Barretos/SP – A médica anestesista Carolina Bernardes, vítima de agressão racista e assédio moral por parte da direção da Santa Casa de Barretos, é formada desde 2011 pela Universidade Federal de Uberlândia, no Triângulo mineiro, e concluiu a residência em Anestesiologia na mesma Universidade no ano passado.

Ela disse que nunca passou pela situação de ser humilhada publicamente e chamada de “negrinha” como aconteceu ao ser agredida pelo obstreta Fernando Jorge de Carvalho. O caso tem sido noticiado pela imprensa de Barretos, porém, a versão dada em destaque é a oficial da Santa Casa. Apesar das pressões e da ameaça de afastamento, a médica garante que não desistirá: "Quero justiça!", afirmou.

Confira, a seguir, a entrevista concedida ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira.

Afropress – Como é que se deu a agressão?

Carolina Bernardes – Fui chamada pelo doutor Bruno, ortopedista de plantão para realizar anestesia para uma fratura exposta de tíbia. Estava aguardando a chegado da paciente no Centro Obstétrico. Todas as cirurgias do final de semana estavam sendo realizadas ali, pois o centro cirúrgico encontra-se em reforma. Chega então o doutor Fernando Carvalho Jorge, obstetra e solicita a realização de anestesia para uma cesariana, pois a paciente estava em trabalho de parto.

Tentei explicar que já chegaria à paciente da ortopedia e que aguardasse no maximo 30 minutos que eu poderia realizar a dele também. Neste momento o doutor Fernando Jorge responde com gritos, que ia reclamar, pois eu estava "quebrando a mão", que estava com preguiça, que poderia anestesiar a sua paciente ao invés de ficar "sentada batendo papo".

Fui verificar pessoalmente. Conversei com a paciente e verifiquei prontuários etc. A paciente dele se internou por volta da 1h da manhã após romper sua bolsa, as 23h30. Passou por atendimento, entrou em contato com o doutor Fernando Jorge que agendou sua cesárea para as 07h, sem comunicar o anestesista de plantão, no caso eu.

Quando este foi novamente me questionar se não anestesiaria sua paciente naquele momento, lhe perguntei o porquê de não ter feito a cesárea quando a paciente chegou porque era urgente segundo ele, quando este se alterou me chamando, entre outros xingamentos, de "negrinha".

Afropress – Há quanto tempo a senhora trabalha como anestesista da Santa Casa de Barretos?

CB – Há cerca de um ano e meio presto serviços na Santa Casa de Barretos.

Afropress – Há alguma outra médica negra no Hospital?

CB – Não conheço nenhuma outra médica negra na Santa Casa, apenas um médico mais velho, cirurgião.

Afropress – Além da injustiça de passar a ser tratada como ré, quando na verdade é vítima, quais os prejuízos que teria se concretizado o seu afastamento?

CB – A COOPANEST/RP presta serviços em outros hospitais de Ribeirão Preto e em Barretos há o AME, além da Santa Casa. Então, eles poderiam tentar me realocar nestes postos, mas me complicaria um pouco pois trabalhando apenas no AME não teria como manter a renda que tenho atualmente pois lá não funciona com plantões noturnos e finais de semana e em Ribeirão Preto no momento não há plantões disponíveis e eu teria que mudar de cidade novamente. Optei, quando me formei, em vir para cá porque sou natural de Barretos e meus pais e familiares estão todos aqui.

Afropress – Como é que a senhora se sente?

CB – Não sei bem como responder a sua pergunta… O sentimento maior e de humilhação. Humilhação por não ser respeitada no meu ambiente de trabalho, humilhação por colocarem em dúvida se ocorreu ou não o fato, humilhação por ser difamada e ter meu trabalho e conduta médicas questionados. Mas ao mesmo tempo há um sentimento de indignação. De não aceitar que isso ainda exista na nossa sociedade.

Afropress – É de se supor que a pressão seja grande. Como está o seu ânimo?

CB – Meu ânimo é seguir em frente e não desistir, pois acredito que nenhuma injustiça, nenhum crime deva ficar sem punição.

Da Redacao