Hamburgo/Alemanha – O sociólogo e jornalista negro, Marcos Romão, poderá ser anunciado neste sábado (19/09) como um dos representantes oficiais da Alemanha na II Conferência Mundial dos Brasileiros no Mundo, prevista para os dias 15 e 16 de outubro no Itamaraty, Rio. A decisão será divulgada em Berlim, durante um Seminário de Cidadania brasileira.
De acordo com estimativas do Itamaraty existem cerca de 3 milhões de brasileiros vivendo fora do país.
Romão, militante do Movimento Negro Brasileiro desde os anos 70, vive na Alemanha desde 1.988 e, atualmente, mora em Hamburgo, onde criou o Quilombo Brasil – que reúne a comunidade brasileira na Alemanha – e dirige a Rádio Mamaterra. É Membro do Conselho de Cidadãos Brasileiros de Hamburgo.
Ele conta a experiência de quem vive fora do país e se mantém antenado na defesa das velhas causas contra o racismo e por igualdade.
“Quando, em 93, cheguei de manhã cedo em Colônia do meu plantão com trabalhador social em uma casa para excepcionais em Solinger. Telefonei para vários amigos que eu iria fazer um protesto na Hauptbanhof/central de trens, pois acabara de assistir o incêndio criminoso de um prédio onde viviam turcos. 7 horas da manhã lá estava com alguns gatos pingados persas, turcos e uma brasileira, a famosa de Nictheroy. Na hora que iam me prender por fazer uma agitação sem autorização, quem lá estava? O falecido Leôncio, funcionário da embaixada(?) De Bonn que puxava meu braço de um lado enquanto a polícia puxava de outro. Até que a carteirada dele funcionou, e não fiquei com ficha na polícia”.
Ele acrescenta que esse episódio fez com que “chegasse ao fim um preconceito de brasileiro que passava batido por qualquer embaixada brasileira acostumado aos agentes da polícia política brasileira na América Latina e na Europa dos anos 70”. “Ser salvo por um funcionário do Itamaraty, não estava em minha cosmovisão de até então. E quando me atacaram aqui em Hamburgo, quando acamado não sabia como alimentar nem cuidar de minhas filhas. Quem foi quem e ajudou? Foram brasileiros e brasileiras de quem nunca tive medo. E sabem porque eu nunca tive medo de brasileira nem brasileira? Porque eu já sabia desde o Brasil, que a divisão que nós vivemos no Brasil existe, a divisão sorridente entre os que tem e os que não tem , a divisão maledicente entre os que tem o cor e os que não tem. É cruel, mas é introjetada na carne, é neocolonial e poderosa mas se pode lutar contra ela”.
Romão tem a expectativa de ser o indicado, porém, avisa: “Quero e falo para o mundo que nós somos uma comunidade migrada de um país heterogêneo. Que quero para nossa comunidade na Alemanha o mesmo que quero pro meu Brasil, um país justo para com as mulheres, os homossexuais, para com a crianças e jovens, paracom os negros, para com os índios, para todos os excluidos, e agora. Nunca falei nem falo, nem pretendo falar em nome de ninguém, quero falar junto pois defendo que cada grupo tenha o direito igual de falar por si. Pelo menos aqui na Alemanha temos chance de acabar com esta baboseira, de que somos todos iguais, e tapar com a peneira o que nos separa. Só tendo coragem em reconhecer nossas mazelas é que podemos começar a acabar come elas. (o “mazela com ela” foi intencional prá vira slogan de campanha). Aí sim vamos começar devagarinho a nos tratarmos como iguais. Com paixão e sem cinismo e com sinceridade”, conclui.

Da Redacao