S. Paulo – “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil”, o documentário que mostra o drama de 50 meninos negros transferidos na década de 1930, de um orfanato do Rio para a Fazenda da família Rocha Miranda, no interior de S. Paulo, para trabalharem como escravos, já está em cartaz em S. Paulo, Rio, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba e Recife. O filme se baseia numa pesquisa feita por mais de 10 anos pelo professor Sidney Aguilar, a partir de tijolos marcados com a suástica nazista encontrados na fazenda.

“Incomoda porque somos nós. É muito impressionante como nós nos reconhecemos nesse filme", diz o diretor Belisario Franca em entrevista ao portal UOL. "Esse filme revela um lado do Brasil que não é louvável, mas se a gente quer se entender como nação, é bom que a gente veja esse lado que não é glorioso", acrescenta o diretor.

O principal personagem do documentário é Aluisio Silva, o 23. Todas as crianças que chegavam a fazenda eram substituídas por esse número. "Seu" Aluisio morreu no final de 2015, aos 96 anos, mas conseguiu compartilhar todas as memórias daquela época.

As memórias de "seu" Aluisio, assim como de "seu" Argemiro Santos, outra vítima do trabalho escravo da fazenda, não saíram facilmente. "Trazer à tona memórias traumatizantes é sempre dolorido. Isso tem que ser feito com cuidado, com tempo e estratégia", afirma o diretor.

A estratégia usada foi a da materialidade. A cada foto, documentos mostrados a "seu" Aluísio, a história ia se revelando. Em um dos momentos, Aluisio é convencido a voltar ao orfanato, de onde foi tirado aos dez anos de idade. "Foi um momento muito forte porque você vê claramente a memória inundando aquele homem. A gente quase fisicamente sentia o que estava acontecendo com ele. Embora dolorido também há alívio porque poder falar é poder ser escutado. Essa memória que é privada passa a ser coletiva", diz Belisário. Confira o trailler: https://youtu.be/6nr1-ut9EQ0

A versão dos donos da fazenda

A fazenda em questão pertencia à família dos Rocha Miranda, uma das mais poderosas da época. Eram donos de bancos, empresas de transporte, hotéis de luxo e propriedades rurais. Segundo as pesquisas, faziam parte do ultraconservador movimento integralista brasileiro e mantinham relações estreitas com os nazistas.

O diretor afirma que a família não quis se pronunciar sobre o caso. Na internet, Mauricio Rocha Miranda, neto de Renato Rocha Miranda, um dos donos da fazenda criou um blog e fez vídeos em que contesta a versão de Sidney e Belisário e chama o documentário de sensacionalista. "Nomear o horror é muito difícil, porque quando você nomeia, deve fazer algo com aquilo. É uma questão ética", diz Belisario. 

O documentário, exibido no Cine Ceará deste ano, dá o panorama histórico da época que mostra como tudo isso foi possível mesmo 50 anos depois do fim da escravidão. Estão presentes a relação com o passado colonial, o passado escravista, a questão das adesões aos regimes autoritários, o governo Vargas e a bancada eugenista no congresso, que tinha como objetivo o "branqueamento e a regeneração racial".

O filme sobre o passado toca no presente e olha para o futuro, segundo Belisário.  "Hoje no século XXI, o menino é assassinado pela polícia. As permanências estão aí. A naturalização daquelas práticas ainda estão presentes", diz. 

"Menino 23" pode ajudar ainda a detonar o mito de que no Brasil não há racismo. "O mito da democracia racial foi uma das piores coisas que aconteceu ao Brasil. De cordiais não temos nada. Somos uma nação violentíssima. Olha o estado das nossas prisões. Olha como tratamos os direitos básicos. A gente continua a patinar e patinar interessa a quem? Temos que pensar nisso", finaliza o diretor.

Nome original:

Menino 23 – Infâncias perdidas no Brasil

Diretor: Belisario Franca

Roteiro: Belisario Franca, Bianca Lenti

Estúdio: Canal Brasil, Globo Filmes, Globo News

Ano: 2016

Data da estreia: 07/07/2016

Produção: Maria Carneiro da Cunha

Cor: Colorido

Distribuidora: Elo Company

 

Da Redação, com informações do Portal UOL