Luzerna/SC – Afastado da direção executiva da Rede Educafro por razões de saúde (problemas cardíacos) desde o início do mês, Frei David Raimundo dos Santos, um dos pesquisados pelo geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) para o projeto “Raízes Afro-Brasileiras” da BBC Brasil, está em Luzerna, cidade de colonização alemã e italiana de 5.572 habitantes a 480 km de Florianópolis.
Ele acompanha a repercussão da nova arma dos que combatem as cotas para negros e indígenas e o Estatuto da Igualdade Racial. “Ninguém quer repartir ou devolver o que foi acumulado com o suor escravo. Este debate vai pegar no Brasil e todos devemos participar com convicção”, afirma.
Frei David ainda não sabe quando retorna plenamente às atividades, mas garante: “Zumbi está me ajudando e voltarei.” Veja, na íntegra a, entrevista por e-mail, dada à Afropress.
Afropress – Frei David comente os resultados e a repercussão da pesquisa do doutor Sérgio Pena, em que negros conhecidos como Neguinho da Beija Flor e Daiane dos Santos aparecem com genes majoritariamente europeus?
Frei David – Fiquei surpreso quando comparei o meu resultado com o de Neguinho (31%) e Daiane (39%). Fenótipicamente considerei (e considero) os dois mais afros. No entanto, o resultado me apresentou com 68% de gens afro. Não mudou nada em minha vida. Apenas aumentou em mim a certeza de que, com esta pesquisa, o doutor Sérgio Pena está se alinhando com aqueles que querem tirar o foco da luta por ações afirmativas.
Em geral, uma parte do povo que está debatendo este assunto está tirando conclusões equivocadas. “Não precisa de cotas, pois todos somos iguais”. Se todos somos iguais, porque só 9% dos funcionários dos Bancos são afro-brasileiros? Deveria então, nos bancos, ter 47% de seus funcionários afros-brasileiros. Entendeu? Este discurso de que todos somos iguais é de uma carga ideológica tremenda! Maldosamente muitos estão com medo de que a grande população afro descubra que têm direitos e que lhe são negados.
É justamente esta a conclusão que alguns maliciosos querem implantar na cabeça do povo. As cotas vêm como reparação para aqueles que são vitimas da discriminação por serem afro-brasileiros. A polícia não me pergunta quantos gens temos antes de nos discriminar. Ela olha para nós e, se temos a aparência de afro-brasileiro, somos vítimas dos maus-tratos distribuídos por ela.
Desde os meus 21 anos assumo minha negritude e leio muito sobre este assunto. Com certa dor no coração tomei consciência de que 83% dos afro-brasileiros, em diferentes níveis, tem vergonha de dizer que são afro. O grande educador Paulo Freire tinha uma boa explicação para este fenômeno: para ele, todo oprimido hospeda em si um opressor. É o opressor que está em nós que nos faz imitar os valores culturais da classe dominante e negar os valores do povo ao qual pertencemos. Descobrir que eu era vítima deste fenômeno e decidi expulsar de dentro de mim o opressor. Não me importa quantos por cento de genes afro tenho. O importante é que nas relações pluri-étnicas brasileiras o negro está oprimido. Todas as estatísticas sócio-econômicas mostram que o afro-brasileiro é o mais esmagado entre todas as etnias.
A sociedade brasileira não ligava para este fato. Agora que começamos a reverter este processo, surgem grupos de intelectuais poderosos que tentam nos oprimir, ocupando 80% dos espaços que a imprensa está dando a este assunto e marginalizando, com o apoio da imprensa, a opinião das lideranças negras.
Há o dito “medo branco”. É o medo que Yvone Maggie, Peter Fry e outros estão possuídos. Eles têm medo da tomada de consciência do povo afro-brasileiro. Eles sabem que a nação tem grandes dívidas com este povo afro e se este povo tomar consciência de seus direitos vai fazer muita coisa mudar no Brasil. Lógico: refiro-me, especialmente, na mudança econômica. Ninguém quer repartir ou devolver o que foi acumulado com o suor escravo. Este debate vai pegar no Brasil e todos devemos participar com convicção.
O dito “medo branco” vai acelerar este processo de consciência racial no Brasil, entre os afros e entre os brancos que têm consciência de justiça. Por isto, peço a Ivone Maggie Peter Fry, e outros, que continuem fazendo projetos financeiros para o estrangeiro e editar mais livros contra nós, os militantes da inclusão, com as ações afirmativas nas universidades e no mercado de trabalho.
Afropress – O senhor não é mais diretor executivo da Educafro? Por que? Quem o substitui?
Frei David – Estou afastado para me tratar do problema de coração. Tive um problema cardíaco ao trabalhar os dados de exclusão da USP no vestibular de 2007. Apesar de todo nosso trabalho de pressão, com o INCLUSP, aumentou a exclusão de pobres e negros no último vestibular. Conclamo a militância afro a não deixar isto barato. A USP não pode comprovadamente nos excluir, mentindo para a sociedade com um plano ineficiente chamado INCLUSP.
O Frade Afro-brasileiro, que faz Doutorado na PUC SP, com o tema do Hip Hop, Frei Leandro (Leandro Vidal Gil), é o meu substituto.
Afropress – Onde o senhor está e o que está fazendo?
Frei David – Estou numa cidade pequena, Luzerna, Santa Catarina, com 5 mil habitantes, quase sem problema social. Minha tarefa é diminuir as minhas atividades, pois preciso reduzir o meu ritmo.
Afropress – Como anda a saúde? O senhor está em tratamento?
Frei David – Zumbi está me ajudando e voltarei. É questão de tempo.
Afropress – Como vê o Movimento (Movimento Brasil Afirmativo) lançado em S. Paulo para pressionar o Congresso a votar o Estatuto?
Frei David – A luta no congresso é urgente e necessária.
Afropress – Faça as considerações e comentários que julgar pertinentes.
Frei David – Acredito que estamos numa das melhores fases de nossa luta. Como dizia minha mãe, “ninguém chuta cachorro morto”. Esta campanha contra as cotas e ações afirmativas só está armada porque estão vendo que a nossa luta por ações afirmativas nas universidades e no mercado de trabalho vai dar grandes resultados. Sinto-me cada vez mais motivado a se dedicar nesta luta.

Da Redacao