Veneranda, que se elegeu na chapa da prefeita Luizianne Lins, contrariando toda a cúpula do PT e o Presidente da República, tem 51 anos, é do PSB e também é presidente de honra da Associação dos Vice-Prefeitos do Estado do Ceará. Veja a entrevista.
Afropress:– Como o movimento Negro no Ceará está se articulando para participar da Marcha Zumbi + 10?
José Carlos Veneranda – Estão acontecendo reuniões periódicas referentes à Marcha Zumbi + 10. Foi feito um projeto com o segmento do movimento Negro organizado no Ceará, particularmente em Fortaleza para adquirir condições para o translado dos militantes até Brasília. Um ônibus foi orçado através de frete para esse fim.
Afropress:– Qual a posição que vem sendo defendida majoritariamente 16/11 ou 22/11?
Veneranda – As discussões no Movimento Negro Organizado vem sendo defendidas para o dia 22/11. Pois, compreendemos que o governo tem contribuído ao implantar a SEPPIR. Precisamos fortificar o dia 22/11, pois só assim estaremos dando um sim a SEPPIR.
Afropress: – Quais as bandeiras que o Movimento no Ceará levará para a Marcha?
Veneranda – A bandeira da solidariedade e do compromisso. Da organização e da ética. Construímos a estrutura que aí se encontra. Se não está boa devemos reguiar o barco, redimensionar nossas metas, mas jamais, barrar um processo que com suor, sangue e vida foi edificado. Somos fortes, temos sonhos, mas também construímos e construiremos realidade.
Afropress: – Na condição de vice-prefeito negro de Fortaleza, qual a sensibilidade que a atual administração está tendo para a questão racial e étnica?
Veneranda – Neste momento há uma enorme necessidade de unificação de esforços. Na qualidade de Vice-prefeito negro e sindicalista tenho dado e continuarei apoiando a luta que é de todos nós, negros e negras deste município. Nesse sentido buscamos a superação das desigualdades raciais, que impedem a consolidação de um desenvolvimento social e econômico justo do nosso país. Justo porque sem que todos – brancos, negros, índios – se beneficiem não há desenvolvimento social equilibrado. Esse desequilíbrio é visível em toda parte.
A administração de Luizianne Lins tem tido a sensibilidade que lhe é conveniente. O diálogo sempre foi aberto e nos esforços estamos sempre atentos em percalços que, porventura existam; até o momento, porém, isso não aconteceu.
Afropress: – Fale um pouco da história do Movimento Negro no Ceará
Veneranda – Gostaria de falar aqui sobre a paciência histórica do negro e do índio. São 500 anos de escravidão. Este momento convida-nos a relembrar a saga de quatro pescadores cearenses, que, liderados por um negro, Manoel Olímpio Meira, conhecido por Jacaré, lançaram-se ao mar em uma rústica jangada rumo ao Rio de Janeiro, então Capital Federal, reivindicando, em pleno Estado Novo – época de liberdades cerceadas – melhores condições de vida, sob a inspiração de Nossa Senhora dos Navegantes e da luta de outros heróicos jangadeiros cearenses, que em 1884 impediram o desembarque de escravos.
Em analogia a estes heróicos trabalhadores do mar encontramos todos nós, aqueles que organizaram e os que estão presentes hoje e construíram o Movimento Negro no Ceará, enfrentando dificuldades no percurso, buscando aliados que enriqueçam com suas vozes e visões o nosso propósito de promover a igualdade racial, de denunciar as políticas discriminatórias do racismo em nossa cidade e apontar soluções para tantos problemas – seculares – das etnias.
A jangada aqui representa o símbolo místico da nossa cultura. Como instrumento que serve de ganha-pão, mas nela se navega entre ventos desfavoráveis e vitórias, mas também com ela buscamos novos rumos em verdes mares bravios.
O Movimento Negro organizado com essa titulação surge no Ceará em meados de 1982 no bairro do Jardim Iracema. Fundado por Maria Lúcia Simão. O grupo se chamava Grupo de União e Consciência Negra. Era um grupo de 7 jovens: Lúcia, Cleide, Valdemar, Maria José, Eugênia, Margarida, Graça. Aos poucos as articulações foram sendo feito e o pequeno grupo toma forma e criam-se núcleos nos bairros do Pirambú, Henrique Jorge, Quintino Cunha, Dendê e Messejana. Posteriormente, surgem os núcleos nos municípios: Aracati, Iracema, Tururu, Crato, Monsenhor Tabosa, Tamboril.
Posteriormente, o grupo toma novos rumos e passa a chamar-se de grupo negros do Jardim Iracema.
Surgem outros movimentos Negros como MNU. UNEGRO, Grupo de Mulheres Negras, Nação Iracema, Instituto Negra, grupo de negros do PT. Houve no MN um amadurecimento em diversas questões. Alguns são muito ligados à cultura, como capoeira, maracatu e maculelê, outros a política social, enfim todos têm dado sua parcela de contribuição nesse contexto.
Afropress: – Como o senhor vê a disputa entre as diferentes correntes políticas no Movimento Negro no país e como isso se reflete no Estado?
Veneranda – Natural, pois não somos diferentes dos outros. Pensamos, articulamos, persuadimos. É isso que fazem os seres humanos. O que precisamos aprender é termos ideais comuns, mesmos com objetivos diversos.
Afropress:– A Prefeita Luizianne Lins tem aberto espaço para a discussão racial no Âmbito da Administração?
Veneranda – A prefeita tem direcionado que vai cumprir o que nós, em campanha havíamos decidido, estrutura uma coordenadoria. E assim estamos trabalhando para tal. As discussões existem, o diálogo é aberto. Não é fácil, pois não se trata de ver o que pensa a prefeita, mas a máquina; neste sentido temos tomado medidas à altura.
Afropress:– Qual a avaliação que o senhor faz da Conferencia Nacional de Promoção da Igualdade Racial, realizada em julho próximo passado?
Veneranda – A preparação para esta Conferência Nacional deu ensejo a um grande ciclo de reuniões envolvendo uma grande mobilização nacional. Em Fortaleza realizamos a municipal e vários municípios do Ceará também assim fizeram. Como bem diz o professor Henrique Cunha: “Esta Conferência Nacional foi cercada de ingredientes políticos específicos e de grande importância na historia dos Movimentos Negros”.
A interlocução dos Movimentos Negros com o Estado brasileiro é uma conquista da Marcha sobre Brasília em 1995, quando do tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares. Em novembro de 1995, na Marcha os Movimentos Negros ocuparam a Esplanada dos Ministérios em Brasília durante o dia todo, com um número estimado de mais de 20.000 militantes. Foi uma das maiores manifestações de negros ao longo da nossa história. Na Marcha de 1995 a mobilização do movimento negro foi realizada por conta própria, sem o apoio do estado e com uma participação cercada de grande hesitação dos sindicatos e partidos políticos. Estes sindicatos e partidos tentavam controlar os Movimentos Negros, nos seus diversos matizes.
Vendo da impossibilidade deste controle e tendo pela frente a autonomia dos movimentos negros, os sindicatos e partidos políticos participaram da manifestação da Marcha de maneira presencial apenas, sem dar apoio de infra – estrutura e brigando pelos espaços de mídia. Esta Conferencia Nacional tem a vantagem em ser realizada por iniciativa do estado brasileiro, o que sem sombra de duvida marca um avanço da visão política deste estado com relação ao movimento social negro.
Existe também a figura magna da representação do estado brasileiro pela Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial. Esta Secretaria que se apresenta nesta Conferencia Nacional ainda lutando com os problemas da sua diminuta capacidade de intervenção na máquina do estado, redundando nas restrições da sua reduzida capacidade em promover mudança das relações sociais e, portanto da situação da população negra.
Afropress:– Que avaliação o senhor faz da SEPPIR e do papel da Ministra Matilde Ribeiro?
Veneranda – A SEPPIR é um instrumento forte que o governo criou através do MN para minimizar as duras realidades que passa ainda, nosso povo. Nesse sentido compreendo que a SEPPIR deva continuar a servir a parcelas de todos e todas no sentido de dar vida digna ao povo brasileiro.
Afropress:– Historicamente qual a maior liderança negra do Ceará?
Veneranda – Maria Lúcia Simão fundadora do Movimento Negro no Ceará.
Afropress: – Faça os comentários que julgar pertinentes.
Veneranda – A Reflexão sobre a realidade brasileira, do ponto de vista da sociedade e da estrutura do Estado, considerando os mecanismos de reprodução da discriminação, do racismo e das desigualdades raciais, nos faz estarmos vigilantes e convictos do que queremos para nosso povo. Queremos um povo liberto, sadio, alegre e com perspectiva de vida. Tudo pode ser adquirido com organização e políticas públicas que direcionem para esse destino.

José Carlos Veneranda