Historiadores afirmam que o episódio – transmitido ao vivo para todo o Planeta – marca o início do século XX! e de uma nova era na humanidade, caracterizada pela prevalência do unilateralismo nas relações internacionais e pelo aumento do preconceito e da discriminação contra povos e culturas não ocidentais, como a posterior invasão do Afeganistão e o Iraque, países hoje transformados em protetorados americanos.
Para além das análises, contudo, a data – que para o povo chileno, bem aqui pertinho de nós – representa o heroísmo e a altivez de um Presidente da República que não muda de lado – Salvador Allende, morto sob combate em Palácio, resistindo aos carrascos liderados por Pinochet – e o início de uma tragédia com milhares de mortos patrocinada pelos Estados Unidos, o 11 de setembro atenderá sempre e em qualquer circunstância nas suas causas e nos seus efeitos pelo nome de Intolerância. Veja o poema:
AMÉRICA, AMÉRICA!
O coração do último império sangra
Atingido por metálicos torpedos
Nesta manhã de terça-feira de setembro
Sem primavera
Projéteis humanos arremessados
Perfuram edifícios
Monumentos de concreto
De uma ordem caolha
Esculturas provisórias
Da ruína
O coração do último império sangra
Envolto em nuvens de poeira e cimento
Cenas de ficção real
Pesadelo à luz de um dia claro
O coração do último império sangra
De sua boca escorre
Uma gosma de fel assustadora
Nunca produzida
Pelos efeitos especiais de Hollywood
Suas vísceras expostas
Como a carne crua
Dos inocentes
(quem são os inocentes?)
Incinerada sob os escombros
O coração do último império sangra
Sob os nossos olhos
Passivos e perplexos
América, América!
O dedo que te acusa
É a tua consciência atormentada
A fome que fomentas
Nos cinco continentes
Te perturba o sono
E explode como um boomerangue luminoso
Na ilha de Manhattan
América, América!
O dedo que te acusa
É a tua consciência atormentada
Tua sede insaciável de domínio
O ar superior lançado
A quem repara o mundo
Com olhar diverso
América, América!
O dedo que te acusa
É o rosário de violência
Despejado sobre povos e culturas
São as toneladas de napalm que ainda hoje ardem
Em nossas entranhas
São as crianças de Hiroshima e Nagasaki
Reduzidas a cogumelos de dor e espanto
América, América!
Teu american way of life
Não esconde mais tua ignomínia
Tampouco seduz a legião de deserdados do mundo
América, América!
O dedo que te acusa é a tua consciência atormentada
BRASÍLIA/CAFÉ COM LETRAS/SETEMBRO/2001 – DOJIVAL VIEIRA

Dojival Vieira