A manifestação foi marcada para se contrapor a Marcha Zumbi + 10 realizada há menos de uma semana por ativistas e militantes que defendem a autonomia e a independência do Movimento Negro em relação a partidos e a Governos e que, segundo o Jornal Nacional da Rede Globo, reuniu 20 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios.
No ato de ontem, 22/11, os manifestantes, que se deslocaram à Brasília em 82 ônibus de vários Estados, com o apoio de dois carros de som ocuparam parte das pistas do Eixo Monumental com faixas e cartazes com as principais reivindicações. À tarde eles entregaram aos presidentes da Câmara, Aldo Rebelo, e do Senado, Renan Calheiros, documento com reivindicações, entre as quais a proposta de projeto de Lei de anistia ao marinheiro João Cândido, o herói da Revolta da Chibata.
O dia 22 de novembro marca a data em que se iniciou a Revolta da Chibata, liderada pelo “Almirante Negro”, cuja filha Zelândia Cândido, de 81 anos, esteve na manifestação. “O que mais me dói é ver o meu pai ser visto por algumas camadas de brasileiros como um marginal e um louco”, disse.
A passeata também marcou os 95 anos da Revolta da Chibata, comandada pelo marinheiro negro, no Rio. Na época os marujos rebelados reindicavam de Hermes da Fonseca, que acabara de assumir a Presidência da República, o cumprimento da Lei que aumentava os vencimentos dos militares, reduzia a jornada de trabalho e o fim dos castigos corporais como as chibatadas, a palmatória, a prisão a ferros e a solitária.
Na audiência com o Presidente da Câmara, a coordenadora nacional do Movimento Negro e da Comissão Nacional Contra o Racismo da CUT, Maria Izabel da Silva, além de reivindicar do Estado brasileiro a implementação de políticas de combate ao racismo e de promoção da igualdade racial, pediu a regularização das áreas remanescentes de quilombos e cotas para negros nas universidades, entre outras.
A pauta era a mesma entregue na semana passada por lideranças da Marcha Zumbi + 10, que estiveram com Lula e com o próprio Aldo Rebelo e as reivindicações praticamente iguais às contidas no “Manifesto à Nação Contra o racismo, pelo direito à vida” lançado na Marcha do dia 16/11.
Para Maria Izabel da Silva a proposta do Estatuto de Igualdade Racial que tramita no Congresso é insuficiente. “Não dá conta das nossas reivindicações e, em especial, no que diz respeito ao financiamento das ações de reparações e de combate ao racismo no país”, disse. “Queremos sim o Estatuto da Igualdade Racial, mas queremos que ele seja discutido com o movimento negro e que a gente garanta os recursos financeiros para cumprir as ações”, acrescentou.
De acordo com o presidente da Associação Nacional de Empresários e Empreendedores afro-brasileiros, João Bosco Borba, a manifestação foi contra o racismo e pela igualdade. “Nossas principais reivindicações hoje são terras demarcadas para quilombos, aprovação do estatuto de igualdade racial, política de cotas e um fundo econômico para sustentar as ações de apoio de políticas do movimento negro”, explicou.
Veja o ultimato enviado pelos rebeldes da Revolta da Chibata ao Presidente Hermes da Fonseca
“Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou, rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais, os quais tem sido os causadores da Marinha Brasileira não ser grandiosa, porque durante vinte anos de República ainda não foi bastante para tratar-nos como cidadãos fardados em defesa da Pátria, mandamos esta honrada mensagem para que V. Excia. faça aos Marinheiros Brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da República nos facilita, acabando com a desordem e nos dando outros gozos que venham engrandecer a Marinha Brasileira; bem assim como: retirar os oficiais incompetentes e indignos de servir a Nação Brasileira. Reformar o Código Imoral e Vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo pelos últimos planos do ilustre Senador José Carlos de Carvalho, educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda, mandar pôr em vigor a tabela de serviço diário que a acompanha. Tem V. Excia o prazo de doze (12) horas, para mandar-nos a resposta satisfatória, sob pena de ver a pátria aniquilada. Bordo do Encouraçado “São Paulo” em 22 de novembro de 1910. Nota – não poderá ser interrompida a ida e a volta do mensageiro. [assinado] Marinheiros” Edmar Morel. A Revolta da Chibata [respeitada a grafia original].

Redação