Isso ocorreu com freqüência nas primeiras décadas do século XX, por todo o país. Mas a polícia militar baiana demonstra empenho em rever esta história. A princípio sem alarde, promoveu no dia 30 de junho deste ano o I Congresso Religioso da Polícia Militar, no Centro de Convenções de Salvador. Lideranças religiosas de diversos credos e policiais militares discutiram estratégias de promoção da paz.
Dia 27 de agosto passado, o NUAFRO – Núcleo de Religiões de Matriz Africana da Polícia Militar da Bahia, sob a coordenação do Sargento PM Eurico Alcântara dos Santos foi mais longe e iniciou o projeto ECÓ ÌMÓ (aula de sabedoria, em iorubá) com o objetivo de discutir a “relação do aparelho de segurança pública com as religiões de matriz africana, no passado e no presente”. O evento de consolidação da entidade foi um sucesso e os tambores sagrados rufaram solenemente no auditório do colégio da polícia militar. Mais de 30 policiais militares, homens e mulheres, foram apresentados (as) ao público presente como praticantes de religiões de matriz africana e integrantes do NUAFRO.
A discussão do tema ficou a cargo da Makota Valdina Pinto, do terreiro Tanuri Junçara e dos professores Ordep Serra, Jaime Sodré e Gilson Magno. O título Makota merece uma breve nota explicativa. Ele indica aquela mulher mais velha e sábia que assessora a Mãe de Santo nos candomblés de angola. Alguns estudiosos e autoridades religiosas a caracterizam como a guardiã do conhecimento no terreiro. Nada mais indicado para o espírito do NUAFRO; foi, portanto, uma aula de sabedoria.
Um evento como este e a própria criação do NUAFRO só foram possíveis porque as lideranças das religiões de matriz africana há muito, de maneira tranqüila, silenciosa e eficaz, vêm fazendo política no Ministério Público, nas Secretarias de Segurança Pública, nas delegacias e junto à cúpula da Polícia Militar, exigindo a garantia de direitos humanos, civis, culturais e constitucionais para professar suas crenças. Foi necessário transpor o espaço dos valores imemoriais e simbólicos para a arena política da disputa pelo espaço público que permita e proteja a existência material das instituições religiosas de matriz africana achincalhadas por crenças sectárias e falsos profetas.
Resta-nos torcer (e continuar contribuindo) para que a Polícia Militar incorpore, cada vez mais, o papel de proteção do exercício pleno da cidadania. No caso baiano, especialmente, Oxalá esses ares de renovação atinjam as brigadas militares atuantes no carnaval. Que os negros e negras possam brincar em paz, sem apanhar da polícia, de outro modo, que sejam protegidos (as) por ela. Que Nzázi se mantenha firme! Kaô Kabeciele!

Cidinha da Silva