúne a militância negra de partidos e ou organizações. Está muito associado a militares e ou militantes. A militância negra teve, tem e terá um papel fundamental para o avanço da luta, porém, precisa se abrir para o diálogo com a sociedade para se fortalecer. Precisa abandonar o gueto, sem perder sua identidade. Antes, ao contrário: para afirmá-la orgulhosamente negra.
Nós, da Parada Negra, queremos mais. Queremos trazer para a luta anti-racista as multidões que se mantém à margem; a periferia que se mantém distante do centro – de qualquer centro; a juventude negra que está sendo alvo de um genocídio silencioso, cotidiano. Queremos trazer os negros evangélicos, que já são 15 milhões no Brasil – 7 milhões, em São Paulo; eles também alvo do racismo institucional que ainda é padrão em muitas Igrejas; queremos que caminhem lado a lado com os católicos negros – padres, freis e frades como Frei Leandro Antonio da Silva, da Rede Educafro, coordenador do Fórum SP da Igualdade Racial; com as religiões de matriz africana, com os espíritas, com os agnósticos, os sem-religião.
Queremos os negros com partido e os sem-partido, que são, na verdade, a grande maioria; os negros de direita e os de esquerda, os empresários negros; a militância sindical negra; as mulheres negras – base e alicerce da nossa resistência pelos séculos afora; os estudantes negros, as celebridades negras; e por fim, queremos também a presença dos nossos aliados anti-racistas – qualquer que seja a sua cor, sua crença política e ou religiosa – para a construção de uma grande corrente de forças, necessária para liquidar com o racismo no Brasil.
Trata-se de visões e de estratégias distintas, porém, não antagônicas. Com respeito às diferenças, requisito fundamental para qualquer diálogo, avançamos. Reunidos em torno do nosso próprio umbigo, minguamos, nos fragilizamos e nos tornamos presas fáceis da cultura e das práticas discriminatórias que nos têm como alvo em nosso cotidiano.
Naturais as divergências. O Movimento Negro é o Movimento social mais antigo do Brasil. Existe desde que aqui pisaram o primeiro homem e a primeira mulher negra escravizados. É plural desde sempre e assim continuará. E por que deveria ser diferente, se somos também pessoas, seres humanos, sujeitos às contradições naturais numa sociedade de classes, injustiça, desigual contraditória, e ainda por cima, racista?
É curioso e revelador que determinados segmentos não admitam que, entre nós, haja divergências, posições distintas e até mesmo antagônicas, interesses diversos, quando acham isso natural – e até expressão de democracia no “mundo branco”. Também esta é uma forma sutil do racismo que nos desumaniza. Lutamos pelo direito à igualdade, mas não abrimos mão de outro direito igualmente fundamental: o direito à diferença.
No caso concreto do dia 20 de Novembro, não são as nossas diferenças que devemos evidenciar, mas nossa união em torno das bandeiras que nos unem. Não vamos, sob o pretexto de uma polêmica miúda, opor Parada à Marcha. São exatamente a mesma coisa: expressões da pluralidade de um mesmo movimento por justiça e por igualdade no Brasil.
São Paulo, a maior cidade negra do mundo fora da África, com cerca de 3,5 milhões de afro-descendentes, segundo a Fundação Seade, no dia 20 de Novembro, verá a maior manifestação anti-racista e por igualdade que o Brasil já viu. E do coração do setor mais dinâmico e pujante da economia do país – a Avenida Paulista – uniremos nossas vozes a de todos para dizer Basta de Racismo, Basta de Discriminação, Basta de Humilhações.
Queremos a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, já! Queremos Ações Afirmativas e cotas com a aprovação do PL 73/99 e queremos a aprovação da PEC 02/06, que cria o Fundo da Promoção da Igualdade Racial, para que os Governos (municipais, estaduais e o Federal) deixem o discurso das boas intenções (e sabemos que a calçada do inferno está cheia de bem-intencionados) e passem, de fato, a disponibilizar recursos dos orçamentos para as políticas públicas para a população negra, que representa (só) 49,5% da população brasileira. Queremos Igualdade e Cidadania. Lutamos por Justiça!
Queremos um Brasil sem racismo, com oportunidades iguais para todos (as)!
Todos (as) à Paulista!