Um oficial da Polícia Militar de São Paulo com que conversei uma vez argumentava sobre o porquê da polícia abordar, na maioria, jovens e negros. Dizia ele que o perfil do suspeito era o do pobre e do negro, porque ele se encaixa nesse padrão. Bastava ver, segundo o seu argumento, qual a composição da população carcerária. Um detalhe, o policial em questão é negro e oficial da mais alta patente da PM, portanto deve saber do que está falando.

A tendência quando se fala em Segurança Pública é combater as consequências, muito pouco as causas. Parece que escrevo o óbvio. A questão é muito mais complexa. Quem joga milhares de pessoas para fora do centro das grandes cidades para a moradia precária e sem infraestrura, se não a própria estratificação da sociedade e a persistente condição de apartheid social?

Passam-se os anos, mudam-se governos e a situação não se altera num país que passou os seus primeiros 300 anos praticamente abandonado e espoliado, até 1808, quando por força da invasão de Portugal por Napoleão, a família real portuguesa fugiu para o Brasil.

Fomos dos últimos países a abolir a escravatura. Finda a escravidão, os negros foram jogados à sua própria sorte, ao ponto de, alguns retornarem para os seus velhos senhores, como trabalhadores assalariados.

Próximo do Natal, fui ao Rio de Janeiro com a família passar alguns dias. Não pude deixar de notar  duas situações, em uma delas, a mãe branca acompanhada dos filhos pequenos e de uma babá negra e na outra uma babá negra com um menino branco. Minha impressão é de que nada mudara desde os períodos coloniais e de que o Rio de Janeiro guarda para sempre muito das características do Brasil colonial.

Em pleno Século XXI, a escravidão forçada, por certo, não é privilégio brasileiro. Ainda é praticada em diversos países do mundo, incluindo os considerados desenvolvidos, principalmente para a exploração sexual. Se ainda hoje temos escravidão forçada, vivemos a triste realidade de uma sociedade das mais desiguais do planeta, do 74o. IDH do Planeta.

Mais de dez por cento da população brasileira vive em favelas, outros tantos em bairros desprovidos de qualquer melhoramento. Em São Paulo, a cidade economicamente mais desenvolvida do país, há bairros com esgotos a céu aberto.

Alguns especialistas negam a relação miséria-violência com o crime, mas  não é preciso ser bom observador para saber que os bairros mais perigosos estão localizados onde a estrutura social é mais precária. Em alguns lugares, nem a polícia entra. São dominados pelo crime organizado que ocupa o vácuo deixado pelo Estado.

Causam sempre mais impacto na mídia os crimes que saem desses ambientes, do guetos, para os bairros da classe média e alta. Sem combater as causas, de que valem os muros altos, os automóveis blindados, a não ser para aumentar os níveis de esquizofrenia e a distância que mantemos entre nós?

Há que se admirar o pobres desse país (incluindo aqueles que estão fora das estatísticas oficiais) ou da “classe média emergente” que mantém ainda famílias estruturadas, mesmo submetidos à violência e sofrendo todos os tipos de privações.  Ali, convivem as vítimas e os seus próprios algozes.

Os pobres desse país, segundo os dados oficiais, são aqueles que vivem (?) com renda de R$ 70 a R$140, os miseráveis aqueles com renda até R$70. Isso para efeito do benefício do Bolsa Família. Afinal, quem é a classe medida emergente tão cantada e decantada pelos oficialistas? Qual é a renda dessa classe média?

Segundo o governo federal, a classe média brasileira recebe renda per capita de R$ 240 a R$ 1.019, valor próximo do que seria o salário mínimo real e nessa faixa de renda está enquadrada a metade da população brasileira. 

O valor do  aluguel de um barraco na favela não sai por menos de R$ 500. A quem desejam enganar os economistas que fazem essa classificação de uma família de classe média?

A política oficial é a da “proteção ao pobre” mas mascara a necessidade de manter o pobre na sociedade para manipulá-lo melhor por meio dos programas de compensações sociais. O buraco é mais embaixo.

 

Silvano Tarantelli