Rio – O cientista social e coordenador da Igualdade Racial da Prefeitura do Rio, Carlos Alberto Medeiros (foto), afirmou que a violência praticada contra o funcionário da USP, Januário Alves de Santana, na loja do Carrefour de Osasco “é um problema que afeta o cotidiano dos afro-brasileiros e do qual só uma parcela chega a vir à tona”.
“Já aconteceu comigo mesmo algumas vezes, embora não dessa forma trágica. Como dizia o título de um artigo que traduzi, no início da década de 1990, para a revista Estudos Afro-Asiáticos, da autoria de Peter Eccles, nós negros brasileiros continuamos sendo “suspeitos até prova em contrário”, acrescentou.
Veja, a entrevista por Medeiros à Afropress
Afropress – O que deve ser feito para que episódios desse tipo não se repitam?
Carlos Alberto Medeiros – Não existe fórmula para a solução disso no curto prazo, pois ela envolve: 1) conscientizar a polícia e o Judiciário; 2) conscientizar a população em geral, de onde provêm os chamados “operadores do direito” – como diz o Professor Jorge da Silva, não é a polícia que ensina o racismo aos seus agentes, é a sociedade; 3) reforçar os mecanismos de fiscalização – e eventual punição – da ação desses agentes.
Afropress – Como encara o fato de, inicialmente, o caso ser tratado como de Lesões Corporais Culposas, portanto, sem a conotação racial explícita que teve, só passando a ser tratado como o que de fato foi, após a intervenção dos advogados?
Medeiros – Faz parte da cultura profissional de nossos agentes de imposição da lei a ideia de que se deve evitar a caracterização dos casos de racismo e procurar classificá-los sob outras rubricas, quando não resolvê-los no ato, com os policiais assumindo o papel de juízes. É como se fosse um crime menor, que não merecesse o tratamento definido por lei. O remédio para isso é eminentemente educativo, sem excluir um viés punitivo.
Afropress – Como está o seu trabalho à frente da Coordenadoria do Rio, possibilidades, prioridades e perspectivas?
Medeiros – Ainda enfrento problemas de pessoal, comuns às demais Coordenadorias Especiais, como as de Gênero e Juventude, igualmente criadas este ano. Mas conseguimos realizar a contento nossa Conferência Municipal da Igualdade Racial e estamos agora finalizando projetos como o Farol, destinado a atender jovens negros em situação de vulnerabilidade. Estamos participando da realização de dois seminários sobre o papel da mídia na discussão de raça, um com a Associação Brasileira de Imprensa e o outro com o centro Cultural Justiça Federal. Devemos dar também este ano os primeiros passos do Projeto Testers, que visa comprovar a discriminação racial no mercado de trabalho.

Da Redacao