Redação Afropress– O que você destaca de mais importante na Marcha Zumbi + 10?
Dojival – Considero esta Marcha um momento histórico na luta do povo negro por direitos e cidadania. Dez anos depois da primeira manifestação de massa do povo negro, desta vez marchamos sobre Brasília, com as nossas próprias pernas e com a perspectiva de construção de uma agenda que não esteja nem seja subalterna a agenda dos Partidos e de Governos.
Vivemos um momento importante de afirmação da nossa identidade para além de guetos. Entramos numa fase em que o passo seguinte é a luta de massas do povo negro nas cidades, na periferia, na juventude, na academia, por ações afirmativas e políticas políticas que botem uma pá de cal definitiva neste apartheid informal em que vivemos há séculos.
É inconcebível em um país em que somos mais de 80 milhões de afro-brasileiros, a maior nação negra do planeta fora da África, continuemos assistindo passivos a indecência dos indicadores que são divulgados com freqüência por organismos internacionais e órgãos do próprio Governo em que figuramos na base da pirâmide social, com salários que, segundo o IBGE são inferiores à metade do trabalhador branco, para a mesma função e a mesma qualificação; vendo a auto-estima das nossas crianças ser destruída pelo racismo por conta de uma educação excludente, até mesmo quando nos permite o acesso, vendo nossa juventude morrer precocemente nas favelas e periferias chances de futuro, vendo a mulher negra ocupando o mais baixo lugar na pirâmide social, tendo quase como sina ser empregada doméstica e condenada a trabalhos subalternos, inclusive morrendo 6 anos mais cedo. Precisamos dar um salto adiante.
Redação– O que falta para este salto adiante?
Dojival – Está faltando mais ação, como a Marcha, e menos falação. Eu, como tantos outros ativistas negros, estamos nos cansando de seminários, de oficinas, de debates, workshops etc. Em quase todos eles, as informações são as mesmas e o público também. Todos estamos carecas de saber (daqui a pouco vamos decorar) as tabelas de indicadores, os estudos acadêmicos de excelente qualidade e de ótimos pesquisadores, inclusive pesquisadores negros. A pergunta é: e daí? O que fazemos com isso?
Vamos nos deitar em berço esplêndido sobre estes números, vamos chorar em cima deles, nos acomodarmos a condição de vítimas de um processo histórico perverso de exclusão. Ou vamos usar esses dados para falar com mais franqueza e altivez para o mundo branco racista que continua nos tratando com desdém nos espaços onde ainda continuamos vetados ou com exótica curiosidade onde já não podem impedir nossa presença.
Quero deixar claro que não sou contra o debate, não é o caso. Debates, Seminários, Oficinas, tudo isso é importante, desde que sirvam a ação, desde que sejam para unir e empoderar as organizações para darmos um fim a este estado de coisas.
Estamos há 117 anos de uma Abolição que não houve, porque representou simplesmente jogar a população negra na rua. Eu como muitos de nós não temos mais paciência nem tempo para ficarmos divagando sobre o óbvio.
Redação – E a divisão em duas Marchas, atrapalha esse processo de unidade do povo negro?
Dojival – Atrapalha e ajuda ao mesmo tempo. Atrapalha porque estamos perdendo uma oportunidade de ouro para mostrar força, unidade, maturidade. Ajuda, porque define lados e demarca campos. E neste sentido ajuda as pessoas a entenderem o que se passa.
Na verdade há apenas uma Marcha, a deste 16/11 – a marcha das pessoas que estão indo à Brasília com as suas próprias pernas, que defendem que a luta do movimento negro e anti-racista no Brasil passa pela construção de uma agenda própria, que não pode estar atrelada nem subordinada a agenda de partidos e ou de governos. Eventualmente essas agendas podem até coincidir, em determinados pontos, daí porque acho que é importante a militância negra nos partidos e em todos os espaços da sociedade. O que não pode é querer fazer com que a agenda do partido ou do governo se sobreponha à agenda maior que é a Agenda da Causa, como muitos querem. Tenho muito respeito aos companheiros que militam nos partidos, quaisquer que sejam; respeito à equipe da Seppir e a Ministra Matilde, e na Conferência ajudamos a rechaçar a idéia do Governo de rebaixar o seu status, como chegou a ser anunciado.
Entretanto, não é possível subordinar a Agenda da Causa à agenda dos Partidos ou deste ou de qualquer Governo, por uma razão simples. Partidos são uma parte. Governos passam, e a nossa interlocução é com o Estado, independente de Partidos e ou de Governos.
A outra – que alguns estão chamando de Contra-Marcha é um ato de protesto dos negros militantes e ativistas de organizações da base de apoio ao Governo. Se alguém tinha alguma dúvida a decisão do Diretório Nacional do PT ao orientar seus militantes, parlamentares e “governos” a contribuir com esta Marcha de 22/11, não tem mais o direito de tê-las. Trata-se de uma manifestação oficial, um palanque, absolutamente chapa branca. A Marcha da agenda do Governo, do PT e dos Partidos que apóiam o Governo Lula.
Militante do movimento negro que quer fazer a agenda do seu partido se sobrepor a Agenda da Causa está ajudando a dividir e prestando um desserviço a luta contra o racismo no Brasil; está contribuindo para que os partidos continuem com a visão estrábica com que historicamente tem tratado a questão da desigualdade racial. Isso vale para a direita e para a esquerda. Direita e Esquerda jamais trataram no Brasil a questão da desigualdade racial como elemento estruturante da desigualdade social que faz com que o país seja campeão não apenas no futebol, mas em desigualdade social.
Redação – Você está querendo dizer que não há diferença entre a esquerda e a direita?
Dojival – O que estou querendo dizer é que as diferenças são cosméticas. A direita – herdeira direta da Casa Grande – sempre nos tratou como folclore ou, como elementos exóticos da cultura, na melhor das hipóteses; a Esquerda, sempre priorizou a questão de classe, a questão racial sempre ficou em segundo terceiro e quarto plano. Vamos fazer primeiro as transformações sociais; depois agente discute a questão racial, dizem os companheiros; na melhor das hipóteses viramos símbolos. É aquela história de dar um cargo na Administração e botar um negro pra dizer que tem sensibilidade. Mas na hora de liberar orçamento, não tem dinheiro para as políticas públicas. É o que está acontecendo exatamente agora na discussão do Estatuto da Igualdade Racial, que o Governo quer ver aprovado sem recursos para o Fundo porque o Ministério da Fazenda do Pallocci não quer. E não quer por quê? Porque a prioridade é fazer superávit primário é pagar aos banqueiros, aos donos da banca.
Quem ainda tiver dúvidas veja o orçamento medíocre que a Seppir tem neste Governo, que é cantado em prosa e verso por alguns mais iludidos como o que mais avançou na questão racial.
Redação – O que você registra como avanço da luta contra a desigualdade nestes últimos anos?
Dojival – Sem dúvida que avançamos. A luta dos movimentos negros em todo o país, da Academia à periferia contribuiu para que a questão racial hoje seja mais visível no país. Mais do que nunca antes. Hoje, podemos dizer que, cada vez mais, somos menos invisíveis. Avançamos com a política de cotas nas Universidades e no mercado de trabalho; avançamos na mídia. Neste domingo, dia 20/11, o Netinho lança a TV da Gente, que é a primeira TV negra do país, com uma proposta de valorizar a diversidade racial brasileira.
Este é um passo extremamente importante. Não apenas pelo espaço que se abre a profissionais negros das áreas de comunicação, que não tem espaços na mídia convencional, mas também pela visibilidade que dará no país à temática racial e étnica, com os efeitos e as conseqüências que isso terá no alavancar políticas públicas, por parte do Estado, para a população negra.
Redação – Você falou em nova agenda. Quais são as prioridades dessa nova agenda?
Dojival – A agenda do Movimento Negro, ou dos movimentos negros, está defasada há pelo menos 30 anos. Tenho o maior respeito pelas lideranças que estiveram à frente deste processo, no final dos anos 70, início dos anos 80. Os que vieram antes, como Abdias Nascimento, um ícone a quem devemos respeito e reverência. Tenho carinho e admiração por esses irmãos e irmãs que em períodos mais adversos ajudaram a desbravar caminhos, enfrentando todo tipo de preconceitos e de dificuldades.
Entretanto, é necessário que essas lideranças tenham respeito pelos mais jovens; compreendam a sua contribuição no processo e não se pretendam donos de uma luta e de uma causa que é coletiva, que não tem donos, é de todos nós negros e negras e do Brasil. Tenho ouvido de pessoas respeitáveis afirmações do tipo: “tenho 30 anos de militância”, dizem isso e quase estufam o peito, como se tempo de militância bastasse. Quero dizer que acho isso uma bobagem e uma demonstração de arrogância e falta de humildade. Todos os negros e negras deste país, tem de militância o tempo de vida. Ninguém nasce em um país racista impunemente. E desde que nos entendemos como gente, aprendemos a conviver e a lutar contra a realidade da exclusão.
Acho que a nossa agenda deve priorizar a luta pelas ações afirmativas na sociedade como medida de reparação. Não apenas na Educação. No mercado de trabalho, na mídia, no poder público, nos concursos públicos das Administrações. É preciso que as pessoas saibam, entendam, que quando falamos de ações afirmativas, de cotas, estamos cobrando apenas uma mísera parte de uma dívida secular. Somos credores. Não estamos pedindo favores.
Também considero fundamental a luta pela inserção no mercado de trabalho e em defesa da juventude e da mulher negra, que continua ocupando o pior lugar na pirâmide social. A mulher negra foi e continua sendo fundamental para a família negra. No entanto, só com a Constituição de 1.988 teve os direitos trabalhistas reconhecidos pela Constituição brasileira. No caso da juventude, é preciso estancar o genocídio. Hoje já há, segundo o sociólogo Luis Eduardo Soares, um déficit de jovens na faixa de 15 a 24 anos, semelhante ao que ocorre em países em guerra.
Redação – É possível falar numa agenda nova, com as velhas lideranças?
Dojival – Não e sim. Não porque essa nova agenda não pode prescindir das novas lideranças, lideranças com maior capacidade e sabedoria para liderar, para falar para todos e não apenas de olho num futuro eventual mandato de deputado ou de vereador. Lideranças, para quem a nossa Agenda esteja em primeiro lugar, ainda que se possam fazer mediações com outras agendas – as de Governos e de Partidos. Sim, porque é preciso fazer uma transição que é, por natureza, difícil e delicada. As velhas lideranças devem ceder lugar, devem abrir mão do protagonismo deixando espaços para os mais jovens. Do contrário, se fossilizam. Viram donos da verdade, a tal “militância por tempo de casa”.
Por outro lado, os mais jovens devem ter respeito e reverencia aos que nos antecederam porque a luta pelos direitos históricos do povo negro e contra a exclusão não começou nem vai terminar conosco. Nosso povo já teve a capacidade de resistir por 100 anos contra a opressão colonial e um líder da estatura de Zumbi. Ninguém vai inventar a roda. O que precisamos é resgatar e aprender com a nossa história.
Redação– Em um país como o nosso em que o racismo se esconde e dissimula, que estratégia você considera fundamental para desentocar o monstro?
Dojival – Acho fundamental sair do gueto. O gueto não nos ajuda, nos isola e fragiliza. Também é fundamental não assumir a condição de vítima do racismo como bandeira. E não menos fundamental é ser generoso para resgatar a nossa história sem ressentimentos, rancores nem recalques. Não é pelo caminho da vitimização que vamos chegar a lugar algum; muito menos é expressando a nossa raiva, nosso rancor porque não, pelos 350 anos de chicote e mais pelos 117 de abandono e invisibilidade e de racismo, que vamos sair desse atoleiro. Aqui há uma coisa que precisamos ter presente: é impossível derrubar o edifício racista no Brasil sem a construção de um poderoso movimento anti-racista, capaz de unir em torno da nossa Causa, os nossos irmãos indígenas vítimas seculares do genocídio, os brancos pobres, também eles vítimas do preconceito que é crescente contra a pobreza, e até mesmo setores da classe média mais sensíveis à nossa Causa por um Brasil sem Racismo.
Sem essa aliança não conseguiremos tirar o monstro do racismo da toca e derrotá-lo. Não podemos aceitar o jogo de “esconde-esconde” que o racismo pratica no cotidiano. Precisamos desmascarar o racismo e os racistas, sem o que o jogo de “esconde-esconde” vai continuar ainda por muito tempo.
Dou um exemplo: há anos sabemos que os racistas passaram a usar a Internet como campo para difundir a intolerância e o ódio racial. Há anos proliferam em sites como o Orkut páginas com o “Eu Odeio Negros”, eu “Odeio Pretos” e outras aberrações. Ouvi de muitas pessoas o seguinte: “não é possível identificá-los, os provedores estão fora do país, não há leis”. Até que começamos a acionar as autoridades públicas e cobrar delas providências. Encontramos sensibilidade no Ministério Público de S. Paulo, por meio do doutor Christiano Jorge Santos, agora do doutor Eder Segura, Secretário Executivo, do MP paulista.
Resultado: este ano, cinco racistas foram identificados e um – o estudante Marcelo Valle Silveira Mello – está sendo formalmente processado pela Justiça de Brasília, por iniciativa do MP de lá. O primeiro interrogatório acontece no dia 23/01/2. 006. O que estamos provando? Que não podemos tolerar essas práticas? Que não aceitamos que, em um país em que racismo é crime inafiançável e imprescritível – se possa cometer tais crimes impunemente.
É preciso entender que hoje a afirmação da nossa identidade se dá em movimento, se dá na luta e para que ela seja eficaz é fundamental ter aliados. A construção de um poderoso movimento anti-racista no Brasil é para ontem. Para isso precisamos romper com certas práticas – seqüelas do escravismo e do racismo – que nos isolam e fragilizam.
Redação– Qual, na sua opinião, deve ser o próximo passo, após a Marcha?
Dojival – Acho que o passo seguinte é a constituição de uma Coordenação Nacional e Coordenações Estaduais, que assumam a liderança do processo. Essa Coordenação Nacional deve construir um programa unitário de lutas com as principais reivindicações que nos unificam nacionalmente, e desdobrá-las para articular a pressão sobre todas as esferas do Estado. Temos de ter em mente que não vamos ficar na entrega de documentos, de reivindicações. Temos que avançar para construir formas de pressão sobre o Estado e sobre Governos em todos os níveis, para exigir respostas a reivindicações que há mais de 117 anos estão nas gavetas.
Há uma proposta de uma Greve Geral por Direitos e Igualdade que está sendo levantada pelo ativista advogado José Roberto F. Militão, colunista da Afropress. Ele diz ter se inspirado na recente greve das mulheres da Finlândia pelos direitos. Considero respeitável, tem de ser considerada. As formas de luta, entretanto, têm de ser discutidas, construídas e implementadas. O mais importante é que saiamos do terreno das falas e dos discursos apenas, e partamos para ações práticas. Sem voluntarismos nem aventureirismos, porém, com coragem, ousadia e altivez. Sem isso, vamos continuar por mais 300 anos falando e sem tomar atitudes concretas que botem abaixo o edifício racista, que é o que faz da sociedade brasileira a mais injusta do planeta.