Essa discussão foi reacendida pelo caso dos irmãos gêmeos idênticos Alex e Alan Teixeira da Cunha. Eles não tiveram a mesma sorte ao se inscrever pelo sistema de cotas para o vestibular do meio do ano na Universidade de Brasília (UnB). A banca examinadora considerou Alan afro-descendente, já Alex não(*). A direção da instituição alega que irá fazer uma nova análise.
Não há dúvida que aconteceu um erro grave, mas em nenhum momento, a imprensa considerou esse episódio como exceção. Ao contrário, usa como justificativa para acusar o sistema de cotas de xenofobia. É bom lembrar que essa ação afirmativa começou em 2002 na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Lá, nesses cinco anos não se tem notícia de um fato tão contraditório como o ocorrido em Brasília.
Outras ações afirmativas já foram duramente criticadas, como o Programa Universidade para Todos (ProUni). Alguns acreditavam na queda de qualidade das faculdades. Mas, o último ENADE (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) revelou que os alunos do ProUni tiveram um desempenho superior comparados com os estudantes da rede privada de ensino superior. O feito dos bolsistas não virou manchete nos noticiários.
A própria ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), uma das maiores defensoras das cotas, foi alvo recentemente da artilharia da mídia. Segundo o noticiário, ela declarou que considerava natural a discriminação dos negros contra os brancos. Essa frase tirada do contexto da entrevista serviu para acusar a ministra de racista.
A medicina também está sendo usada para deslegitimar as ações afirmativas. Numa entrevista ao jornal Estado de S. Paulo, o cientista Luigi Luca Cavalli-Sforza, especialista em das diásporas humanas, afirmou que não existem raças distintas entre os homens. O pesquisador ainda exalta a mestiçagem brasileira, como se o país fosse uma verdadeira democracia racial em que brancos e negros possuem as mesmas oportunidades.
O geneticista Sérgio Danilo Pena, professor de bioquímica da Universidade Federal de Minas Gerais(UFMG), realizou exames a pedido da BBC Brasil para descobrir o grau de ancestralidade africana de nove brasileiros. Para espanto geral, os resultados indicaram que a ginasta Daiane dos Santos e o cantor Neguinho da Beija-Flor são majoritariamente europeus. Para os algozes das cotas, o DNA comprova que é impossível determinar quem é negro ou não.
No entanto, quem é negro sente a origem na pele. A discriminação não está no código genético de ninguém. O racismo brasileiro é velado e se manifesta somente em determinadas circunstâncias. Numa batida policial, por exemplo, os afro-descendentes são os mais abordados. A população negra é sempre minoria nos cargos de chefia, nas faculdades e nos meios de comunicação. Essa situação evidencia a dívida histórica que o país tem com esse povo, que ainda sofre com os resquícios da escravidão.
Essa ofensiva da mídia contra as políticas de igualdade racial e inclusão social pode ser explicada pelo “branqueamento” das redações. Historicamente, os formadores de opinião fazem parte de uma elite intelectual essencialmente branca. Não é à toa, que vários editoriais foram publicados recentemente desqualificando o sistema de cotas. Infelizmente, quando a imprensa se posiciona radicalmente contra uma idéia, ela impede o debate e cria um falso consenso na sociedade.
(*) O caso foi resolvido com um recurso acatado pela Reitoria da Universidade, em que se garantiu o direito de Alex ter acesso ao sistema de cotas.

Michel Carvalho