Rio – Todos os grandes jornais, Agências de Notícias e veículos de comunicação – com a única exceção do Jornal do Brasil On Line – esconderam a identidade do bacharel em Direito, João Marcos Aguiar Gondim Crespo, 26 anos, preso pela 14ª DP do Rio de Janeiro, acusado de injúria racial, por agentes do Programa Delegacias de Dedicação Integral ao Cidadão (DEDIC).
Na casa de Gondim foram encontrados um boneco do líder nazista Adolph Hitler e miniaturas de soldados com uniforme nazista e tanques de guerra. Um computador e um notebook também foram apreendidos.
Até o Ouvidor da SEPPIR, advogado Humberto Adami, reproduziu em seu Blog a notícia sob a “prisão de um bacharel em direito”, omitindo a identidade do acusado. Curiosamente, todas as matérias informam o nome do delegado Alessandro Thiers, da 14º no Leblon, que interrogou o preso e é responsável pela investigação.
A omissão da informação contraria os Manuais de Redação dos jornais e o Código de Ética da Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ), que considera “o acesso à informação de relevante interesse público, um direito fundamental”. O Código de Ética da FENAJ acrescenta que “a divulgação da informação precisa e correta é dever dos meios de comunicação e deve ser cumprida independentemente da linha política de seus proprietários e ou diretores ou da natureza econômica de suas empresas”.
A não citação dos nomes de acusados de crimes só se justifica quando se trata de crianças e adolescentes, que tem a imagem protegida pelo Estatuto da Criança e da Adolescência (ECA) e nos casos de pessoas inimputáveis – não punidades pela lei penal por serem mentalmente incapazes – além de processos que correm em segredo de Justiça.
A omissão, porém, tem sido prática corriqueira nos veículos da grande mídia, o que na prática configura racismo institucional, segundo analistas.
Não há orientação
Consultada por Afropress, a editora do Caderno Metrópole, do Estadão, Luciana Garbin, garantiu que não há orientação do jornal nesse sentido e que possivelmente a omissão do nome se deva a proibição de divulgação por parte da autoridade policial.
Afropress também encaminhou um pedido de explicações a jornalista Suzana Singer (foto), Ombudsman da Folha. “Considerando que a preservação da identidade de acusados só se justifica em se tratando de menores protegidos pelo ECA, de inimputáveis ou quando se trate de Inquérito Policial ou processo que tramite em segredo de Justiça, gostaríamos de saber qual é a razão de tal procedimento. Esclareço que este não é um caso isolado. A Folha, a exemplo de outros veículos, é recorrente na omissão das identidades de acusados de crimes de racismo e ou injúria racial, o que na prática significa premiar o acusado com o anonimato e sonegar uma informação, direito fundamental da sociedade”, diz e-mail enviado a Singer.
Fez o mesmo questionamento ao Ouvidor da SEPPIR, advogado Humberto Adami.
Até o fechamento da edição, nem Singer nem Adami haviam respondido ao pedido de explicações.
Crimes
Segundo a Polícia Civil carioca, o DEDIC recebeu denúncia de que Crespo utilizava as redes sociais para expor sua ideologia racista contra pessoas que visitam a árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul do Rio.
Em sua casa a Polícia encontrou miniaturas de tanques de guerra, soldados nazistas e um boneco de Hitler. Um computador e um notebook foram apreendidos.
Na página de relacionamento usado pelo acusado foram encontradas declarações em que insultava pobres e negros: “O mal-humor (sic) está além de seus bairros de origem, está em renegar sua genética, cabelo ruim, sorriso horrível, baixa estatura e baixo nível sócio-cultural (sic). São feias por natureza, já nascem com 20% de gordura na cintura, não tem dinheiro nem pra ir pra São Paulo. (…) Deus nos livre dessas pragas cafonas, nós, pessoas de bem, que nascemos bem, que tivemos educação e uma ótima genética”.
Em caso de condenação, o bacharel pode ser condenado a penas que variam de dois a cinco anos de reclusão. Ele responderá o processo em liberdade.

Da Redacao