Porto Alegre – O sociólogo e ativista Luiz Mendes, coordenador adjunto da Comissão Estadual de Combate a Discriminação Racial da CUT/RS e membro do Comitê Gaúcho que prepara a Marcha Zumbi + 10 , negou que a articulação das entidades que defendem a realização da Marcha no dia 22 de novembro, seja governista ou ligada a partidos da base do Governo Lula e disse que esses argumentos “são uma falácia”.
“Gostaria que as pessoas que nos acusam de “governistas” admitissem não serem ligadas ao PT, inclusive com atuação orgânica no partido”, afirmou, Ele considera inaceitável “a forma com que algumas pessoas acusam quem defende o 22/11 de “governista”, de não querer a marcha, de que queremos fazer defesa do Lula, de não estarmos dispostos a discutir e a exigir uma limpeza neste governo”, afirmou.
Segundo Mendes, a Marcha deve exigir do Governo “que deixe de ser hipócrita e banque o Estatuto da Igualdade Racial com Fundo de Reparação”. “Vamos, sim, exigir que a SEPIR deixe de ser um chapéu ambulante e tenha recursos para, de fato, implantar igualdade racial neste país. Vamos sim exigir que o Estado brasileiro, hoje representado pelo Presidente Lula, implemente as políticas prometidas ao povo negro brasileiro”, concluiu.
As datas do protesto – 16 ou 22 de novembro – dividem o movimento negro do país. A articulação que defende o 16/11 liderada por Edson Cardoso, do Jornal Irohin, acusa o outro lado de pretender esvaziar o protesto por ter ligações com o Governo Lula e com partidos, sindicatos e movimentos próximos à base governista.
Veja, na íntegra, a entrevista concedida pelo ativista gaúcho à Afropress
Afropress – Como está à articulação da marcha Zumbi+10 no RS? A maioria das entidades, organizações e lideranças estão articuladas em torno do 22 como data da Marcha?
Luiz Mendes – Nossa articulação aqui pelo sul, iniciou num trabalho árduo do companheiro Antônio, da UNEGRO. Após aquela reunião do Edson Cardoso em julho do ano passado, várias pessoas começaram a falar sobre a Marcha, mas efetivamente, para que ela acontecesse de verdade, temos que dizer, foi uma luta incansável do Antônio que, inclusive conseguiu trazer o Edson e o Paim em Outubro de 2004, onde lotamos o auditório de um sindicato com quase 200 pessoas, aí a maioria das entidades e lideranças passaram, de fato, a discutir sobre a marcha.
Foram chamadas várias reuniões desde aquela em outubro, mas, infelizmente, por questões, ou políticas ou individualistas, várias lideranças do Estado se furtavam em participar das Plenárias que chamávamos. A coisa só engrenou por aqui após o FSM, quando o Maria Mulher, da companheira Maria Conceição, organizou uma mesa com o Cardoso e, no mesmo dia à tarde, o MN brasileiro organizou outra mesa, mais representativa, com a participação de mais de 20 entidades nacionais, inclusive partidos políticos, e aí se tirou uma ação conjunta pela concretização da marcha.
É necessário dizer, que, foi nesta mesa da manhã, que o Edson Cardoso falou, pela primeira vez, no INDICATIVO do dia 16/11 e que o MN brasileiro iria decidir a melhor data.
Aqui no Estado somente Maria Mulher e ACMUN estão com o 16/11, todas as demais entidades, lideranças, sindicatos, quilombolas, religiosos, centrais sindicais e partidos – inclusive os de direita – estão com o 22/11.
Afropress – O que, na sua opinião, justifica as duas marchas? Diferenças de estilo e de métodos entre lideranças ou propostas, posições políticas que são, de fato, inconciliáveis?
Luiz Mendes – Olha tenho visto, nesta minha caminhada, que não tem anos a fio como de outros militantes mais antigos e mais atuantes que eu, diferenças quase que exclusivamente pessoais. Se fulano está contigo, independente da proposta, eu não estou.
Abomino tal procedimento de ditas “lideranças”. Pessoalmente, creio que é vaidade de alguns que, se utilizando de nossas questões anti-raciais estão procurando se estabelecer no cenário nacional pensando em, quem sabe, 2006 ou 2008. Se fizermos uma avaliação com a razão, veremos que as propostas são as mesmas, muda uma virgula, um ponto e tudo será da mesma forma.
Duas marchas por pura vaidade de alguns. Pura vaidade.
Afropress – Como responde a afirmação dos setores do Movimento Negro que defendem a Marcha no dia 16/11, de que os que pretendem marchar dia 22/11 (UNEGRO, CONEN, sindicatos da CUT, MNU), são os setores alinhados com a base governista e ao PT e que querem transformar a Marcha em ato pró-governo?
Luiz Mendes – Veja só, gostaria antes de mais nada, que tais pessoas que nos acusam de “governistas” admitissem não serem ligadas ao PT. Inclusive com atuação orgânica no partido. Na melhor das hipóteses, ligadas a alguma “tendência” mais à esquerda do governo atual. A forma com que algumas pessoas acusam quem defende o 22/11 de “governista”, de não querer a marcha, de que queremos fazer defesa do Lula, de não estarmos dispostos a discutir e a exigir uma limpeza neste governo, que nós elegemos por uma razão e aí está nesta podridão toda.
Nos atacam dizendo que vamos Marchar pela SEPPIR. Eu, pessoalmente, tenho feito críticas contundentes quanto ao papel da SEPPIR. Quanto à forma que esta secretaria tem funcionado pedindo migalhas nas portas dos outros ministérios. Então, mesmo que companheiros que estão pelo 22/11 sejam, inclusive, defensores das políticas da SEPPIR, isso não quer dizer que não vamos construir uma crítica em cima do que acontece. Todos temos olhos e ouvidos para sabermos como funciona aquela Secretaria e o governo do Partido dos Trabalhadores ao qual também sou filiado e não escondo isto de ninguém.
Vamos sim exigir do governo Lula que deixe de ser hipócrita e banque o Estatuto da Igualdade Racial com Fundo de Reparação, independente da posição do Palocci. Vamos sim exigir que a SEPIR deixe de ser um chapéu ambulante e tenha recursos para, de fato, implantar igualdade racial neste país. Vamos sim exigir que o Estado brasileiro, hoje representado pelo Presidente Lula, implemente as políticas prometidas ao povo negro brasileiro.
E não é exigir deste governo, mas do Estado brasileiro, que é ESTRUTURALMETNE RACISTA. Não se trata de pedir migalhas. Veja por exemplo a Lei 10.639/03: por mais que tenhamos lutado pela sua aprovação, efetivamente os Estados e municípios não a implementam. Aqui no RS, governo Rigotto (PMDB), algumas escolas estatuais sequer sabem o que é a Lei. Aqui no RS, nosso comitê impulsor está construindo, à várias mãos, um documento do nosso Estado, que iremos encaminhar ao Comitê nacional para incorporar ao documento final.
Acho uma falácia este ataque, até porque, muitos e muitas destas pessoas tem lutado, em seus Estados e municípios por políticas de inclusão do nosso povo negro.
Volto a dizer: é pura briga para ver quem consegue o melhor carguinho mais adiante, o que não é meu caso, tenho só 25 anos de funcionalismo público, como concursado e muito bem pago por isto.
Afropress – Você acha que ainda há possibilidade de se chegar ao consenso em torno de uma única data para a Marcha ou vai prevalecer à posição de que, cada um faz a sua?
Luiz Mendes – Tenho acompanhado muito atentamente os debates na rede. Inclusive, numa atividade que fui convidado aqui no RS, num dos maiores sindicatos do país (SINDISPREVE), surgiu um companheiro com a idéia da Semana da Consciência Negra Nacional, com uma marcha de abertura, dia 16/11 e outra de encerramento, dia 22/11. Acredito que poderia ser uma saída salomônica, para “agradar” gregos e troianos. Pessoalmente, ainda tenho alguma esperança de que chegaremos a um consenso. Até coloquei, por estes dias, após ler uma mensagem na lista, que enfatizava sobre, se não me engano, o Grito dos Excluídos que aconteceu num feriado. Se o problema for entregar documento ao governo, vamos marchar no 20/11 e quem quiser que marque uma agenda com o Governo e entregue o documento, chame a imprensa (que duvido que apareça até nas marchas), invadam o Congresso, sei lá, criem um momento político para tal.
Mas que fique claro, esta é uma posição minha, Luiz Mendes. Como integrante do Comitê impulsor do RS, representando a CECDR-CUT/RS, minha posição é de seguir o que a maioria das entidades decidir, até porque, no Comitê, não falo por mim. Posso dar minha posição pessoal, mas sigo o que a maioria dos que discutem na Comissão da CUT/RS e no Comitê Impulsor da Marcha decidem. Mas, com certeza, gostaria muito que as arestas fossem cortadas e que conseguíssemos fazer uma só marcha, representando toda esta nossa luta de séculos.
Afropress – Com as diferenças expostas, como você vê a perspectiva da construção de um Programa que unifique os cerca de 80 milhões de afro-descendentes brasileiros na luta contra o racismo e a discriminação?
Luiz Mendes – Boa pergunta. Mas acredito que não se trate de Programa, mas de método. Temos visto em todo o país que o Estado brasileiro não assume o seu papel de promover políticas efetivas de combate ao racismo e a discriminação. Em contra partida, o número de ONGs e entidades que passam a fazer papel de Estado se multiplicam da noite para dia.
Temos entidades que tem feito mais que muito governo a dezenas de anos no poder. Durban 2001 nos indicou um caminho. Acredito que não soubemos ou não tivemos UNIDADE na hora de cobrar do governo brasileiro o que eles assinaram. Nossa falta de unidade, a busca de empoderamento pessoal de algumas lideranças causa um refluxo na hora de “bancarmos” os governos.
A mesma coisa acontece com o projeto político do povo negro brasileiro. Assumimos o modo branco de disputar contra nós mesmos, independente do que alguns e algumas irão dizer sobre nossos ancestrais, nas tribos e ritos diferenciados na África, acabamos por não construir um projeto político nacional para o povo negro, onde passaremos a tomar os espaços de poder na qual colocamos os brancos a “encaminhar” nossa luta. Ledo engano.
No momento em que passarmos a eleger nossos legítimos representantes em todos os espaços de poder do país, passaremos a ditar a política que desejamos. A partir daí passaremos a implementar, não um programa, mas um projeto anti-racista e antidiscriminatório. Não iremos conseguir mudar nossa posição na pirâmide social deste país enquanto os indicadores sociais continuarem a nos colocar na parte mais inferior da pirâmide social.
Afropress – Quais as principais reivindicações que o RS levará para a marcha e que resultados se espera da mobilização?
Luiz Mendes – Nosso Comitê Impulsor do Estado tem se reunido, com três comissões (mobilização, eixo temático e finanças), todas as segundas-feiras. Construímos um projeto para buscar recursos em várias frentes, bem como estamos pensando em construir uma parceria com os nossos ícones mais conhecidos nacionalmente. Também dividimos o Estado em várias regiões para descentralizar as informações e, assim, mobilizar um grande número de municípios. Temos feito encontros nas regiões, onde alguém do Comitê Impulsor central vai passar as informações que recebemos dos outros Estados.
Como disse anteriormente, nosso documento está sendo construído a várias mãos, mas nosso intuito é, partindo do eixo central REPARAÇÕES, aprofundar as discussões para que o Estatuto da Igualdade Racial seja aprovado ainda este ano, com fundo e reparações. Não existe política reparatória sem recurso, sem dinheiro. Também queremos que as cotas sejam implementadas de forma efetiva em todo o país, tanto na educação quanto no mercado de trabalho.
Veja, por exemplo, esta intervenção do Ministério Público Federal com o Programa Nacional de Igualdade Racial no Mercado de Trabalho, agora com esta pressão sobre os maiores bancos privados do país. Se houvesse política de Estado a nosso favor tal procedimento não seria necessário, ou já teria acontecido muito antes.
Outra questão diz respeito aos Decretos do governo FHC. O que foram feitos com eles? Foram revogados, estão sendo implementados? O que a SEPPIR tem feito a respeito? Aliás, se a SEPPIR tivesse mesmo “bala na agulha” já teria feito o MDA titularizar a maioria dos quilombos neste país, afinal os primeiros e verdadeiros sem terra do Brasil somos nós. Na educação, não só exigir um programa de cotas, mas efetivamente implementar a 10.639/03 em todos os níveis, principalmente nas universidades. Elas que formam os novos educadores e se utilizam do discurso da autonomia universitária para garantir sua “pilantropia”, que as faz enriquecer com uma parte de dinheiro público e outra com o nosso. Escondem o racismo atrás do discurso do mérito e do vestibular, até porque o PROUNI não é o tipo de reivindicação que queremos. Aliás, um paliativo que só faz aumentar o cofre das particulares enquanto que as públicas continuam a ser sucateadas.
Temos também questões ligadas à religiosidade, onde somos perseguidos a todo instante quando se trata das religiões de Matriz Africana. Da mesma forma nos meios de comunicação, uma política que obrigue os coronéis da mídia a nos incluir nos seus programas em todos os horários e fora da “cozinha” ou longe dos “uniformes de subalternos”.
Outros questões estão sendo pensadas pelo grupo e não vou, neste espaço, esgotá-las.
Afropress – Fique a vontade para fazer os comentários que achar pertinentes.
Luiz Mendes – Minha construção como sociólogo, oriundo da UFRGS, com curso de Especialização em Gestão da Educação também pela UFRGS, me induziu a questionar um sistema que ainda não tinha percebido ou aceito até entrar na universidade.
Hoje, após estes poucos anos de militância, conheci outras faces do racismo que minha família ainda não tinha me ensinado ou eu ainda não tinha me percebido. Demorei.
Infelizmente também passei a conhecer pessoas que vivem deste racismo, uns lutando contra ele, outros lutando por si mesmos, esquecendo que milhões de crianças negras nascem a todo dia e que, infelizmente irão ter de conviver com esta face cruel de nossa sociedade. Gostaria muito que “nossas lideranças”, ao invés de ficarem discutindo qual a melhor data para marcharem em frente ao Congresso, ao Planalto, passassem a discutir qual o projeto político iremos construir para tirar da miséria milhões e milhões de homens e mulheres negras excluídos e na linha mais baixa da miséria.
Poderíamos começar a perguntar porque não marchar no 22/11 e podermos lutar efetivamente pela anistia de João Felisberto Cândido, até hoje subjugado pelas forças armadas, inclusive com discurso, há alguns anos atrás, do Ministro da Marinha, que não iria permitir condecorar nenhum negro como Almirante? Porque não marchar no 22/11 e permitir que os Estados façam grandes manifestações na largada de suas caravanas a Brasília – é o que vamos fazer aqui no sul no 20/11.
Quando passarmos a apoiar nossos irmãos e irmãs negros na tomada do poder, enchendo as casas legislativas de todos os Estados e Municípios, tomando de assalto os cargos de decisão dos executivos e, de fato, implementando nossas políticas, independente de partido, só assim poderemos ver nossos filhos e netos longe da base da pirâmide social deste país.
Um grande abraço à equipe da Afropress pelo excelente trabalho que vem realizando. Aqui também gostaria de mandar um grande abraço à companheira Alzira Rufino pela forma como vem conduzindo este processo de discussão, tal qual vocês da Afropress.

Redação