S. Paulo – A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva realizou nesta segunda-feira (15/07) sua 55ª audiência pública, para tratar do caso do operário metalúrgico Raimundo Eduardo da Silva, militante negro da Ação Popular (AP), morto sob tortura, no DOI/CODI de S. Paulo. A audiência foi aberta com a leitura de uma carta escrita por companheiros da AP com elogios à sua atuação política.

O corpo de Raimundo foi exumado em 1983, quando a família pôde enterrá-lo dignamente. Houve na ocasião, por intercessão de dom Paulo Evaristo Arns, uma missa na Assembleia Legislativa. Após, o corpo seguiu em cortejo até Mauá, passando por avenida que leva seu nome – Raimundo Eduardo da Silva.

Irmão de Raimundo, Hélio Jerônimo da Silva foi o primeiro a depor. Relatou a militância em Mauá, primeiro no PCB, depois na AP, onde Raimundo atuava na Sociedade Amigos do Bairro Jardim Zaíra. Por conta de denúncias, o irmão, segundo Hélio, teve de se refugiar em uma pensão em Santo André, onde acabou ferido a faca, no final de 1970, numa confusão havida no local.

No hospital, continuou Hélio, a repressão o descobriu. Antes que a família conseguisse retirá-lo de lá, e apesar da resistência dos médicos por conta do quadro grave de Raimundo, o Exército o levou embora, após fechar o entorno do hospital. A alegação era que Raimundo iria para o Hospital Cruz Azul, mas na verdade ele foi para a Oban, onde foi torturado e morreu, aos 22 anos de idade. No dia 4/1/1971, a família soube que ele havia sido enterrado como indigente no cemitério de Guaianazes. Hélio contou sobre a perseguição que sua família sofreu, no que foi secundado por sua filha Magda Aparecida da Silva.

Grande revolucionário

"Raimundo era um jovem educado, tinha todas as qualidades para ser um dos grandes revolucionários da época, por sua luta contra a repressão e por uma sociedade mais justa", afirmou Pedro Pereira do Nascimento, o Pereirinha, também operário metalúrgico e militante da AP. Pereirinha também falou sobre sua carreira de militante político e as circunstâncias que o levaram a ser preso.

Também metalúrgico e militante da AP, após passagem pelo PCB, Carlos Gilberto Pereira disse que Raimundo era parte da reorganização do movimento operário e sindical dos operários no ABC e em outras cidades. Contou ainda sobre suas três prisões, em 1968, 1969 e 1974. Discorreu sobre as diferenças entre as torturas que sofreu nelas, primeiramente na Polícia do Exército, e depois na Oban, capitaneada pela equipe do delegado Fleury e por fim no DOI-Codi, que era comandada pela equipe de Brilhante Ulstra.

O presidente da Comissão da Verdade, deputado Adriano Diogo (PT), considerou interessante a realização de audiências específicas para tratar da resistência operária no grande ABC. Informou que, no dia 04 de agosto, haverá, com a OAB, um ato de retomada simbólica do prédio onde funcionava o Tribunal da Justiça Militar, na avenida Brigadeiro Luis Antônio, 1.249, na capital. Lá será um centro de memória histórica do período da repressão e a ação dos advogados paulistas na defesa dos presos políticos. No dia 8/8, no salão nobre da Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, haverá o julgamento da Lei da Anistia.

Da Redacao