Rio – A sequência de três fotos da intelectual e ativista feminista negra Lélia Gonzalez evoca reflexões contidas no livro "Tornar-se Negro", de Neuza Santos Souza, clássico publicado em 1983, tema inédito na época e, ainda, muito atual, que trata do discurso do negro sobre o negro, no que tange à sua emocionalidade. As imagens mostram a paulatina transformação da jovem mulher em uma mulher negra. A legenda explicita bem a difícil caminhada do entendimento sobre o lugar do negro na sociedade brasileira. “Tornando-se negra: Ao longo da década de 1960, através do próprio corpo, foi assumindo sua identidade de mulher negra.”

O painel fotográfico integra a exposição “Lélia Gonzalez: O feminismo negro no palco da história”, a nova edição do Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil, em parceria com a Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) e Brasilcap, lançado na última quarta-feira (24/02), no Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB do Rio.

Projeto Memória

Realizado desde 1997, o Projeto Memória é uma tecnologia social de educação que visa difundir a obra de personalidades que contribuíram significativamente para a transformação social, a formação da identidade cultural brasileira e o desenvolvimento do país.

O objetivo é resgatar, difundir e preservar a memória cultural brasileira por meio de homenagens a personalidades que contribuíram para a transformação social e para a construção da cultura nacional. Das 14 edições, Lélia foi a segunda feminista a ser homenageada, a primeira foi Nísia Floresta. “Intelectual de peso, ela traz uma história de coragem e preocupação de enfrentar com muita independência, o que mostra ser um privilégio para a Fundação esta homenagem”, ressaltou José Caetano de A. Minchillo, presidente da Fundação Banco do Brasil.

Se estivesse viva, Lélia Gonzalez, no dia 1º de fevereiro, teria feito 80 anos; entretanto, ela foi militar em outro plano há exatos 21 anos, ou seja, em 1994, no Rio de Janeiro. Mineira, de Belo Horizonte, recebeu justa homenagem da sociedade brasileira pelo legado que nos deixou. Emocionantes falas ressaltaram a importante luta desta pensadora crítica, mas também do quanto ainda estamos longe de concretizar parte do que ela defendia: o efetivo combate ao racismo e ao sexismo.

Rosália de Oliveira Lemos, doutoranda de Política Social da UFF e coordenadora estadual da Marcha das Mulheres Negas 2015, se dirigiu à amiga comentando sobre as mudanças culturais impostas pelos avanços tecnológicos, da importante germinação de pequenos frutos como o grupo feminista negro N’Zinga, que fundaram na década de 1980, e que deram e dão infindáveis bons frutos.

Para ilustrar a responsabilidade da intelectual em amalgamar a fala à prática, a ativista feminista lembrou uma dada situação, que, infelizmente, ainda ocorre. Em 1983, a Universidade Cândido Mendes organizou o "Encontro Brasil–África", em que havia um painel fotográfico do jantar de confraternização com os convidados. “Eram imagens sensuais de mulheres negras sambistas, a "mulata". Iradas, elas redigiram uma moção de repúdio que foi apresentada por Lélia na mesa. “O racismo está recrudescendo. É diária a matança de jovens negros”, denunciou Rosália, informando sobre a mobilização nacional para a "Marcha das Mulheres Negras – 2015, Contra o Racismo, a Violência e Pelo Bem Viver", que vai acontecer em Brasília no dia 18 de novembro. “Estamos reivindicando mais e lutar por políticas públicas sérias e comprometidas com o nosso segmento", afirmou.

Palestras

A dimensão internacional das palestras realizadas por Lélia foi citada por Elisa Larkin Nascimento, presidente do Ipeafro – Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, que ressaltou a necessidade de se potencializar os estudos sobre os conceitos defendidos pela antropóloga e por Abdias Nascimento – amefricanidade e quilombismo. E, na mesma sintonia, a historiadora Denise Fonseca, da PUC-Rio, chamou também a atenção para que os lingüistas trabalhassem o conceito do pretuguês, e que as instituições assumissem a responsabilidade na transformação das bases documentais que necessitam serem disponibilizadas para pesquisas, tal como Elisa Larkin, com muito esforço, fez com o acervo de Abdias Nascimento.  

A iniciativa contribui para a preservação da memória cultural brasileira. “Com esta edição do Projeto Memória a instituição presta justa homenagem à Lélia Gonzalez e sua obra em prol das igualdades sociais de gênero e raça” afirma.

Amiga e parceira de ativismo, a ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, afirmou que levar adiante o pensamento de Lélia Gonzalez é incorporar na prática seu pensamento que visa contrapor o atual momento de recrudescimento do racismo do Congresso Nacional, da polícia que vitima os jovens negros no país. Este momento clama por um contradiscurso racista e conservador.” 

“A luta contra o racismo é longa e cotidiana, uma longa estrada a ser percorrida”, afirmou Rubens Rufino, filho de Lélia, ao afiançar que houve avanços contra o racismo no Brasil, apesar da conjuntura econômica racista reforçar as desigualdades e má distribuição de renda.

Para ele, este projeto é fundamental, pois leva às crianças, à sociedade o conhecimento dessa realidade, assim como saber quais os pensadores que desenvolveram reflexões para desconstruir estas lógicas como criar outras que se contraponham às estabelecidas é fundamental, é sinalizar caminhos.

O evento contou com a participação representantes de inúmeras instituições do feminismo negro de Estado do Rio, além da coordenadora executiva da Redeh, Schuma Schumaher; do diretor administrativo e financeiro da Brasilcap, Marcos Moreira; do gerente geral da Unidade Desenvolvimento Sustentável do Banco do Brasil, Rodrigo Nogueira; do zelador de santo Pai Jair D' Ogun, de familiares e amigos de Lélia Gonzalez; além de representantes de movimentos sociais e sindical – como da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio/SJPMJRJ).

Materiais didáticos

O Memória elaborou 20 réplicas da exposição Lélia Gonzalez4 mil kits biblioteca (composto por livro fotobiográfico, DVD do documentário e caixa para acondicionar o material); 4 mil kits pedagógicos (composto por dois almanaques históricos e caixa para acondicionar o material); e o website da homenageada, que ficará hospedado no portal do Projeto Memória com todos os materiais disponíveis para download

A distribuição dos produtos está a cargo da parceira na iniciativa, a Rede de Desenvolvimento Humano. As réplicas da exposição serão distribuídas para organizações do movimento negro, comprometidas com a superação do racismo e das desigualdades sociais e que tenham endereço fixo.

Os kits biblioteca serão, prioritariamente, encaminhados para organizações do movimento negro, núcleos de pesquisas sobre relações raciais das universidades, redes e organizações não governamentais voltadas para a superação do racismo, associações de comunidades quilombolas, comunidades de terreiro e entidades afins. Já os kits pedagógicos serão distribuídos em eventos locais, previstos para acontecer durante o 1° semestre de 2015.

De acordo com Schuma Schumaher, Coordenadora Executiva da Redeh, está sendo construída uma agenda de lançamentos nos estados com organizações da sociedade civil, mecanismos de políticas de promoção da igualdade racial, mecanismos de políticas para as mulheres e secretarias de educação. “Para esses eventos, que contará com debates sobre a temática das desigualdades de gênero e raça, serão convidados os movimentos sociais, comunidade escolar e entidades afins”, esclarece Schuma.

 

Sandra Martins, Jornalista da COJIRA/Rio, colaboradora de Afropress