E nesta jornada muitos foram os amigos, verdadeiros militantes que arregaçaram as mangas para nos ajudar. E como nem tudo é sorriso as críticas e os boicotes também vieram. Não fosse pelo ânimo, experiência e conselhos de pessoas como Dojival, João Bosco, Luiz Carlos (Museu Afro) não chegaríamos tão longe. E participar da Conferência Nacional em Brasília para mim teve um sentido de missão cumprida. A participação na Conferência Nacional é, no verdadeiro sentido da palavra, uma certificação de atuação e de comprometimento com o Movimento Negro.
Nossa corrida começou em nossa cidade com a realização da Primeira Conferência Municipal.
Na Conferência Municipal realizada em 23 de Maio o Movimento Negro foi contemplado com a criação da Assessoria Especial de Promoção da Igualdade e o município de Botucatu foi contemplado com um Plano Municipal de Diretrizes para a Promoção da Igualdade nas áreas de Educação, Saúde, Mercado de Trabalho, Justiça e Cidadania, Juventude e Cultura, propostas na Conferência.
Uma semana depois da Conferência Municipal em 30 de Maio, participamos para a Conferência Regional. Botucatu tinha a maior delegação da região (dos 79 municípios) com 21 delegados dos quais oito foram eleitos para a Conferência Estadual.
Na Conferência Regional de Sorocaba tive o prazer de ser relatora do eixo temático Terra e Moradia e pude ver como se constrói as propostas e como nasce as Políticas Públicas para a População Negra, Indígena e demais etnias afetadas pela discriminação.
Cada proposta encaminhada pelos Quilombolas da região de Sorocaba foi debatida na Conferência Estadual e para a alegria de todos as propostas seguiram para Brasília compondo o Relatório da II CONAPIR.
Na Conferência Estadual realizada em São Paulo não posso negar que apesar de todo processo e esforço dos organizadores, a Conferência teve seus aspectos negativos.
Deparamos-nos em meio a um caos onde a disputa política (partidária) era acirrada. Muitos usavam o microfone para fazer propaganda das eleições de 2010 ou levantar bandeiras sindicais, apedrejar com palavras pessoas que deram boa parte de sua vida ao Movimento Negro e que agora não atendiam mais aos interesses de alguns. Autoridades eram rechaçadas e vaiadas com tremendo desrespeito (não fui educada assim por meus pais). Incrível como uma possível ameaça a perda do poder transforma seres humanos racionais em homens totalmente descontrolados e sem a razão. Tinha hora que nem dava mais para saber quando e porque começou a discussão.
No eixo temático Mercado de Trabalho fizemos uma Moção de Recomendação ao palestrante (líder sindicalista) que usou todo o seu tempo de exposição para defender candidata a Presidência, criticando suas expressões com conotação de racismo como “branquelos”, entre outros absurdos que não vale a pena mencionar. Fizemos uma moção de recomendação para que não se repetisse mais este triste episódio, mas que ingenuidade a nossa, é claro que a Moção não foi aprovada. A sensação que tive era de que a Conferência Estadual estava sendo usada para outros fins, menos para o qual ela foi proposta.
Que decepção, o eixo Mercado de Trabalho a meu ver é o que vai demandar maior empenho e esforço por parte dos governantes para por fim a invisibilidade do negro neste segmento. E perdíamos muito tempo com conversas que não levavam ninguem a um consenso.
Os números mostram a baixa renda do negro, o menor número de postos na administração pública, e privada, o baixo índice de escolaridade e perdemos uma oportunidade de debater com mais intensidade de que forma vamos corrigir este problema.
E para completar o drama o tão esperado “coquetel” se transformou num verdadeiro caos. Sanduíches disputados a tapa antes mesmo de chegar a mesa com pessoas se comprimindo e se empurrando. Não tive dúvida, a cena era a de um navio negreiro, e o mais triste foi ver o nosso povo brigando entre si por míseros pedaços de sanduíches.
Para mim isso era só o reflexo do que tentam fazer com o Movimento Negro no Brasil, expô-los ao ridículo, jogá-los contra si em troca de pequenos favores e alguns privilégios. Em troca de cargos de liderança fictícios, por que na verdade se tornam marionetes que riem, aplaudem, xingam quando suas cordinhas são puxadas. E muitas vezes essa cordinha está no pescoço, hora por um cargo que garante o alimento na casa e o aluguel, hora por troca de favores que mantem a popularidade naquele espaço de domínio ou hora pelo medo de ter que voltar a ser militante no Movimento Negro e perder a mordomia e passar por privações.
Um momento de bálsamo foi quando uma “Moção de Aplausos” com uma grande festa no Salão Nobre da Faculdade de Direito São Francisco – USP foi lida e encaminhada ao Prefeito Municipal de Botucatu João Cury Neto pela criação da Assessoria Especial de Promoção da Igualdade.
Finalmente na Conferência Nacional. Por pouco não vimos repetir a Conferência Estadual, graças a firme posição do Ministro que manteve a ordem e o foco da Conferência Nacional e o principal objetivo deste grande encontro.
Desta vez outros segmentos queriam quase que pela força garantir sua participação na discussão. O Ministro por duas ou mais vezes era interrompido por manifestações mas, sua postura manteve a ordem nas Plenárias e nos debates de grupos.
Na Conferência Nacional é impossível não constatar que somos uma nação multiétnica e multirracial, e quão grande tem sido a contribuição destes diferentes povos.
O depoimento de alguns artistas com história de luta pelo Movimento Negro, me trouxeram ainda mais esperança neste processo. Como o de Isabel Fillardis, que na abertura da Conferência falou da dificuldade de ser mulher, negra, mãe. Lecy Brandão que resumindo pediu para que o Movimento Negro discutisse menos, falasse menos e agisse mais afinal estávamos lá para avaliar os avanços na promoção da igualdade racial, mas como avaliar propostas que nem sairam do papel?
Pior mesmo foi a situação da imprensa percebi ao chegar no Hotel que nem os noticiários da TV local falaram da CONFERÊNCIA só reforçou o que temos ouvido do amigo DOJIVAL sobre o Racismo Institucional e da invisibilidade do Negro na imprensa e em outros segmentos é claro.
Como justificar as atitudes de uma imprensa que fala maciçamente quase que por meses de queda de aviões, escândalos no Senado e não dá uma só palavra e não traz uma só linha de informação a população sobre importantes decisões tomadas que dizem respeito a todos os brasileiros. Isso também não é informação? Saber de que forma o país está planejando o seu futuro para acabar com as diferenças sociais não é importante?
Mas o Brasil é feito de bairros, comunidades, municípios então a lição de casa da Conferência Nacional é começar a partir de nós, em nosso bairro, em nosso município a valorização da contribuição que estes povos deram ao País.
Vamos lutar para que o “Preto saia do Branco” expressão que ouvia quando criança para que os acordos e contratos fossem cumpridos.

Conceição Vercesi