S. Paulo – Em longa entrevista concedida ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, a ministra Matilde Ribeiro, da Seppir, considerou superada a polêmica causada por suas declarações a BBC Brasil e disse que, neste segundo mandato, uma de suas prioridades é trabalhar pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial, que tramita no Congresso há 11 anos. “Vamos trabalhar para que a fila ande”, afirmou.
Na entrevista, de volta da viagem ao Senegal, onde representou o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na posse do novo presidente daquele país, Matilde, falou de como a reação à polêmica foi uma atitude de Governo, reconheceu que o movimento negro ainda não trata a questão da comunicação de forma estratégica e que o segundo mandato deverá consolidar as políticas da primeira gestão com a implementação do Programa Brasil Quilombola.
A ministra também falou do Selo Diversidade no Trabalho – Cidade de S. Paulo. “Acho uma iniciativa muito interessante. Acho importante que o atual prefeito tenha encampado uma ação que teve participação da Seppir, por intermédio da OIT, no GRPE”.
Veja a entrevista exclusiva da ministra à Afropress.
Afropress – Ministra, como a senhora vê hoje a enorme polêmica criada pelas suas declarações à BBC Brasil, considerando “natural” que negros não gostem de conviver com brancos?
Matilde Ribeiro – No Brasil, nós temos um histórico de não enfrentamento do racismo e da discriminação racial. Ainda está muito próximo do nosso ideário a idéia de que não existe racismo, o mito da democracia racial.
A frase, que foi explorada, foi descontextualizada. Quem vê a entrevista, vai ver que eu estava tratando de uma situação hipotética e frisei, inclusive, que não concordava com isso. Mas, a polêmica aconteceu e os meus dias ficaram muito animados.
De qualquer maneira o debate é necessário e serviu para divulgar o trabalho que o Governo vem fazendo, o trabalho para executar as políticas de inclusão para todos.
Afropress – A senhora não concorda então que o assunto tenha sido tratado no âmbito das relações interpessoais e que isso acabou dando asas à polêmica…
Matilde – Na verdade, a questão do racismo foi tratada na entrevista como um todo, com menção as responsabilidades de Governo e de Estado; que o racismo existe no país, por processos históricos que não garantiram a inclusão de ex-escravos. Tudo isso estava lá de maneira bastante explícita. Mas, é sempre bom que os meios de comunicação tratem dessa temática, não apenas nas suas contradições, mas também nos seus ganhos. A frase foi pinçada. Não dá pra reduzir toda a entrevista a esta frase. Mas, de qualquer forma, em alguns momentos é necessário particularizar.
Afropress – A reação à polêmica provocada pelas suas declarações foi uma atitude de governo, como demonstrou a fala do vice-presidente, ainda que tortuosa negando racismo? Ou seja, o Palácio se envolveu nesse tema?
Matilde – A Seppir é um órgão de asssessoramento à Presidência da República. Eu estive assessorada o tempo todo pela Secom (Secretaria de Comunicação). O Palácio esteve o tempo todo em diálogo comigo e com a minha Assessoria. Em momento algum a Seppir agiu sozinha. Tanto procurei quanto fui procurada.
A viagem ao Senegal foi uma coincidência. A eleição lá foi em fevereiro, e a data da posse estava marcada. Na impossibilidade da ida do Presidente, ou do ministro das Relações Exteriores, fui designada pelo Presidente para representá-lo. Foi a quarta vez que fui ao Senegal. Em novembro fui homenageada pela Prefeitura de Gorée e recebida, inclusive, pelo Presidente da República.
Afropress – Como a senhora viu a atitude de alguns setores da mídia, cuja reação beirou a histeria?
Matilde – Eu avalio que eventualmente esse tema volta com todos os seus conflitos. Desta vez foi a entrevista com a frase descontextualizada. Mas sempre volta em outras formas, como no ano passado no debate sobre o Estatuto e o projeto de reserva de vagas. Também eventualmente volta em alguns fatos, que tomam maior expressão como no caso da morte do dentista Flávio Santana. O contexto é o mesmo. A pergunta se existe ou não racismo no Brasil. Acho saudável que esse debate aconteça. É bom que o tema esteja em evidência.
Afropress – A senhora não acha que avançamos pouco em relação à nossa presença na mídia. Por exemplo, porque razão jornais de grande circulação, como Folha, O Globo, não têm intelectuais negros (as) escrevendo?
Matilde – O que acontece em relação à personalidades negras no mundo midiático é correspondente à forma como o tema foi tratado historicamente no Brasil. O tema sempre foi tratado por meio de efemérides – 20 de novembro, as datas importantes – ou fatos que estrangulam o cotidiano. Não é um tema que faça parte do cotidiano. Quanto mais avancemos em estratégias institucionais, mas vamos conseguir que Governo e sociedade estejam mais presentes.
Por exemplo, até pouco tempo não eram muitos os espaços de tratamento da questão da igualdade racial. Hoje temos Frente parlamentares, como a Frente em Defesa da Igualdade Racial, no Congresso, a Frente em Defesa dos Quilombos, a frente que trata da questão da terra… Temos avançado em relação à espaços institucionais. A criação da Seppir, o Fórum Intergovernamental (Fippir) etc. Agora, claro, vendo a atuação dos Movimentos Sociais, de fato o tema comunicação deve ser tratado de forma mais estratégica.
Afropress – Quais serão as prioridades do segundo mandato da senhora à frente da Seppir?
Matilde – A primeira gestão foi um período importante para o encontro de caminhos para a construção da política da igualdade racial. Não havia nenhum parâmetro anterior. Foi o período de identificar os caminhos e envolver a institucionalidade brasileira nesta perspectiva. A realização da 1ª Conferência Nacional da Igualdade Racial foi um marco desse caminho.
A segunda gestão deverá ser pautada por uma determinação na consolidação das políticas da primeira gestão, em especial, o Programa Brasil Quilombola, que tem um desenho institucional bastante amplo, envolvendo mais de 20 ministérios. Agora é executar e buscar os resultados.
Hoje temos identificadas cerca de 3.200 comunidades quilombolas, em todos os Estados, com maioria concentrada nas regiões norte e nordeste do Brasil. No caso do Brasil Quilombola a Seppir tem o papel de coordenar diretamente.
Quanto às Ações Afirmativas no trabalho, na Educação, na Saúde, vamos continuar desenvolvendo o trabalho de estimular o debate, mas não temos responsabilidades de coordenação. Temos condições de conquistar resultados no caminho da redução das desigualdades.
Afropress – Quanto ao Estatuto da Igualdade Racial, que está há anos tramitando no Congresso?
Matilde – O Estatuto é uma peça institucional muito importante. Na primeira gestão tivemos um trabalho importante com o próprio delineamento do conteúdo do projeto. Estamos considerando que o Estatuto é um instrumento que está atualizado e compatível para seguir o seu processo. A Seppir tem trabalhando para isso. Já conversei com o Ministro Mares Guia (da Articulação Política) no sentido de agilizarmos a tramitação. Vou trabalhar para que a fila ande.
Afropress – A senhora já foi procurada pelos organizadores do Congresso dos Negros e Negras do Brasil?
Matilde – Tenho sido procurada ainda de maneira informal. Não foi possível uma reunião. Estou convidada a participar do lançamento quando haverá o primeiro contato oficial.
Considero que é importante que as entidades cheguem a um consenso em suas formulações em relação à vida brasileira. Conhecendo o Movimento Negro como conheço, acho importante para o país, balizarmos caminhos, refletirmos a relação com Governos.
Afropress – Qual o orçamento da Seppir?
Matilde – O orçamento é de R$ 20 milhões – R$ 34 milhões, considerando as emendas. É um orçamento pequeno, mas as Secretarias Especiais não são órgãos encarregados da execução de políticas públicas. Mas, claro, é um orçamento pequeno.
Afropress – Como a senhora vê a iniciativa da Prefeitura de S. Paulo lançando o Selo Diversidade no Trabalho?
Matilde – Acho a iniciativa da Prefeitura de S. Paulo muito interessante. Desde a gestão da Marta (ex-prefeita e atual ministra do Turismo Marta Suplicy), haviam iniciativas nesse campo. Acho importante que o atual prefeito tenha encampado, uma coisa que teve a participação da Seppir, por meio da OIT, por intermédio do Programa de Fortalecimento Institucional para a Igualdade de Gênero e Raça (GPRE). Trata-se de uma ação conjunta muito importante.
Nós, da Seppir, pretendemos resgatar a campanha da Diversidade. Essa experiência de S. Paulo deverá ser agregada a esse nosso trabalho. No dia 02 de maio vamos fazer um diálogo com algumas empresas, inclusive empresas nacionais e multinacionais, e a Prefeitura será convidada a participar.

Da Redacao